Revistas: Dias Toffoli, um ministro camarada

Levantamento da revista ISTOÉ revela: de 81 ações em que políticos eram acusados, Toffoli beneficiou os denunciados em 53 casos. Nenhuma denúncia em suas mãos virou ação penal

ISTOÉ

Um ministro camarada – perfil de Dias Toffoli
Ex-advogado do PT e advogado-geral da União no governo Lula, o ministro Antonio Dias Toffoli chegou ao Supremo Tribunal Federal em outubro de 2009, na condição de mais jovem membro da corte. Nos últimos meses, com a proximidade do julgamento do mensalão, a relação íntima de Toffoli com o mundo político vem sofrendo ressalvas de procuradores e até de seus próprios pares no STF. Pelo menos três ministros do tribunal, em conversas particulares, defendem que ele se declare impedido de participar da votação do processo do mensalão. Para avaliar as posições que o ministro tem assumido, ISTOÉ analisou 451 processos decididos monocraticamente por ele, que citavam parlamentares e integrantes das diferentes esferas do Executivo. O resultado é um mapa de boa vontade para com as autoridades. De 81 ações em que políticos constavam como principais acusados, Toffoli beneficiou os denunciados em 53 casos.

Nenhuma denúncia em suas mãos virou ação penal, pelo menos nove inquéritos foram arquivados sob o pretexto de falta de provas e 11 foram mandados de volta à Justiça Comum. “Acho que a situação é bem complicada por conta dessa relação próxima que ele mantém há anos com o partido. Além disso, você tem aí uma série de decisões tomadas por ele que mostra, no mínimo, uma tendência nos julgamentos”, avalia o professor de direito constitucional da Universidade de Brasília (UnB), Menelick Carvalho. Toffoli tem meditado muito sobre o assunto, mas se mantém em silêncio. Ele poderá declarar-se impedido até a abertura do julgamento, prevista para o dia 2 de agosto.

O levantamento de ISTOÉ mostra que em casos de menor repercussão, sem a pressão o que cerca o julgamento do mensalão, o ministro tem sido francamente favorável aos políticos. Toffoli, por exemplo, decidiu sozinho suspender a investigação por crime de peculato contra o deputado federal Pedro Henry (PP-MT), acusado de ter contratado um piloto particular com dinheiro da Câmara dos Deputados. Os demais ministros acharam o arquivamento tão absurdo que cassaram seu veredicto em plenário. Toffoli também julgou pela rejeição de ações penais contra o deputado André Zacharow (PMDB-PR) e contra outros dois parlamentares cujos casos corriam em segredo de Justiça. Ele paralisou ainda as investigações contra o deputado estadual da Bahia Oziel Alves e devolveu o mandato ao deputado estadual no Amazonas Wilson Lisboa. E, com uma única canetada, travou as investigações criminais que corriam no Ministério Público do Paraná sobre o escândalo dos “Diários Secretos” da Assembléia Legislativa.

Esta sequência de pareceres isolou Toffoli dentro do próprio Supremo. Ministros ouvidos por ISTOÉ avaliam que ele ainda não conseguiu se desvencilhar das simpatias partidárias. “Ele deveria se declarar impedido de realizar vários julgamentos dos quais participou”, avalia um ministro do STF. Das 451 decisões monocráticas, por exemplo, em apenas uma ele se colocou sob suspeição.

A solidão do ocaso
O senador Demóstenes Torres passou o fim de semana preparando o discurso. Repassou cada frase minuciosamente, riscou palavras, grifou outras. Na segunda-feira 2, pouco depois das 15h30, começou a se preparar para deixar o gabinete de número 13, localizado no subsolo do Senado. Fez uma oração diante da pequena imagem de Santa Edwiges que tem em cima da mesa. Quando partiu rumo ao plenário, tinha a aparência tranquila, embora suas unhas, muito roídas, denunciassem o contrário. O senador deu-se conta de que nunca havia passado tanto tempo longe da tribuna. Exatos 118 dias, desde que fizera o primeiro discurso para se defender das acusações de envolvimento com a quadrilha do bicheiro Carlinhos Cachoeira. A partir dali foi massacrado por evidências que desconstruíram sua imagem de representante da ética e da moral política no Congresso brasileiro. O arauto da oposição contra a corrupção no setor público.

