Simon, o franciscano atirador

“Dou nota quase dez para o Itamar. Depois, boto a Dilma. Em seguida, vem o Lula e, por último, o Fernando Henrique”

Discípulo da Ordem Terceira de São Francisco desde 2000, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) fez voto de pobreza e caminhou 136 km no sertão cearense com uma comitiva de romeiros. Como homem de fé, sabe que a palavra é uma arma poderosa. E não só para pregações. Com Simon, as palavras escapam como tiros de metralhadora. Em duas horas de conversa com a Revista Congresso em Foco, a sua artilharia verbal poupou pouca gente.

Simon dispara contra governadores e ministro

Os atuais governadores Tarso Genro (PT-RS), Beto Richa (PSDB-PR) e Raimundo Colombo (PSD-SC) são “um zero à esquerda”, fulmina. O ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, acrescenta, é outro “zero à esquerda, uma pataca”. Ao se referir à ministra da Cultura, Marta Suplicy (PT), detona: “O único título que conheço dela é o de ex-esposa do Suplicy”.

Perto de completar 83 anos, Simon, ex-governador, ex-ministro da Agricultura e senador pelo quarto mandato, é incansável. Apreciador de arborismo, um dos mais assíduos oradores no plenário do Senado, critica severamente os rumos do seu partido (PMDB), mas se recusa a deixá-lo: “Não vou sair de um partido que fundei para entregar nas mãos deles. O Sarney estava lá na Arena; o Renan, com o Collor. O mínimo que vou fazer é ficar dentro do partido, embora completamente deslocado”.

Também não acredita no PSDB e no PT. Mas baixa as armas ao falar de Dilma Rousseff: “Ela está tendo atitude”. E mantém o otimismo, animado por fatos como a Lei da Ficha Limpa e o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF). “Tudo leva a crer que estamos vivendo um dia novo no Brasil. O mensalão pode significar o imenso fim da impunidade”, acredita.

A metralhadora de Simon

Senado
“Quando cheguei aqui, o Senado tinha três ou quatro funcionários por gabinete. Hoje tem 30. Um Senado com 13 mil funcionários é uma loucura. Por mim, a Casa tinha de funcionar de segunda a sábado. Só funciona terça e quarta-feira. O Senado era o ápice. O cara chegava aqui depois de ser ministro ou governador. Hoje, não. Tem senador que se elege às custas do suplente. Alguns se candidatam a prefeito da capital, na eleição seguinte, para o suplente assumir”.

José Sarney
“O Pinheiro Machado foi presidente do Senado. Tudo que se pode imaginar ele foi. Na época, o Ruy Barbosa era um zero no Senado, perdia todas. O dono do Senado era o Pinheiro Machado, um chefão. Hoje, você olha para Pinheiro Machado como uma figura das mais ridículas. Para o Ruy Barbosa, como o grande patrono. O Sarney está muito mais colado ao Pinheiro Machado do que ao Ruy Barbosa. Houve uma mudança total desde quando cheguei aqui há 34 anos. É outro Senado. São 16 anos de Sarney”.

Renan Calheiros
“A única chance de o Renan não se eleger presidente do Senado é a imprensa voltar com as acusações contra ele. Mesmo assim, é muito difícil. Mas, se Deus existe, tudo é possível”.

PMDB
“O MDB histórico e ético acabou com a morte do Tancredo. O PMDB foi para o governo Sarney e desapareceu. Já me fizeram ofertas das mais generosas, que eu sairia do MDB com todas as honras e louvores. Não pediriam meu mandato. Eu agradeci e não aceitei. Não vou sair de um partido que fundei para entregar nas mãos deles. O Sarney estava lá na Arena; o Renan, com o Collor. O mínimo que eu vou fazer é ficar dentro do partido, embora completamente deslocado.”

PT
“Lamentavelmente, os partidos perderam conteúdo. O último foi o PT. Há 20 anos, o Senado tinha um único senador do PT, que era o Eduardo Suplicy. Ele vale muito mais que o Senado com os dez senadores do PT. Não troco o trabalho que ele fez pelo trabalho que os caras estão fazendo juntos. Ele era o PT. Hoje o PT é mais um partido. Era um partido puro. Que diferença tu achas que há entre o PT do Lula e o PSDB do Fernando Henrique? Nenhuma.”

