Serra rebate suspeita e diz que merecia “medalha anticartel”

Ex-governador diz que atuou para que menor preço prevalecesse em licitação para a compra de 45 trens. Segundo ele, medida garantiu economia de R$ 200 milhões ao governo paulista

Em nota enviada ao Congresso em Foco, o ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB) rebateu o promotor de Justiça Marcelo Milani, que pediu ao procurador-geral de Justiça do estado que apure indícios de envolvimento do tucano no cartel do setor metroferroviário. Serra diz que sua gestão fez o estado economizar R$ 200 milhões na compra de 45 trens para a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e, por isso, merecia ganhar uma “medalha anticartel”.

O ex-governador paulista diz que defendeu a manutenção do resultado da concorrência vencida pela espanhola CAF porque a licitação foi baseada no critério do menor preço. “Qualquer manual anticartel nos daria razão. Ganharíamos a medalha anticartel”, afirmou.

O promotor Marcelo Milani, que investiga o cartel dos trens, pediu ao procurador-geral de Justiça, Márcio Elias Rosa, que aprofunde as investigações sobre a eventual ação de José Serra no chamado projeto Boa Viagem, de modernização de trens, implantado na gestão do tucano. Apenas o chefe do Ministério Público Estadual pode investigar um ex-governador. “Eu já firmei opinião no sentido de que há indícios da participação do ex-governador”, disse Milani ao jornal O Estado de S. Paulo.

“A Siemens, alemã, ofereceu preços bem mais altos, ficou em segundo lugar e não recebeu qualquer tipo de compensação. A fim de anular a concorrência, ela entrou com vários recursos nas áreas administrativa e judicial, mas não teve êxito. E o governo disse que se tivesse êxito, anularia a licitação e faria uma nova. Mas prevaleceram a concorrência e os preços mais baixos. Se não tivessem prevalecido, teríamos feito nova concorrência”, contestou Serra.

Para embasar a necessidade de aprofundar as apurações em relação ao ex-governador, Milani cita depoimento prestado em novembro do ano passado pelo ex-diretor da Siemens Nelson Branco Marchetti à Polícia Federal.

De acordo com a manifestação do promotor de Justiça, Marchetti relatou ter sofrido pressão de assessores de Serra para desistir de qualquer judicial contra a licitação do Boa Viagem. Em seu depoimento, o executivo relatou ter se encontrado com José Serra em uma feira na Holanda, em 2008. Segundo ele, o então governador lhe disse que o governo cancelaria a concorrência caso a Siemens recorresse à Justiça para desclassificar a CAF. Marchetti afirmou que, mesmo não tendo o capital social integralizado exigido em edital, a empresa espanhola foi defendida por Serra e seus secretários.

Veja a íntegra da nota de José Serra:

“A concorrência para compra de 45 trens para a CPTM foi uma ação anticartel, de defesa do estado e da população. Ganhou a empresa espanhola CAF, que ofereceu o menor preço. O Estado economizou cerca de 200 milhões de reais. A Siemens, alemã, ofereceu preços bem mais altos, ficou em segundo lugar e não recebeu qualquer tipo de compensação. A fim de anular a concorrência, ela entrou com vários recursos nas áreas administrativa e judicial, mas não teve êxito. E o governo disse que se tivesse êxito, anularia a licitação e faria uma nova. Mas prevaleceram a concorrência e os preços mais baixos. Se não tivessem prevalecido, teríamos feito nova concorrência. Qualquer manual anticartel nos daria razão. Ganharíamos a medalha anticartel.”

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