Racionamento no Distrito Federal não atinge palácios e regiões que mais gastam água

Palácios, bairros nobres e embaixadas sofrem apenas com a redução da pressão da água. Em grande parte da cidade, porém, população tem abastecimento cortado a cada seis dias. Companhia de Abastecimento diz que medida é estritamente técnica e que características financeiras não são levadas em conta no racionamento

 

Nesta segunda-feira (30), a população do Distrito Federal entrará na terceira semana do regime de racionamento de água. A crise hídrica na capital é uma tragédia anunciada e chegou ao seu ápice em 2017, após um período de estiagem e agravado por investimentos errados feitos por governantes, preferindo obras faraônicas em vez da modernização do sistema atual.

O Distrito Federal tem o segundo maior consumo de água do país. Para a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do DF (Adasa), 150 litros diários por pessoa é um consumo considerado razoável. Já a média recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é 100 litros por habitante.

Bairros como as Asas Norte e Sul, na região central de Brasília, por exemplo, gastam cerca 400 litros de água por pessoa ao dia. Nos Lagos Norte e Sul, onde estão localizados os Palácios da Alvorada e do Planalto e a maioria das casas têm piscinas e jardins, cada pessoa chega a consumir mais de 800 litros de água por pessoa diariamente. Esta região do Distrito Federal é abastecida pelo reservatório de Santa Maria e não é atingida pelo racionamento, está apenas com a pressão da água reduzida.

Por outro lado, 65% dos moradores do Distrito Federal, principalmente da região mais populosa e periférica da cidade, são abastecidos pelo reservatório do Descoberto, que está com cerca de 23% de nível. O consumo de água nesta região, é compatível com a média brasileira de uso da água por pessoa. Em grande parte, a casa desses cidadãos não é preparada para escassez hídrica. Caixas d'água pequenas, vazamentos e tubulação antiga são alguns dos fatores que atrapalham.

Injustiça

Luis Gustavo Prado/Secom UnB
Segundo o especialista em recursos hídricos da Universidade de Brasília (UnB), Marco Antonio Almeida de Souza, o racionamento é uma medida drástica porque atinge somente os mais pobres. "É uma injustiça. As zonas ricas do Distrito Federal consomem uma das melhores águas do mundo, as margens do Santa Maria são preservadas por um Parque Nacional. Enquanto, do outro lado da cidade, a população de baixa renda paga o preço do descaso", protesta.

 

De acordo com o especialista, a crise hídrica na cidade poderia ser evitada com soluções simples, como a interligação dos sistemas Santa Maria e Descoberto para abastecer toda a população do Distrito Federal. Propostas grandiosas como a utilização da água do Lago Corumbá IV, localizado no município de Abadiânia (GO), para abastecer o DF, segundo Marco Antônio, "são caras e, muitas vezes, ineficientes".

Decisão técnica

Segundo o presidente da Companhia de Água e Esgotos de Brasília, Maurício Luduvice, não há qualquer medida de racionamento que leve em conta a renda da população. "É estritamente técnica", explica. Ele explica que o rodízio chegou apenas às regiões atingidas pelo reservatório do Descoberto, incluindo áreas nobres como Águas Claras e Park Way. Por outro lado, cidades de baixa renda como Itapoã, Paranoá e Varjão não entram no rodízio.

Para conter a crise hídrica, o Governo do Distrito Federal está tomando uma série de medidas, como a desocupação de áreas próximas ao reservatório do Descoberto, a fiscalização das margens dos rios e a substituição de válvulas redutoras de pressão.

Foi retomada também a construção da Represa do Bananal com capacidade para atender 170 mil moradores, após 16 anos sem novos reservatórios no DF. Além da obra de Corumbá IV, projetada ainda no governo de Joaquim Roriz, em 2001, mas com previsão de entrega apenas para 2018.

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