PSDB
“O PSDB nunca foi projeto de coisa alguma, mas um movimento errático e intempestivo. Ficou aí e ganhou a Presidência na loteria como um bilhete premiado. O PSDB queria chegar ao poder com o Collor. Escapou por pouco, porque Collor mudou o governo dele. Ele queria colocar o Serra no Planejamento e o Fernando Henrique nas Relações Exteriores. Foi o [ex-governador Mário] Covas que fez reunião no diretório e mudou tudo. E eles decidiram não participar.”

Fernando Henrique Cardoso
“Fui líder do governo do Fernando Henrique até quando decidiram privatizar a Vale do Rio Doce. Na última hora, reuniram um grupo, pegaram os fundos de pensão e deram a Vale de presente. Aí rompi com o Fernando Henrique. Ele não tinha direito de fazer o que fez. No Brasil, grande nação em grande momento, comprar a reeleição como ele comprou? Foi vexatório.”

Lula
“Lula esteve na minha casa, antes de assumir pela primeira vez, me convidando para ser ministro. Eu disse a ele que não ficaria bem, que preferia ajudá-lo no Congresso. Uma vez a oposição reuniu 34 nomes em favor do meu nome para a presidência do Senado, mas o PMDB vetou a minha indicação, porque o presidente Lula pediu que se votasse no Sarney por ser o homem da confiança dele. Até hoje reconheço o Lula como uma pessoa séria. O pecado mortal do mensalão é a omissão do Lula, a irresponsabilidade dele. Mas quem fez tudo foi Zé Dirceu e companhia. Não vejo no Lula nada de corrupção, malandragem, cachorrada. Mas essas coisas de Zé Dirceu me lembram muito aquela época do sindicato, dos pelegos da ditadura. Vai ver daquela convivência restou alguma coisa.”

Dilma Rousseff
“É um governo sério. Nunca tive intimidade alguma com a Dilma. A família dela é o ex-marido, uma mãe de 90 anos, a filha e a neta. Não é como o Lula, que tem mais de dez irmãos, um monte de filhos e sobrinhos. Família grande, na política, é sempre um problema . A Dilma nunca teve participação no PDT e é absolutamente independente no PT. Está tendo atitude e está se esforçando. O Fernando Henrique não demitiu ninguém por corrupção. O Lula, menos ainda.”

A nota de cada presidente
“Da geração após a ditadura, dou nota quase dez para o Itamar. Dignidade, seriedade, firmeza, correção. Quase dez. Depois, boto a Dilma. Mas, para ela, até agora, não pode ser uma nota definitiva. Em seguida, vem o Lula e, por último, o Fernando Henrique.”

Ministros
“Quando a Dilma assumiu, eu disse na tribuna que o ministério dela lembrava muito o do Jango quando caiu. Hoje o ministério da Dilma é pior do que o que ela herdou do Lula. Não sei por quê. O Antônio Patriota é um zero à esquerda, uma pataca. A atuação dele no episódio do Paraguai foi uma vergonha, um fiasco, de um ridículo atroz. O outro era um bom ministro. Mas não vem me dizer que foi o Celso Amorim que fez aproximação com Venezuela e Irã. Foi o Lula. Tiraram essa da Cultura, que pelo menos entende de cultura, e botaram uma agora que o único título que conheço dela é de ex-esposa do Suplicy.”

Governadores e prefeitos
“Se olhar na eleição passada [para governador], não tinha ninguém. No Rio Grande do Sul, o Tarso é um zero à esquerda. No Paraná e em Santa Catarina, zero à esquerda. Na anterior, eram o Luiz Henrique em Santa Catarina, o Serra em São Paulo, o Aécio em Minas, o Eduardo Campos em Pernambuco. Era algo empolgante. A União é hoje tão forte que até o governador de São Paulo não tem peito de abrir a boca contra o governo federal porque precisa dele. A receita está toda aqui. Os prefeitos viraram uns pedintes. E os governadores também. É a triste realidade.”

Dia novo
“A Lei da Ficha Limpa é um fato novo importante. Tudo leva a crer que nós estamos vivendo um dia novo no Brasil. O mensalão pode significar o imenso fim da impunidade. Uma coisa que não vai ter mais é senador, deputado que matou o cara lá fora e continua senador, deputado, e não vai júri porque tem imunidade parlamentar. Isso vai acabar. Estou indo para a tribuna todos os dias e estranho esse silêncio que há em torno do momento que estamos vivendo. Pode ser porque a sociedade não está acostumada a ver resultado nenhum. Por que ela vai ver? Ninguém foi preso. Mas a estamos a caminho disso.”

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