Acostumado aos holofotes, sempre pronto para julgar os erros de colegas, ao subir à tribuna Demóstenes experimentou pela primeira vez a dura solidão do ocaso. No plenário não havia ninguém para ouvir o seu discurso. “Há quatro meses vivo um calvário sem trégua, sem sossego, sem paz. O que pesa é carregar, pelo isolamento dos corredores, os grilhões impostos pelos holofotes”, reclamou diante de poltronas vazias. Foram 20 minutos de discurso, em que fez 44 referências nominais de desculpas, além de incontáveis ataques à Polícia Federal e à mídia. “Peço perdão pelos constrangimentos que porventura causei”, desculpou-se Com exceção de alguns funcionários da Casa, apenas quatro parlamentares testemunharam suas desculpas. Um de seus antigos aliados, o senador tucano Álvaro Dias (PR), foi um dos que viraram as costas e só mais tarde soube dos pedidos de perdão feitos por Demóstenes. Mesmo com a repercussão negativa do discurso, Demóstenes ainda voltou à tribuna mais duas vezes durante a semana para se defender. E a defesa ganhou ares de despedida.

Nesta semana, os senadores lotarão o mesmo plenário para dar a palavra final sobre seu futuro. Não há esperanças de que escape da condenação política, mesmo que futuramente seja absolvido no processo que corre no Supremo Tribunal Federal. Embora não admita publicamente, o próprio Demóstenes dá indícios de que não acredita mais em sua absolvição no Senado. Nas últimas semanas, limpou as gavetas e retirou das paredes de seu gabinete várias fotos suas e pinturas, como uma tela de Siron Franco, um de seus artistas prediletos. Ele também já dispensou vários funcionários e assessores de confiança, mantendo apenas uma secretária, a chefe de gabinete e a assessora de imprensa, além de uma auxiliar de limpeza. Um dos primeiros assessores a ser dispensado foi Weber Magalhães, servidor de carreira que estava lotado em seu gabinete a pedido de Romero Jucá (PMDB-RR). Weber é presidente da CBF no Distrito Federal e muito ligado a José Carlos Feitoza, o Zunga, ex-secretário do governo Agnelo Queiroz. Além de começar a esvaziar o gabinete, Demóstenes viu diminuir o intenso movimento de jornalistas, lobistas e parlamentares que o procuravam diariamente. O telefone pouco toca. As raras visitas são de prefeitos de pequenas cidades do interior de Goiás, que passam por lá para prestar solidariedade. A maioria dos amigos de outrora se foi. Poucos políticos, como é o caso de Jucá, vizinho de gabinete e de bloco, ainda telefonam para Demóstenes.

O rodoanel chega à CPI
Integrantes da CPI do Cachoeira deram os primeiros sinais de sintonia com a opinião pública. Depois de mais de dois meses de sessões marcadas pelo silêncio e até pelo deboche de depoentes, os parlamentares aprovaram, na quinta-feira 5, uma série de convocações que poderão, finalmente, esclarecer como atuava a organização criminosa apontada pela Polícia Federal. Entre os chamados a depor está Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto. Quem também foi convocado a prestar esclarecimentos foi o ex-diretor do DNIT, Luiz Antônio Pagot. Em entrevista concedida à ISTOÉ em junho, Pagot disse que foi pressionado pelo governo de São Paulo, em 2010, a liberar aditivos irregulares a empreiteiras envolvidas na construção do eixo sul do Rodoanel. Entre elas, a Delta. De acordo com Pagot, empresários envolvidos no projeto lhe disseram que porcentagens das obras eram desviadas para as campanhas tucanas de José Serra e Geraldo Alckmin e para o prefeito Gilberto Kassab (PSD). Um dos que o teriam pressionado pela liberação dos recursos seria Paulo Preto, então diretor de engenharia da Dersa, empresa do governo paulista responsável pelo Rodoanel.

O relator da comissão, deputado Odair Cunha (PT-MG), comemorou a convocação de Paulo Preto. “O Pagot imputa ao Paulo Preto a prática de um crime”, afirmou Odair. Paulo Preto ganhou notoriedade depois que a então candidata do PT em 2010 à Presidência da República, Dilma Rousseff, citou o suposto desvio de R$ 4 milhões do caixa de campanha de José Serra num debate televisivo. Segundo reportagem de ISTOÉ, baseada em depoimentos de integrantes da campanha tucana, o dinheiro teria sido arrecadado por Paulo Preto junto às empreiteiras e depois desaparecido. Outra importante resolução da CPI, durante a semana, foi a convocação de Fernando Cavendish, dono da Delta. Se abrir o jogo à CPI, Cavendish pode ampliar o alcance da investigação.

