Raquel cultiva “sobriedade” e tem “horror a espalhafato”, diz Gurgel, antecessor de Janot

 

Lembrado principalmente por sua atuação à frente da Procuradoria Geral da República (PGR) durante o julgamento do mensalão, o ex-procurador-geral Roberto Gurgel declarou seu apoio à mudança de estilo no comando da PGR. Em entrevista logo após a posse de Raquel Dodge, Gurgel disse que o tom mais sóbrio da sucessora de Rodrigo Janot não permitirá mais “espalhafatos” nas investigações.

“Há diferenças de estilo. A doutora Raquel é alguém que cultiva a sobriedade. É alguém que tem horror ao espalhafato. Isso nós não teremos mais”, declarou, em crítica velada a Janot, que foi seu sucessor no cargo e não faz parte de seu grupo interno no Ministério Público. “Raquel atuará firmemente contra a corrupção de um modo geral e também naquelas áreas como direitos humanos em que o Ministério Público tem que ter uma atuação de igual relevo”, ponderou.

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Mas, segundo ele, engana-se redondamente quem apostar no relaxamento das apurações criminais. “Ela é firme e extremamente rigorosa na sua atuação. Quem imagina que vai ter algum tipo de menor dificuldade está redondamente enganado”, disse. Roberto Gurgel afirmou que não vê obstáculo às investigações com as mudanças da equipe da Lava Jato determinadas por Raquel. “Não devemos ter nenhuma dificuldade nisso, não”, acrescentou.

Raquel Dodge assumiu o comando da PGR nesta segunda-feira (18), em cerimônia realizada no próprio órgão. Além dos presidentes da República, Michel Temer (PMDB), da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), e do Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Cármen Lúcia, o evento também contou com presença de deputados, senadores e membros do MPF. Rodrigo Janot não compareceu ao evento.

Crítico das delações da JBS, Gurgel ressaltou que Raquel Doge deve analisar as delações, os termos do acordo celebrado e as provas colhidas pelo grupo empresarial da holding J&F. “É algo [delações da JBS] que ela há de avaliar, até em razão desses acontecimentos mais recentes que colocaram, digamos, algumas dúvidas em relação as delações”.

Recentemente, o ex-procurador-geral fez ponderações sobre a delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista, executivos da JBS, lembrando que, em outras épocas, as interceptações telefônicas e quebra de sigilo fiscal foram mais adotadas para conseguir provas concretas contra os envolvidos em escândalos. De acordo com ele, no caso de um delator cometer um novo crime após assinar um acordo de delação, os benefícios precisam ser perdidos.

Roberto Gurgel se aposentou do Ministério Público em 2013, após 31 anos de atuação. Procurador-geral por dois mandatos consecutivos, entre 2009 e 2013, Gurgel atuou no julgamento do mensalão. Na ocasião, o então procurador-geral pediu a condenação de 36 réus – 25 deles foram condenados.

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