Rollemberg diz que errou ao prometer reajuste a servidor

Na segunda parte da entrevista ao Congresso em Foco Brasília, o governador do Distrito Federal afirma que não deveria ter prometido um ano atrás pagar a última parcela do reajuste do funcionalismo em outubro de 2016

Próximo de concluir a primeira metade de seu mandato, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), avalia que errou ao prometer aos servidores distritais que pagaria este mês a parcela do reajuste salarial negociado com representantes do funcionalismo público. O compromisso foi assumido por ele em setembro do ano passado em meio a uma onda de greves que paralisou 15 categorias.

Nesta segunda parte da entrevista exclusiva concedida ao Congresso em Foco Brasília, Rollemberg reconhece que sua gestão também tem pecado por inexperiência administrativa. “A nossa falha é natural de uma geração que chega ao poder com gente preparada, bem intencionada, mas sem um grande traquejo administrativo. Outro erro foi termos fixado uma data para pagar o reajuste dos servidores em um ambiente que ainda estava com muita instabilidade política e tinha expectativa de que a economia pudesse voltar a crescer. Por fim, o que aconteceu foi o contrário. Tivemos mais um ano de recessão.”

No início de seu governo, Rollemberg já havia reconhecido ter se equivocado na relação com aliados como os senadores Cristovam Buarque (PPS-DF) e Reguffe (sem partido-DF) ao não ter adiantado a eles as medidas que proporia de ajuste fiscal.  Se errou na forma de apresentar as propostas, o governador entende que seu maior acerto foi justamente levar adiante essas propostas, mesmo com todo o desgaste político causado pela impopularidade de iniciativas como o aumento de impostos e o congelamento de salários.

“O principal acerto foi ter tido a coragem de fazer as coisas que precisam ser feitas. Eu acho que essa coragem de dizer ‘eu não vou quebrar Brasília’ é um aspecto positivo do nosso governo. Nosso governo tem sido muito correto, tem abolido práticas antigas e nefastas da política local. Porém, isso gera um custo político muito alto. Enfrentar o problema da corrupção e os interesses privados que existiam dentro do Estado aumenta este custo”, considera.

A última parcela do reajuste negociado pelo ex-governador Agnelo Queiroz (PT), em 2014, deveria ter sido incorporada aos contracheques dos servidores de 32 categorias há um ano. Mas, diante do rombo nas contas públicas, Rollemberg adiou o pagamento para outubro de 2016. No último dia 14, porém, o governador anunciou que não tinha dinheiro em caixa para honrar o compromisso, que elevaria em R$ 122 milhões por mês os gastos públicos. A folha de pagamento consome, atualmente, 77% do orçamento do Distrito Federal. Em resposta, diversas categorias articulam a deflagração de greves.

Rollemberg diz não acreditar que em greves generalizadas. “Vamos enfrentar algumas greves isoladas. Não vejo como uma greve possa ter hoje a adesão maciça dos servidores. Eles sabem que a greve não vai resolver. Se fizerem, vai ter aumento? Não estamos dando aumento porque não queremos dar, mas porque não temos condições materiais de dar. O servidor vai perceber que se fizer essa greve, ela será contra ele.”

Veja a segunda parte da entrevista do governador ao Congresso em Foco:

Congresso em Foco – Quais foram os maiores erros e acertos de seu governo até agora, na sua avaliação?

Rodrigo Rollemberg – O principal acerto foi ter tido a coragem de fazer as coisas que precisam ser feitas. Eu acho que essa coragem de dizer “eu não vou quebrar Brasília” é um aspecto positivo do nosso governo. Nosso governo tem sido muito correto, tem abolido práticas antigas e nefastas da política local. Porém, isso gera um custo político muito alto. Enfrentar o problema da corrupção e os interesses privados que existiam dentro do Estado aumenta este custo. Essa postura correta do governo dá possibilidade de criarmos parcerias, gerando no setor produtivo a confiança de que as práticas aqui mudaram. O que a gente percebe é o interesse do empresário de investir no DF. Nós já estamos com um conjunto de parcerias na rua, seja por concessões ou PPPs (parcerias público-privadas) para a promoção do desenvolvimento.  A nossa falha é natural de uma geração que chega ao poder com gente preparada, bem intencionada, mas sem um grande traquejo administrativo. Outro erro foi termos fixado uma data para pagar o reajuste dos servidores em um ambiente que ainda estava com muita instabilidade política e tinha expectativa de que a economia pudesse voltar a crescer. Por fim, o que aconteceu foi o contrário. Tivemos mais um ano de recessão.

Faltou melhor diálogo com os servidores ao tratar do reajuste?
Não acho que tenha tido falha no diálogo com os sindicatos e os servidores. Nós estamos sendo bem transparentes. Os sindicatos têm uma interlocução aberta com o governo e com os secretários. Tanto é verdade que ninguém tem dúvida de que o governo está falando a verdade. Ou seja, nós não estamos dando o aumento neste momento por total impossibilidade de fazê-lo. Se déssemos o aumento, já no primeiro mês não teríamos condições de pagar os salários, o que seria muito ruim para a cidade. Em Brasília, nós estamos com 77% do orçamento destinado ao pagamento de pessoal. Nós ainda temos 20% para custeio, 1% para pagamento de dívidas e apenas 2% para investimento. Isso tornou-se insustentável porque o que movimenta a economia de uma cidade são os recursos para investimento, que estão muito escassos.