Juquinha na prisão
Uma operação da Polícia Federal realizada na quinta-feira 5, batizada de “Trem Pagador”, levou para trás das grades dez integrantes de uma organização criminosa e apreendeu cerca de R$ 60 milhões em bens móveis e imóveis. O grupo é acusado de desviar recursos dos cofres da União a partir de licitações e concorrências fraudulentas na área de infraestrutura do governo federal. De acordo com as investigações, o esquema era chefiado por José Francisco das Neves. Conhecido como Juquinha, Neves é ex-presidente da Valec, empresa ligada ao Ministério dos Transportes que administra projetos gigantescos, como a Ferrovia Norte-Sul e o trem-bala. Segundo a Polícia Federal, Juquinha Neves é suspeito de ocultação e dissimulação da origem de dinheiro e bens imóveis, rurais e urbanos, adquiridos em seu nome e de familiares, com recursos obtidos indevidamente durante a gestão na Valec (2003 a 2010).

As investigações que conduziram à operação tiveram início em agosto de 2011, quatro meses depois que ISTOÉ revelou as irregularidades na gestão de Juquinha à frente da Valec. Após ser constatado superfaturamento das obras da Ferrovia Norte-Sul, conforme havia revelado ISTOÉ na ocasião, o MP fez um levantamento do patrimônio de Juquinha para confirmar as chances de ressarcimento dos danos. Durante a investigação, ficou provada a ascensão meteórica de Juquinha e seus parentes. O patrimônio imobiliário de Juquinha evoluiu de R$ 560 mil em 1998 para quase R$ 100 milhões em 14 anos, um crescimento espetacular de 18.000%. A PF comprovou que Juquinha comprava imóveis há mais de uma década e os registrava em nome de empresas e laranjas.

A mulher de Juquinha, o filho e um sócio do filho também estão presos na Polícia Federal, todos acusados de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Somente com o serviço de terraplenagem e fornecimento dos dormentes, onde são colocados os trilhos da Norte-Sul, a quadrilha desviou, de acordo com a PF, R$ 40 milhões. Para a PF, Juquinha estava mesmo comendo bola.

Trabalhismo papa-tudo
Na quinta-feira 5, o responsável pela liquidação dos bens da Interunion Capitalização, José Emílio Quintas, foi demitido. Por trás de sua saída está o PTB, que deseja colocar alguém de sua confiança no cargo. O partido quer a todo custo controlar o que considera uma verdadeira “mina de ouro”. No cargo desde 2007, o liquidante descobriu nos livros contábeis da Interunion mais de R$ 260 milhões em títulos do Papa-Tudo, loteria controlada pela corretora Interunion, que nunca foram resgatados por seus compradores. Há também uma disputa judicial com a Vale do Rio Doce, que poderia render mais meio bilhão de reais para o grupo. “Os ex-controladores têm esperança de colocar as mãos nesse dinheiro”, acusa Emílio Quintas.

O agora ex-liquidante da Interunion se refere ao empresário Artur Falk, que responde na Justiça por crime contra o sistema financeiro nacional. Segundo apurou ISTOÉ, Falk firmou um acordo de cavalheiros com a cúpula do PTB. A articulação foi costurada pelo presidente do Sindicato dos Corretores do Rio, Henrique Brandão, que é ligado ao presidente da sigla – Roberto Jefferson. Em troca de benefícios no processo de liquidação, Falk ajudaria financeiramente o partido, por meio de acordos com escritórios de advocacia. As pressões para trocar o liquidante da Interunion se intensificaram a partir de 2010, ano eleitoral. “Nunca sofri isso na minha vida profissional. Fiz a liquidação do Banco Nacional e a do BANERJ. Não havia essa interferência”, alega Quintas.

