Rollemberg acusa vice de “armação” e deslealdade

Governador do Distrito Federal diz que participação de seu vice, Renato Santana, em áudio que sugere que ele sabia de esquema de corrupção na área da saúde foi ato desrespeitoso do colega que tinha como objetivo desgastar sua gestão

 

 

 

Depois da guerra entre a ex-presidente Dilma Rousseff e o atual presidente Michel Temer (PMDB), detonada pelo processo de impeachment da petista, Brasília é palco de um novo divórcio litigioso entre um titular do Executivo e seu vice. Em entrevista exclusiva que marca a estreia da seção Congresso em Foco Brasília, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), acusa o seu vice, Renato Santana (PSD), de participar de uma “armação” para desgastar sua gestão.

A declaração é feita três meses após a divulgação de áudio em que Santana diz a uma sindicalista que o governador tinha conhecimento da existência de um esquema de corrupção na área da saúde, mas que não havia tomado providências. O episódio precipitou a maior crise política do atual governo e a instalação da CPI da Saúde na Câmara Legislativa.

Embora diga que o assunto está “superado”, Rollemberg afirma que o vice-governador agiu com “desrespeito” e “deslealdade” em relação ao governo. “Tenho que ser franco. Nenhum governador deu tanto espaço ao vice para fazer política, servir a cidade como eu dei. Infelizmente o episódio das gravações das fitas do vice-governador em conversas com a Marli (Rodrigues, presidente do Sindicato dos Servidores da Saúde) demonstram, em primeiro lugar, um desrespeito com o governo. É uma falta de lealdade ao governo e às políticas desenvolvidas”, declarou.

O governador admite que a relação entre os dois hoje é de frieza. “Para mim, está muito claro que tinha uma armação em curso. E isso ficou muito claro quando surgiu a CPI. Nós somos os mais interessados na investigação sobre a saúde. Todos os elementos foram para a Procuradoria-Geral da República, que se manifestou rapidamente atestando que não havia envolvimento do governador”, afirmou.

Em setembro, Renato Santana classificou de “retaliação” as mudanças administrativas promovidas por Rollemberg que esvaziaram seu poder, com a criação de uma secretaria para cuidar das administrações regionais – até então sob seu controle – e a retirada de 100 cargos preenchidos por indicações do vice-governador. Procurado pela reportagem para comentar as declarações do governador, Santana não respondeu os questionamentos até o fechamento da reportagem.

Em seu primeiro mandato como governador do Distrito Federal, Rollemberg se orgulha em ser o primeiro representante da chamada geração Brasília, de políticos que cresceram na cidade, a chegar ao poder. Aos 57 anos – apenas um a mais que a capital – o ex-senador e ex-deputado afirma que luta por uma “nova política”, mas reconhece que a tarefa é árdua e o processo uma “transformação permanente”.

Em quase dois anos de mandato, o governador tem convivido com uma crise econômica sem precedentes, um rombo bilionário nas contas públicas, pressão de servidores por reajustes salariais, problemas na saúde, greves de diversas categorias e elevados índices de rejeição ao seu governo. Cenário que, segundo ele, mudará na segunda metade da sua gestão, quando, acredita ele, começará a colher os benefícios das medidas que tomou para tentar reequilibrar as contas.

Confira a seguir trechos da primeira parte da entrevista de Rollemberg ao Congresso em Foco:

Congresso em Foco – Como está a relação do senhor com o seu vice, Renato Santana, após a divulgação dos áudios em que ele sugere que o senhor sabia de um esquema de corrupção na saúde?
Rodrigo Rollemberg –
Eu tenho que ser franco. Nenhum governador deu tanto espaço ao vice para fazer política, servir a cidade como eu dei. Infelizmente o episódio das gravações das fitas do vice-governador em conversas com a Marli (Rodrigues, presidente do Sindicato dos Servidores da Saúde) demonstram, em primeiro lugar, um desrespeito com o governo e uma falta de lealdade às políticas desenvolvidas. Levam-nos a suspeitar até mesmo que haja uma armação. E é claro que isso causou um esfriamento nas relações com o vice-governador. Mas mantemos uma boa relação com Rogério Rosso (deputado federal e presidente do PSD, partido de Santana), com o PSD e damos este episódio como superado.

O senhor se inclui entre os que acreditam que houve armação?
Para mim está muito claro que tinha uma armação em curso. E isso ficou muito claro quando surgiu a CPI e nós somos os mais interessados na investigação sobre a saúde de todos os elementos foram para a Procuradoria Geral da República, que se manifestou rapidamente atestando que não a envolvimento do governador. Os fatos estão aí para demonstrar que nós não tivemos nada a ver com isso. A investigação que hoje corre é do provável envolvimento de outros atores neste processo de suposto desvio de verbas da saúde.

O interesse do vice-governador, no caso, seria a aprovação do seu impeachment?
O interesse deste processo pode ser desgastar o governo. Não sei qual objetivo especificamente, mas está muito claro que tinha uma armação em curso.

O senhor está com elevados índices de rejeição e tem enfrentado sérios problemas com os servidores públicos, agravados com a decisão de não dar agora a parcela do reajuste salarial negociado por seu antecessor...
É importante contextualizar que todos os governadores estão vivendo problemas financeiros muito graves. Nós assumimos Brasília na pior das situações do país e hoje podemos dizer que, apesar de todas dificuldades, nós estamos em uma situação melhor do que a maioria dos estados brasileiros. Temos mais da metade dos estados brasileiros com salários atrasados, parcelando dívidas e alguns sequer vão pagar o 13º. Em Brasília, onde se tem a maior massa salarial, o maior salário médio do Brasil no serviço público, os servidores estão recebendo salários e 13º no dia do seu aniversário em dia. Assim como os fornecedores e prestadores de serviço, que estão recebendo do governo praticamente em dia. O que ainda nos resta é uma dívida de R$ 1,5 bilhão e a necessidade de R$ 900 milhões para fechar o fluxo de caixa do ano.

Qual é o maior desafio de seu governo hoje?
Hoje eu não tenho dúvida que garantir o equilíbrio financeiro de uma Unidade da Federação será um grande feito para qualquer governador, e nós estamos perseguindo isso no Distrito Federal. Mas temos um conjunto de obras e iniciativas já em curso. Algumas mais adiantadas outras menos adiantadas, mas que certamente vão melhorar muito a qualidade de vida da população de Brasília.

Qual o caminho para solucionar a crise financeira do governo do DF?
Nós temos recursos reconhecidos pela União, que, se pagos, nos ajudariam a sair da crise. Temos recursos da compensação previdenciária na casa dos R$ 700 milhões que a União nos deve, e que podemos receber. Há também o pleito pelas operações de crédito que podem significar ao entorno de R$ 600 milhões, já em negociação com o Banco do Brasil. E, ainda, estamos discutindo no Tribunal de Contas da União (TCU) o superávit do Fundo Constitucional do Distrito Federal para que os recursos não retornem para União em 31 de dezembro, como ocorre atualmente. Esta última medida significaria mais R$ 200 milhões. Ao todo, conseguindo as três fontes de arrecadação, receberíamos R$ 1,5 bi e resolveríamos nossos problemas.

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