Senador chama ministro de ‘safado’ e ‘mentiroso’

Aos gritos, Magno Malta subiu à tribuna do Senado para reagir às declarações de Gilberto Carvalho sobre a "disputa ideológica" a ser travada pelo governo contra líderes evangélicos

Magno Malta - Foto: Felipe Barra

A sessão plenária do Senado desta quarta-feira (8) caminhava serenamente para o encerramento, sob a presidência do senador petista Paulo Paim (RS). Mas, em poucos instantes, a tranquilidade deixou o recinto com o pronunciamento do líder do PR em 2011, Magno Malta (ES), que chamou o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência da República), entre outros adjetivos, de “mentiroso” e “safado”. Era uma resposta de Magno, evangélico, às declarações feitas pelo ministro no Fórum Social Mundial 2012 (Porto Alegre, entre 24 e 29 de janeiro) sobre a “disputa ideológica” que deveria ser cultivada pelo governo contra lideranças religiosas.

“É preciso fazer uma disputa ideológica com os líderes evangélicos pelos setores emergentes”, disse Gilberto Carvalho, para quem o grupo político que conseguir atrair o apoio dos religiosos terá mais sucesso nas urnas, nas eleições municipais deste ano. Segundo Magno Malta, o ministro disse ainda que, depois de “reduzir a oposição a pó”, o próximo passo do governo seria enfrentar os “pastores fundamentalistas”. “Ele não teve coragem de falar dos padres.”

Aos gritos, Magno falou por cerca de vinte minutos, e usou palavras contundentes contra Gilberto Carvalho. “Vou falar uma palavra aqui e ele só vai poder me processar quando eu não tiver mais mandato. Safado!”, acrescentou Magno Malta, falando para um plenário vazio ocupado apenas por Paim e os deputados Manato (PDT-ES) e Audifax (PSB-ES), ambos governistas e da bancada evangélica da Câmara – o senador Ricardo Ferraço, PMDB-ES, saiu durante o discurso.

Aliança de ocasião

Magno disse que, na corrida presidencial de 2010, quando a presidenta Dilma Rousseff esteve às voltas com os eleitores religiosos por causa das versões de que seria a favor do aborto, Gilberto Carvalho e a direção da campanha petista “bajulavam” os parlamentares evangélicos. Dirigindo-se ao senador Paulo Paim, que demonstrava constrangimento na condição de membro da base, Magno continuou a atacar o ministro, e lembrou de episódios das eleições de 2010, quando ele e outros líderes evangélicos foram escalados para “desdemonizar” Dilma diante do eleitorado.

“Quero lembrar, presidente Paim, ao Gilberto Carvalho... vossa excelência estava na disputa, com a história que tem, para senador no Rio Grande do Sul, e era o terceiro [nas pesquisas]. Eu vim a Brasília gravar propaganda eleitoral para Paim. Sabe para pedir voto a quem? Meus irmãos evangélicos do Rio Grande do Sul, seu cara de pau! Cara de pau! Você precisa de um vidro de óleo de peroba”, disse o senador capixaba, aumento o tom dos insultos e sugerindo que os líderes de bancada no Congresso deveriam acionar Gilberto judicialmente. “Você é mentiroso. Gilberto Carvalho, eu falei para você, não falei? Você é mentiroso, e eu continuo pensando.”

Segundo Magno Malta, Gilberto Carvalho virou as costas para os aliados de campanha depois da vitória de Dilma, e passou a se comportar como “deus do Olimpo” e a rejeitar telefonemas, já instalado no Palácio do Planalto, de quem lhe prestou o apoio junto aos eleitores religiosos. “Fui para uma reunião [no Planalto] em que estavam [o ex-ministro da Casa Civil, Antonio] Palocci – que já caiu – Gilberto Carvalho e José Eduardo Dutra [ex-presidente do PT]. Uma reuniãozinha pequena, numa sala pequena. Eu olhei para o Everaldo [Pereira], presidente do PSC, e falei: ‘Olha bem para a cara do Gilberto Carvalho, isso é um mentiroso. [...] Quando subiu ao poder, você nem atende a telefonema de ninguém”, acrescentou Magno, para quem o ministro “se esqueceu da lição” das eleições, que resultou em um arriscado segundo turno para Dilma contra o tucano José Serra.

Versão oficial

A assessoria de imprensa da Secretaria-Geral disse que a fala de Gilberto Carvalho não foi contra evangélicos e congêneres. O teor do discurso, alegou a assessoria, abordou a influência dos evangélicos em setores da economia, interferência esta reconhecida pelo ministro.

Já o Palácio do Planalto, instantes depois da repercussão negativa das declarações, alegou que elas não refletem o pensamento oficial do governo Dilma Rousseff, mas um posicionamento pessoal do ministro, que na verdade se tratava de uma “análise política”. A assessoria enfatizou ainda o respeito pelos evangélicos.

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