PSB já joga por 2014
Com a popularidade em alta e o discurso de que é chegada a hora de sair da sombra do PT, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), deu a largada para a corrida presidencial de 2014. Ao comandar o rompimento do seu partido com os petistas em 12 capitais brasileiras e concorrer contra eles em outras 30 cidades, o neto de Miguel Arraes inicia um plano ambicioso e compra briga com o ex-presidente Lula, que até então vinha dando todas as cartas eleitorais sem enfrentar resistências. Campos pretende usar as eleições municipais de outubro como um teste de sua própria capacidade de transferir votos e enfrentar a hegemonia lulista. Não por acaso, lançou à Prefeitura do Recife, capital do Estado que governa, seu ex-secretário Geraldo Júlio, tido como um técnico conceituado. A estratégia do governador é mostrar a outros partidos até onde pode ir seu poder de fogo.

A ofensiva do governador de Pernambuco inclui disputar com o PT em outubro o comando de cidades consideradas estratégicas para a eleição presidencial de 2014. O apoio socialista a candidatos do PT ficou reduzido a três capitais apenas. Além do Recife, onde o socialista atraiu outros 14 partidos, os aliados históricos medem suas forças em Fortaleza, Cuiabá, Porto Velho, Teresina e Belo Horizonte. Na cobiçada capital mineira, o ex-ministro do Desenvolvimento Patrus Ananias deve ser o candidato do PT contra a reeleição de Marcio Lacerda (PSB), eleito em 2008 graças a uma estranha coligação que incluiu petistas e tucanos. O rompimento das legendas em Belo Horizonte, o segundo maior colégio eleitoral do País, é o retrato da disputa por poder das duas legendas. “Será um bom teste de urnas para o PSB. As circunstâncias possibilitaram o aumento de candidaturas próprias pelo País. O que nos fortalece muito agora e no futuro”, avalia o líder da bancada do Nordeste na Câmara, deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE).

ÉPOCA

Deputada teria desistido da candidatura depois de ameaça de senador
A deputada federal Rebecca Garcia (PP – AM) teria desistido da candidatura a prefeita de Manaus depois de ser chantageada pelo atual líder do governo Dilma Rousseff no Senado e ex-governador do Amazonas, Eduardo Braga. Segundo a revista apurou, Rebecca foi a casa de Braga um dia antes da convenção que anunciaria a sua candidatura. O senador teria dito, em tom firme, que ela sofreria uma “campanha sórdida”, caso entrasse na eleição. Rebecca teria ouvido que “adversários” ressuscitariam gravações clandestinas de conversas telefônicas mantidas entre ela e Ari Moutinho Filho, conselheiro do Tribunal de Contas do Amazonas.

Gravações que se espalharam pela internet no ano passado entre os dois mostram uma conversa de namorados. Moutinho e Rebecca tiveram um relacionamento anos atrás, durante um período que a deputada estava separada do marido. De acordo com a revista, Braga disse que também poderiam surgir vídeos e fotos em que ela apareceria com Moutinho. Depois do encontro, Rebecca teria ido para casa e comunicado ao marido que desistiria da candidatura.

No jogo de alianças entre os aliados PT e PCdoB nas campanhas municipais deste ano ficou estabelecido que o PCdoB encabeçaria a chapa em Manaus, em troca de sacrifícios em outras capitais, como São Paulo. Caso Rebecca entrasse nas eleições, ela teria apoio amplo, do PCdoB ao PSD, passando por PT e PMDB. Depois da desistência da deputada, a senadora Vanessa Grazzioni, do PCdoB foi anunciada como candidata com o apoio do PT.

Osmar Serraglio: “Temos provas do mensalão” (trecho de entrevista com o deputado)
Com o plenário quase vazio, a noite da quarta-feira era atípica na Câmara Federal, quando o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) chegou sorridente e subiu à tribuna. Conhecido tanto pela calma como pela rigidez, Serraglio fez um discurso duro, a pouco mais de um mês do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Relator da CPI dos Correios, que investigou a compra de apoio de parlamentares ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Serraglio defendeu a investigação da comissão. Atacou de forma veemente os que propalam a tese de que o mensalão foi apenas um episódio de caixa dois de campanha eleitoral. Nesta entrevista a ÉPOCA, Serraglio expõe o que considera as provas da existência do esquema e revela bastidores da investigação.

