Richa culpa PT por crise e acusações no Paraná

Acusado de ter campanha à reeleição financiada por esquema de corrupção e de ter avalizado a violência policial contra professores, governador tucano diz ao Congresso em Foco ser vítima de “jogo político” de petistas para “desviar o foco” de escândalos nacionais

Acusado de ter avalizado a violência policial a protesto de professores e outras categorias do serviço público no final de abril, o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), enfrenta agora denúncia de que teve sua campanha à reeleição financiada por um esquema de corrupção que lesou a Receita estadual. Protagonista de uma das mais graves crises políticas do país no momento, o tucano diz ser vítima de “jogo político” do PT para “desviar o foco” das denúncias contra o governo Dilma.

“Não tenho dúvida. Isso me leva a crer que é um movimento político, sim, para desvio de foco de todos os escândalos que temos visto, diariamente, pela imprensa, o desgaste nacional do PT. Eles querem um contraponto a isso, para desviar o foco de tudo o que está acontecendo no país”, disse em entrevista ao Congresso em Foco.

Com um dos maiores índices de reprovação do país (em fevereiro, 76% dos paranaenses desaprovavam seu governo, segundo o instituto Paraná Pesquisas), Richa atribui a petistas a responsabilidade pela greve dos professores. “O sindicato, que é um braço sindical do PT, divulgou para os servidores públicos, de forma maldosa e irresponsável, que o projeto que estava em votação – que gerou aquela polêmica, aquela manifestação em frente à Assembleia Legislativa – iria acabar com a aposentadoria de todos os servidores. Isso é uma mentira deslavada, uma falácia”, declarou o governador. “Isso gerou uma fúria muito grande dos servidores, que foram mal informados pelo sindicato, com o desejo político de me causar desgaste.”

Selvageria

No dia 29 de abril, a Polícia Militar do Paraná repreendeu de maneira truculenta o protesto encabeçado pelos professores. Mais de 200 manifestantes e 20 policiais saíram feridos. As cenas da selvageria correram o mundo e viraram um problema diário para Richa, com desdobramentos no Congresso.

Um deles é a representação da bancada do Psol no Parlamento contra o governador na Procuradoria-Geral da República, responsabilizando-o penal, civil e administrativamente pelos excessos policiais, bem como os demais responsáveis pelos episódios de violência.

De passagem por Brasília para participar de encontro, nesta quarta-feira (20), entre governadores e os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Richa classificou como tempestade passageira a crise política que enfrenta. “Vamos enfrentar com firmeza, com a verdade. Não vão conseguir paralisar o estado do Paraná, que avança, segue em frente, se moderniza dia a dia. E que tem dado grandes exemplos de conquistas e é referência, em muitas áreas, para o resto do Brasil.”

Luta continua

Ele admitiu, no entanto, que seu problema com os professores está longe de acabar. O tucano alega que não há fundamentação para a paralisação nem para o descontentamento dos servidores, resultado da aprovação e sanção do Projeto de Lei 252/2015, que promove alterações no custeio da ParanaPrevidência, regime de Previdência Social próprio dos servidores paranaenses. Sancionado em 30 de abril, o projeto, cuja estimativa de economia mensal para o governo Richa é de R$ 125 milhões, transfere 33.556 beneficiários com 73 anos ou mais do Fundo Financeiro, bancado pelo governo estadual, para o Previdenciário, constituído por contribuições dos servidores.

O governo Richa tem dito que todas as garantias trabalhistas dos servidores públicos serão preservadas e que cálculos atuariais feitos por especialistas asseguram a solvência do sistema por 29 anos. O Fundo Previdenciário, diz o tucano, está capitalizado por investimentos que ultrapassam R$ 8,5 bilhões. Já os servidores argumentam que a mudança na origem de custeio vai comprometer a saúde financeira da ParanaPrevidência com o tempo, fazendo-a pagar mais do que arrecadar.

“A greve continua, lamentavelmente. Sem objeto, sem o menor fundamento. Mesmo porque acredito que sou o governador que concedeu, nos últimos quatro anos, o maior aumento do Brasil – não sei outro estado deu aumento maior: 60% é o maior aumento da história do Paraná. Cerca de 32% de ganho real acima da inflação. Ampliamos em 75% [o pagamento] da hora-atividade”, disse o governador. Richa garante que o sistema de previdência do Paraná é “o mais capitalizado do Brasil”, com grande volume recursos do Tesouro do Estado. “É o mais seguro e o que tem uma das maiores solvências do país”, completou.

Propina

Na última semana, Beto Richa virou alvo de denúncia de um delator de um esquema de corrupção na Receita estadual do Paraná. Luiz Antônio Souza diz que a campanha à reeleição de Richa recebeu R$ 2 milhões de propina, dinheiro repassado por empresários a funcionários públicos em troca da redução ou anulação de dívidas tributárias. As  62 pessoas denunciadas pela Promotoria são acusadas de causar prejuízo de R$ 50 milhões aos cofres públicos nos últimos dez anos. O tucano desqualifica a acusação, dizendo se tratar de “coisa de bandido”. O auditor entregou aos investigadores cópias das notas fiscais da compra de divisórias de compensados instaladas no comitê de campanha à reeleição do governador, como mostrou ontem a Folha de S.Paulo. O PSDB paranaense diz que jamais recebeu dinheiro de propina.

Beto Richa diz receber o apoio da cúpula nacional de seu partido para enfrentar a crise no Paraná. “Tenho recebido apoio não só do PSDB nacional, mas de muitos políticos renomados e decentes deste país, que estão vendo o que está acontecendo no Paraná. Nitidamente, é um jogo político para desviar o foco, para me causar desgaste político no Paraná. Mas isso já começa a se desfazer, e vamos reverter esse quadro com muito trabalho, como nós gostamos e sabemos fazer”, discursou o tucano, acrescentando que nunca se investiu tanto na educação paranaense e na valorização dos profissionais de educação.

Cicatrizes

A violência policial contra professores e demais manifestantes teve consequências imediatas para Richa, que inicialmente defendeu suas tropas e chegou a colocar a culpa do descontrole nos “vândalos” e “black blocs” supostamente infiltrados no ato público. Três baixas no primeiro escalão do governo foram registradas: caíram o secretário de Segurança Pública, Fernando Francischini, deputado federal pelo Solidariedade; o comandante da Polícia Militar, coronel Cesar Vinicius Kogut; e o secretário de Educação, Fernando Xavier Ferreira.

Dias depois do episódio, Richa teve de mudar sua estratégia de comunicação. Vendo que a rejeição popular à sua gestão só aumentava, o tucano resolveu recorrer à imprensa nacional para condenar os excessos da polícia e pedir desculpas aos paranaenses.

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