Procuradores da Lava Jato ameaçam renúncia coletiva

Para procuradores, aprovação do abuso de autoridade para integrantes do Ministério Público e do Judiciário é retaliação às investigações contra políticos. Eles ameaçam deixar a operação caso lei seja sancionada: "É o golpe mais forte contra a Lava Jato", diz Dallagnol

 

 

Em entrevista coletiva na tarde desta quarta-feira (30), coordenadores da Lava Jato ameaçaram renunciar coletivamente à operação se a proposta que enquadra procuradores, promotores e juízes em crime de abuso de autoridade for sancionada pelo presidente Michel Temer. “A nossa proposta é renunciar coletivamente caso essa proposta seja sancionada pelo presidente. Nós vamos simplesmente retornar para nossas atividades habituais porque muito mais valerá a pena fazer um parecer em previdenciário do que se arriscar investigando poderosos”, afirmou o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima.

A responsabilização foi incluída no texto do projeto (PL 4850/16) de combate à corrupção idealizado pelo Ministério Público Federal e entregue ao Congresso com o apoio de 2,4 milhões de brasileiros. Os deputados aprovaram emenda apresentada pelo líder do PDT, Weverton Rocha (MA). "Fica claro, com a aprovação desta lei, que a continuidade de qualquer investigação sobre poderosos, sobre parlamentares, sobre políticos, cria riscos pessoal para os procuradores", disse Carlos Fernando.

Veja a lista, por estado, de como cada deputado votou emenda de abuso de autoridade

O procurador, que é um dos coordenadores da Lava Jato, criticou as mudanças feitas no relatório. Para ele, toda a sociedade brasileira foi enganada com o texto aprovado pelo plenário da Casa. "Ludibriada foi a população, não o Ministério Público. Quem se aproveitou de um desastre que consternou o país não fomos nós. Agimos sempre com transparência. Em uma noite tudo se pôs a perder", ponderou o coordenador. Carlos fez alusão ao desastre aéreo com o avião que transportava a delegação da Chapecoense e jornalistas na Colômbia, que deixou mais de 70 mortos.

A força-tarefa da Lava Jato, operação deflagrada em 2014 para investigar desvios de dinheiro da Petrobras e que arrolou diversos parlamentares nas investigações dos ilícitos cometidos na estatal, caracterizou o texto aprovado pela Câmara como o "golpe mais forte" contra as investigações "em toda a sua história". "Este é o começo do fim da Lava Jato", criticou Deltan Dallagnol, um dos coordenadores da operação ao ler nota durante a entrevista.

"Aproveitando-se de um momento de luto e consternação nacional, na calada da madrugada, as propostas foram subvertidas. As medidas contra a corrupção, endossadas por mais de 2 milhões de cidadãos, foram pervertidas para contrariar o desejo da iniciativa popular e favorecer a corrupção por meio de intimidação do Ministério Público e do Judiciário. [...] As dez medidas foram rasgadas e manteve-se a impunidade dos corruptos e poderosos", revelou a mensagem. Ainda de acordo com a nota, o recado passado pelos parlamentares com a aprovação da emenda foi: "Persigam os juízes e promotores e soltam os colarinhos brancos".

"O Congresso Nacional sabia muito bem o que estava fazendo. Essas propostas dizem muito claramente ao que vieram", ressaltou Dallagnol.

Leia ainda:

Mais de 80% dos alvos da Lava Jato aprovaram abuso de autoridade contra juiz e procurador

Deputados excluem tipificação do crime de enriquecimento ilícito das medidas anticorrupção

Mais sobre Operação Lava Jato

Mais sobre corrupção

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!