ÉPOCA – Por que o senhor diz que se aborrece quando alguém usa a expressão “farsa do mensalão”?
Osmar Serraglio – Porque não é a mim apenas que se desacredita, mas a um trabalho do Congresso. Eram 16 senadores e 16 deputados titulares, mais 32 suplentes. Todo esse exército trabalhou, colaborou, vigiou o trabalho da CPI. O Congresso já tem dificuldades para se firmar e, quando faz um trabalho denso, aprofundado, se diz que não houve nada do que se levantou?

ÉPOCA – A CPI dos Correios obteve provas do mensalão?
Serraglio – Quase que matemáticas. Tenho convicção absoluta. Tivemos peças que eram intestinas desse emaranhado. Marcos Valério e Roberto Jefferson: tudo o que eles falaram restou comprovado. Roberto Jefferson era o líder de um partido. Frequentava o poder, acompanhava, e ele mesmo fala que alertou – para os fatos que estavam acontecendo – o (então) presidente (Luiz Inácio Lula da Silva). Hoje procura se desacreditar Roberto Jefferson porque ele foi cassado.

ÉPOCA – Dizem que Roberto Jefferson foi cassado porque mentiu ao inventar a existência do mensalão. É verdade?
Serraglio – Isso é uma falácia. Ele foi cassado porque integrou o mensalão. Ele recebeu R$ 4 milhões.

ÉPOCA – O senhor acha que sua compreensão da CPI tem repercussão na sociedade e no Judiciário?
Serraglio – A sociedade se convenceu por si. É esse convencimento que, imagino, dificulta a invenção de novas versões que seriam convincentes. Você pega a defesa do (ex-ministro) José Dirceu. Quem vê o que ele fala, (parece que) ele recebia as pessoas sem saber quem eram. Como se qualquer pessoa botasse lá na agenda, e o ministro recebesse! Abre a porta e vem quem vem! Achar que alguém vai se convencer disso fica meio difícil.

ÉPOCA – O então ministro José Dirceu o procurou durante a CPI?
Serraglio – Não posso dizer que ele tenha pedido. Mas o filho dele (o hoje deputado federal Zeca Dirceu) era prefeito da cidade vizinha à minha. Um dia, recebi um telefonema de que o ex-ministro José Dirceu estava na cidade – isso foi muito próximo da entrega do relatório final – e queria falar comigo. Eu não fui.

ÉPOCA – Era para ser um encontro privado?
Serraglio – Era para ser um encontro privado em Cruzeiro do Oeste. Recebi este telefonema: “Olha, o ministro está lá, queria conversar...”. Não tivemos esse encontro. Aleguei alguma coisa, que não poderia. Imagina o relator da CPI se encontrando com um dos principais investigados?

CARTACAPITAL

Os mensalões, um comparativo
Por coincidência, justamente quando o julgamento do mais famoso “mensalão”, que alguns chamam “do PT”, foi marcado, a Procuradoria-Geral da República encaminhou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) sua denúncia contra os acusados de outro, o “mensalão do DEM” do Distrito Federal. Trata-se mesmo de um acaso, pois a única coisa que os dois compartilham é o nome. Equivocado por completo para caracterizar o primeiro e inadequado para o segundo. Naquele “do PT”, nada foi provado que sugerisse haver “mensalão”, na acepção que a palavra adquiriu em nosso vocabulário político: o pagamento de (gordas, como indica o aumentativo) propinas mensais regulares a parlamentares para votar com o governo. No outro, essa é uma das partes menos importante da história.

Alguns acham legítimo – e até bonito – empregar a expressão como sinônimo genérico de “escândalo” ou “corrupção”, mas isso só distorce o entendimento. O que se ganha ao usar mal o português? No máximo, contundência na guerra ideológica. Chamar alguma coisa de “mensalão” (ou adotar neologismos como “mensaleiro”) tornou-se uma forma de ofender. Fora o nome errado igual, os dois são diferentes.

Ninguém olha o “mensalão” de Brasília como se tivesse significado especial. É somente, o que não quer dizer que seja pouco, um caso de agentes políticos e funcionários públicos, associados a representantes de empresas privadas, suspeitos de irregularidades. Por isso, se o STJ acolher a denúncia, o processo terá tramitação normal. Sem cobranças para que ande celeremente. Sem que seja pintado com cores mais fortes que aquelas que já possui. Sem que se crie em seu torno um clima de “julgamento do século” ou sequer do ano.

