Revista classifica Eduardo Campos como “candidato anfíbio”

Durante 11 anos, Eduardo Campos esteve alinhado aos petistas. Mas acabou deixando a base aliada por conta da disputa pelo Palácio do Planalto contra a presidenta da República Dilma Rousseff

Ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) -- candidato à presidência da República da República nas eleições deste ano -- era uma raposa nas votações da Câmara quando exercia mandatos de deputado federal, segundo perfil traçado pela repórter Daniela Pinheiro e publicado na última edição da revista Piauí. Com base em levantamento do Congresso em Foco, a revista diz que ele "nunca se destacou como grande orador, tampouco foi um azougue dos projetos de lei”.  Apresentou projetos para garantir seguro-desemprego aos trabalhadores rurais, instituir bolsa-talento para alunos no esporte e até reconhecer o exercício da atividade profissional de grafologia.

“Mas nas votações [Eduardo Campos] era uma raposa. Negociava com deputados para articular a base de apoio do governo. Em todos os anos que esteve no parlamento, foi eleito um dos ‘cabeças do Congresso’ pelo departamento intersindical de assessoria parlamentar”, diz o perfil.

Durante 11 anos, Eduardo Campos esteve alinhado com o governo petista. Mas acabou deixando a base aliada por conta da disputa pelo Palácio do Planalto contra a presidenta da República Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição. “Eduardo Campos é feito da argamassa da família que, de um lado da mesa, faz sentar o mítico homem da esquerda; do outro, o avô da oligarquia. Numa ponta, os tios maternos -- intelectuais, artistas, escritores; na outra, a família da mulher, que é tradicional e conservadora. É e sempre foi um anfíbio, capaz de se adaptar às mais diversas situações e ambientes. Respirou dentro das águas do governo e agora toma novo fôlego com o oxigênio da oposição”, diz o texto.

A Piauí observa que adversários enxergaram na atitude de Campos uma contradição: tantos anos junto ao governo e, de repente, tornara-se um crítico contumaz. “Primeiro é que não foi ‘de repente’”, disse ele à revista. O pessebista afirmou que, no começo do governo Dilma já alertava a presidenta sobre o rumo nefasto que estava tomando a aliança com o PMDB. “Eu e muitos acreditamos que ela poderia ter melhorado falhas do governo Lula, o que não ocorreu. Fez pior: quem passou a mandar no governo foi a raposada do PMDB. Na época do Lula, não era assim”.

Campos disse que “a tucanada fica querendo me botar para brigar com Lula [ex-presidente] porque é bom para Aécio [senador Aécio Neves, presidenciável do PSDB], mas é uma estupidez brigar com Lula; parte do lulismo vai deixar Dilma e vai votar em mim; não vou falar mal de Lula nunca; é uma questão de autodefesa”.

De acordo com a revista, no que tange ao trabalho, os adjetivos usados por quem já esteve sob a batuta de Campos são contundentes: “exigente”, “obcecado”, “centralizado” e “autoritário”. E, no Congresso Nacional, ele era conhecido como soberbo articulador político, ótimo conciliador de ânimos e pela excelente relação com jornalistas.

Precatórios

No perfil, a revista cita o escândalo dos precatórios, quando Campos foi secretário da Fazenda de Pernambuco no governo do avô Miguel Arraes, que fazia oposição declarada ao governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Com as finanças estaduais estouradas, sobretudo pela redução de repasses de verbas federais durante a gestão de FHC, o governo Arraes emitiu títulos da dívida pública estadual, com autorização do Banco Central, para o pagamento de precatórios (dívidas resultantes de sentenças judiciais). Na CPI dos Precatórios, Campos foi acusado de favorecer bancos na venda dos títulos e de usar o dinheiro obtido em despesas correntes do estado. O escândalo arrebentou a reputação de Arraes e de Campos. O Supremo Tribunal Federal arquivou processo referente ao caso”, diz o texto.

Mensalão

Quando veio à tona o escândalo do mensalão do PT, Lula, ameaçado no cargo, pediu a Eduardo Campos que deixasse o Ministério de Ciência e Tecnologia e reassumisse o mandato na Câmara para reconstrução da base aliada. “Campos desempenhou papel importante para tentar barrar a CPI dos Correios. Depois, aumentou ainda mais seu cacife junto à Lula quando, mesmo sabendo ser o favorito, abriu mão de disputar a presidência da Câmara”, diz o texto. “Foi um período muito difícil, muito duro”, avaliou Campos.

Em entrevista à revista, o advogado Antonio Campos, conhecido como Tonca, afirmou que Eduardo Campos “ficou quase oito anos no poder [governo de Pernambuco] e não há nenhuma ação de improbidade e nenhuma denúncia contra ele”.

“Era eduardiana”

O perfil também conta com as declarações do professor Michel Zaidan, da Universidade Federal de Pernambuco e autor do livro “A honra do imperador’. Segundo ele, “Pernambuco é um reino e Eduardo, imperador”. “Não há oposição em Pernambuco isso não é bom sinal. Campos governou com as velhas ferramentas de nomeações, distribuição de cargos e liberação de verbas. Durante o governo, Campos empregou pelo menos 20 pessoas de sua parentela”.

Apesar de considerar o candidato um gestor eficiente, Zaidan afirmou que Campos é um político à moda antiga. “Ele é parte de uma oligarquia. Nesse ponto, ele e Aécio Neves são idênticos. Nunca tiveram emprego, viveram da política, da herança política dos avós [Miguel Arraes e Tancredo Neves] e dos velhos hábitos de manutenção do poder".

“O candidato já declarou que miraria a meta de inflação em 3% e cortaria pela metade o número de ministérios. Defendeu a autonomia do Banco Central e o escalonamento das alíquotas de Imposto de Renda, abaixo dos atuais 27,5%. Também se manifestou pela contratação de diretores de estatais por meio de headhunters, pela expansão do Bolsa Família e implementação da escola integral. Prometeu construir quatro milhões de casas populares em quatro anos. Os quase oito anos que passou no governo pernambucano serão o espelho do que poderia fazer no Planalto”, conclui o texto.

 

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