Por que ficaram tão escassos?
O motivo é o orçamento que, em grande parte, é apropriado para o pagamento de salários. Vale ressaltar que as medidas que tomamos no ano passado aumentaram a arrecadação e nos permitiram manter os pagamentos em dia, ao contrário de muitas unidades da Federação. O problema é que nós não tivemos a correspondência dos recursos federais, que caíram bastante. Nós perdemos 382 milhões de reais do Fundo constitucional, sofremos uma queda na participação no Fundo de Participação dos Estados, além da redução no fundo de participação dos municípios e da redução nas transferências voluntárias. Ou seja, uma redução de mais de R$ 1 bilhão ao longo do ano de 2016.                                               

A que o senhor atribui o alto índice de rejeição ao seu governo?
A gente atribui a um conjunto de fatores. O próprio ajuste fiscal gera este tipo de desgaste, principalmente com relação aos servidores, que começam a compreender, no meu entendimento, que é muito melhor ter a segurança do salário pago em dia do que você dar um aumento e não ter condições de pagar. Mas, nós tivemos que tomar medidas muito duras no início do governo: diminuímos de 38 para 19 secretarias, reduzimos quatro mil cargos comissionados e tivemos que aumentar alguns tributos, por exemplo. E é claro que estas medidas, num primeiro momento, trazem consequências negativas para o governo. Por outro lado, nós somos contaminados por um ambiente negativo na política que atinge especialmente Brasília. Há um descrédito muito grande da política e dos políticos de uma forma geral e isso afeta de certa medida todos os governos, mas é mais forte em Brasília porque a cidade que respira política.

Com o cancelamento do reajuste do funcionalismo, como fica a relação do senhor com o funcionalismo até o fim de seu mandato?
Sinceramente, não acredito. O fato de essa crise ter atingido outros estados e estar ocupando espaço na mídia fez as pessoas perceberem que o Brasil está tomado por grande crise, e Brasília não é uma ilha. O servidor público, não o dirigente sindical, tem consciência de que é muito melhor receber em dia do que o governo dar um aumento que não consegue dar. Nesse caso, vai ter de atrasar salário ou parcelar. O salário em dia dá segurança à sua família. Percebo que grande parte dos servidores compreende que este não é o momento de dar aumento. Alguns dirigentes sindicais, aqueles que têm interesse político, fizeram mobilizações. E normal no processo democrático.

O senhor não teme uma onda generalizada de greves?
Vamos enfrentar algumas greves isoladas. Não vejo como uma greve possa ter hoje a adesão maciça dos servidores. Eles sabem que a greve não vai resolver. Se fizerem, vai ter aumento? Não estamos dando aumento porque não queremos dar, mas porque não temos condições materiais de dar. O servidor vai perceber que se fizer essa greve, ela será contra ele.

O senhor também tem sido criticado por parlamentares distritais e federais pela relação que mantém com eles. O senhor concorda com essas críticas?
Nós temos de fato uma postura diferente do que comumente era feito com relação aos parlamentares, embora não possamos adotar de uma vez essa “nova política” – que é um processo de transformação permanente. Apesar das pessoas dizerem que nós não temos base na Câmara Legislativa, nós aprovamos 90% dos projetos que encaminhamos à Casa. E foi isso que permitiu que o Distrito Federal estivesse enfrentando com sucesso esta crise. Olhe para o Brasil, nós não podemos considerar Brasília uma ilha. A crise econômica também atingiu Brasília. Vamos comparar a situação com outras grandes unidades da Federação, algumas não vou conseguir pagar o 13º, estão com muita dificuldade para pagar fornecedores e prestadores de serviço. E graças a muito esforço esta não é a situação de Brasília.

Mas por que tantos parlamentares o criticam?
É natural receber críticas de parlamentares, porque muitas concessões nós não fazemos. Nós limitamos, por exemplo, as indicações políticas. Veja as empresas públicas do Distrito Federal como estão atualmente e como recebemos. Elas estavam quebradas. Nós não temos indicações políticas no BRB, na CEB, na CAESB. A CEB, por exemplo fechou 2014 com um resultado negativo de R$ 85 milhões e nós vamos passar 2016 com o resultado positivo de R$ 185 milhões, graças a uma administração absolutamente profissional. A CAESB tem conseguido fazer investimentos importantes porque está tendo uma gestão profissional. É claro que não fazer concessões deste tipo dificulta a relação com a velha política.

O senhor já foi chantageado?
Nunca fui vítima de chantagem, propriamente, mas o fato de não atender determinadas reivindicações cria animosidade por parte de alguns parlamentares.