É provável que aconteça com ele o mesmo que com outro mais antigo, o “mensalão do PSDB”. Esse, que alguns dizem ser o “pai de todos”, veio a público no mesmo período daquele “do PT”, mas avança em câmera lenta. Está ainda na fase de instrução, sem qualquer perspectiva de julgamento. Por que o que afeta o PT é mais importante? A resposta é óbvia: porque atinge o PT. Se os “mensalões” da oposição são tratados como secundários e se outros são irrelevantes (como os que a toda hora são noticiados em estados e municípios), deveria existir no do PT algo que justifique tratamento diferente.

“Disputas locais não contaminam a aliança nacional” – trecho de entrevista com o presidente nacional do PT
Presidente nacional do PT, Rui Falcão ainda mostra-se ressentido com o inesperado rompimento da coligação entre o seu partido e o PSB de Belo Horizonte. Apesar do clima de desconfiança, ele garante que a aliança nacional entre as legendas não será afetada pelas disputas municipais. Confira, a seguir, a entrevista concedida a CartaCapital na sede do partido em São Paulo, um dia antes de o PT lançar a candidatura de Patrus Ananias contra Lacerda, aliado nas eleições de 2008.

CartaCapital: O rompimento da aliança com o PSB em Belo Horizonte é diferente do ocorrido em Recife e Fortaleza?
Rui Falcão: Em Recife e Fortaleza, havia uma expectativa de renovação da aliança que não se concretizou. Em Belo Horizonte é diferente. Já havia a decisão de apoio à reeleição de Márcio Lacerda, com um vice do PT e uma chapa proporcional. Só que o acordo foi rompido por Lacerda, a pedido do senador Aécio Neves e do governador Antônio Anastasia (ambos do PSDB). São quadros diferentes. Um é a reversão de uma expectativa, o outro é rompimento de um acordo escrito, sacramentado. O PSDB naturalmente estava nos fustigando, mas o compromisso do presidente estadual do PSB, o ex-ministro Walfrido Mares Guia, era de que esse acordo seria honrado. Não foi.

CC: O senhor conversou com a direção nacional do PSB?
RF: Fomos surpreendidos no sábado (30 de junho), logo após a convenção do PSB, com a carta de que o acordo não seria mais cumprido. O vice-presidente nacional do PSB, Roberto Amaral, nos procurou e pediu 12 horas para tentar reverter a decisão local. Esperamos três dias. Premidos pelos prazos eleitorais, tivemos de tomar a iniciativa de lançar candidatura própria.

CC: Ele não explicou a razão do rompimento?
RF: Amaral pedia mais tempo, mas ele próprio disse que foi surpreendido com a entrevista dada por Lacerda indicando um vice do PP em sua chapa na segunda-feira 2. Inclusive, ao que consta, o prefeito saiu de um ato com o governador Anastasia, procurou a imprensa e anunciou seu ex-secretário Josué Valadão como vice. Ele tinha sido exonerado um mês antes, portanto era uma alternativa que o Lacerda tinha previsto. Amaral prometeu buscar uma alternativa na convenção da quarta-feira 4, mas não acredito que o partido pudesse intervir na disputa municipal.

VEJA

Laranja da Delta faz saque de R$ 5 milhões
Reportagem desta semana joga luz sobre o esquema nebuloso utilizado pela construtora Delta para esconder o destino de parte de seu gigantesco faturamento. A equipe da revista localizou Bruno Estefânio de Freitas, um laranja do empresário Fernando Cavendish que sacou 5 milhões de reais em dinheiro de uma conta abastecida pela Delta. A agência bancária onde ocorreu a retirada é a mesma utilizada pela construtora.

No papel, Bruno é dono de uma empresa de terraplenagem que recebeu, nos quatro primeiros meses deste ano, 12 milhões de reais. Parte desses recursos foram repassados pela Delta. Na prática, o improvável milionário está desempregado e tem endereço registrado em um conjunto habitacional na periferia do Rio de Janeiro.

O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que detectou a transação suspeita destaca o fato de o saque ter sido feito na Barra da Tijuca, a 140 quilômetros do local registrado como sede da MB - que, aliás, informa como endereço uma sala onde funciona uma firma de consultoria financeira. O A VEJA, Bruno negou ser dono da MB: "É engano isso aí". São mais perguntas para a CPI do Cachoeira responder.

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