Mas até senadores que apoiaram sua eleição, como Cristovam Buarque e Reguffe, reclamam de sua gestão.
Eu tenho uma boa relação com o senador Reguffe. Mas, ele tem um mandato muito voltado a si e para determinadas posturas, que considero corretas e elogiáveis, mas ele nunca se envolveu muito na vida da cidade. De qualquer forma, não tenho queixas a fazer sobre o senador Reguffe.  Ele se queixa, por exemplo, do governo não ter adotado a ideia dele de dar e isenção aos medicamentos. Mas, eu expliquei a ele que nós estamos fazendo muito esforço para aumentar as receitas e não podemos, neste momento, abrir mão de receitas. Eu já disse a ele que no momento oportuno e que tivermos condições de colocar em prática esse projeto, nós faremos. Já o senador Cristovam fez uma opção política de ir para o PPS, onde estão os dois deputados distritais que estavam fazendo a oposição mais ácida ao governo [Celina Leão e Raimundo Ribeiro]. E isso acabou provocando um distanciamento dele e do governo. Mas eu tenho por ele o maior apreço e estima. Inclusive vou ligar para ele para parabenizar pelo artigo publicado hoje [terça, 18] no Correio Brasiliense.

Com os deputados federais eu tenho procurado ter uma relação republicana com a bancada e atendendo os pedidos da bancada que são de interesse da cidade. E sempre dou os créditos ao parlamentar, não tenho dificuldade nenhuma em compartilhar os dividendos com os deputados, seja ele de governo ou de oposição. Nós somos o governo com maior índice de aplicação de emenda parlamentar dos deputados federais.

O senhor é candidato à reeleição em 2018?
Hoje seria muito prematuro prever qualquer coisa com relação a 2018. Com o tamanho do desafio que está colocado em minha frente, eu tenho a certeza de que devo fazer o que precisa ser feito, sem pensar em próxima eleição. Eu prefiro pensar nas próximas gerações, em vez de focar nas próximas eleições. Estou fazendo tudo aquilo que consideramos correto para o Distrito Federal, sem pensar em ônus ou dividendos políticos.

A crise na Câmara Legislativa, com o afastamento da Mesa Diretora, já se tornou policial. Quem o senhor pretende apoiar para a presidência da Casa?
Essa crise é problema interno da Câmara Legislativa. Não me cabe comentar. Há vários deputados com condição de presidi-la. No momento adequado, a Câmara vai escolher sua Mesa Diretora e o governo vai manifestar à sua base a sua preferência por um ou outro candidato. É cedo. Faremos isso no momento adequado, em dezembro.

Por que a presidente afastada da Câmara Legislativa, Celina Leão, passou de aliada à sua maior adversária?
A deputada Celina, quando quis aprovar emenda em segundo turno da reeleição dela, fez isso sem articular com o governo. Pedi aos parlamentares da base que não votassem aquilo naquele momento, e isso a irritou profundamente. Ela passou a ter uma postura de oposição. Vamos tratar a Câmara com todo respeito que sempre tratamos.

Todo governo tenta consolidar uma marca. Que marca quer deixar o governo Rollemberg?
Primeiro, a marca da responsabilidade. Um governador que pegou a cidade quebrada e permitiu que ela pudesse retomar o seu desenvolvimento. Depois a qualidade de vida. Após o nosso governo, a qualidade de vida vai melhorar porque vamos garantir abastecimento de água para as futuras gerações, tratamento adequado do lixo, trabalho digno para os catadores de material reciclável, democratizar a orla do lago Paranoá, retomar o desenvolvimento econômico com a geração de empregos. Também pretendemos garantir a universalização da educação infantil e a evolução da educação integral, melhorando a qualidade da saúde. A responsabilidade e a qualidade de vida serão reconhecidas ao final do governo.

O senhor pretende inaugurar que grandes obras até o fim de seu mandato?
Temos algumas obras grandes em curso. A obra de infraestrutura do Sol Nascente é de R$ 176 milhões, a de infraestrutura de Vicente Pires é de R$ 470 milhões, a obra do Trevo de Triagem Norte é de R$ 130 milhões. As obras de abastecimento de água e esgoto são de mais de R$ 100 milhões. O que importa não é o valor das obras, mas o valor do benefício que elas irão produzir para a população. Na área de mobilidade, vamos inaugurar até o fim do ano 17 terminais novos ou reformados. Estamos fazendo obras que vão melhorar a questão da mobilidade, como a ciclovia que vai ligar o Plano Piloto até Taguatinga. Estamos revendo algumas linhas e investindo em tecnologia para garantir melhor acesso aos ônibus. A própria parceria público-privada da Transbrasília vai permitir uma reconfiguração urbana desse eixo Plano Piloto, Guará, Águas Claras, Taguatinga e Samambaia.

Há projeto para expandir linhas de metrô?
Estamos trabalhando em alguns projetos, já licitamos alguns. E estamos em busca de empréstimos pendentes na Secretaria do Tesouro Nacional tanto para a conclusão de estações do metrô como para a expansão do metrô em Samambaia. A expansão para a Asa Norte não tem condições de sair no nosso governo. No máximo, o projeto.

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