Políticos e atletas contra a corrupção

Fábio Góis


Não choveu, como os organizadores pediram aos céus. Mas, se tivesse chovido, o banho de cidadania teria sido o mesmo: cerca de 2 mil pessoas participaram da 1ª Corrida contra a Corrupção, realizada neste domingo (12) na Esplanada dos Ministérios – região administrativa central de Brasília que já foi (e, infelizmente, de vez em quando ainda é) palco de práticas imorais por parte de quem está no poder. Hoje, os protagonistas foram os cidadãos que honram o país.

Anônimos e famosos dividiram os flashes revezando-se em circuitos de 10 e 4 quilômetros, e ainda uma caminhada de mil metros. Gente como o governador eleito do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), o velejador Lars Grael, o ex-judoca Mário Tranquillini e o deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS) estava entre os “atletas” em nome da lisura na administração pública. Um dos apoiadores da iniciativa, o Congresso em Foco acompanhou a corrida.





Depois de 4 quilômetros percorridos “entre 20 e 25 minutos”, o que lhe rendeu camisa e rosto encharcados de suor, Agnelo ressaltou ao Congresso em Foco a importância da mobilização social no combate ao câncer que, anualmente, subtrai entre R$ 40 bilhões e R$ 69 bilhões dos cofres públicos. “A sociedade toda tem de participar e se mobilizar contra a corrupção. Isso é uma obrigação nossa, e ao governo cabe oferecer todos os instrumentos de transparência. Brasília será uma cidade com uma gestão ética e transparente, servirá de exemplo para todo o Brasil”, prometeu o ex-ministro dos Esportes, que tinha acabado de correr.

Agnelo ressaltou o trabalho de entidades como o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e o Instituto de Fiscalização e Controle (IFC), organizadores da corrida, no proveito dos mecanismos de transparência que devem ser viabilizados pelos governos. “Se não há acesso aos dados, aos contratos, como é que você vai fiscalizar? Tem de haver acesso para que a população possa fazer isso de maneira responsável”, completou o petista, para quem a corrupção foi rejeitada nas urnas, com a derrota de Weslian Roriz (PSC), esposa do ex-governador do DF Joaquim Roriz.

“A corrupção foi derrotada fragorosamente nas urnas, para não falar um adjetivo mais forte. Qualquer observador vê que a corrupção foi fragorosamente derrotada, o povo a rejeitou brutalmente. Cabe a quem ganhou com crédito do povo cumprir e honrar esse compromisso, e esse é o meu compromisso”, concluiu o governador eleito.










Cidadão brasileiro


Campeão da prova principal (10 km), o corredor profissional Paulo César da Silva Cruz, 37 anos, falou à reportagem como é ganhar uma competição com propósitos de cidadania. “Fico feliz por poder participar desse evento, colaborando com o combate à corrupção. Fazer parte disso, como cidadão brasileiro, para mim é muito importante”, disse o segurança desempregado, que tem apenas um patrocinador.

E se lhe dessem a chance de correr atrás da corrupção e alcançá-la, o que faria? “Rapaz, eu colocaria a corrupção embaixo do pé e pisaria. E destruiria, eliminava”, declarou, brincando com um quê de seriedade.

Judô


Parte do projeto Venceremos a Corrupção, a corrida foi realizada três dias depois do Dia Mundial de Combate à Corrupção (09 de dezembro), instituído pelas Nações Unidas em 2003. Naquele ano, 110 países assinaram uma convenção da ONU se comprometendo a rastrear e recuperar dinheiro e bens desviados, bem como a combater crimes como suborno e lavagem de dinheiro. Em seu artigo 13º, essa convenção estabelece que, para combater a corrupção, deve haver participação da sociedade.

Consciente do simbolismo do momento, Lars Grael celebrou a mobilização de “cidadãos brasilienses, brasileiros, atletas, hipotecando o engajamento na causa contra a corrupção” em pleno domingo de manhã. “É uma iniciativa louvável. Nós sabemos que a corrupção é um fato endêmico no Brasil, e corrói o sistema democrático nacional. O engajamento em campanhas como foi o Ficha Limpa mostra o início de uma virada de jogo, como o é o suporte das entidades de classe de fiscalização, controle, como o Contas Abertas”, disse Lars à reportagem, mencionando uma das entidades parceiras da corrida.

“Para mudar o Brasil temos de correr muito mais. Tem de correr no país inteiro, em todas as 27 capitais. Isso só muda através de um longo processo, da indignação e do voto”, acrescentou o campeão olímpico.

Ippon na “safadeza”

Responsável pelo projeto social Judô com Tranquillini, o atleta olímpico José Mário Tranquillini também participou da corrida. Mas apenas fez a caminhada, em razão de uma lesão na perna. “Sou nascido em Brasília. Eu e as 1.200 crianças que eu tomo conta somos vítimas dessa safadeza, desse câncer aí. Quando a gente toma consciência, e o cidadão se dá conta dessa situação, eu acredito que vai mudar o Brasil. É um começo. Essa lei da Ficha Limpa daqui a três anos já vai mudar a nossa cara, prevaleceu a vontade do povo”, disse o judoca, bicampeão panamericano e tricampeão sulamericano.

Do alto de seus dois metros de altura, Tranquillini fez uma analogia entre o combate à corrupção e os combatentes que lutam contra o narcotráfico no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro.

“Eles pegaram as armas. Nós vamos pegar na mão essa causa. Estou com uma prótese na cabeça do fêmur, mas levantei cedo e vim. Dou minha vida, minha alma pra isso”, disse, acostumado a esmagar quimonos de adversários quando está no tatame. “Mas não só fiscalizar, tem de fazer como eu faço: levar para as comunidades, conscientizando o jovem,o homem, o cidadão sobre como faz mal a corrupção. Se Deus quiser, o povo vai cuidar disso.”

Adiante

“Superamos as expectativas. Todos ficaram sensibilizados em relação ao tema. Já pediram para colocarmos a corrida no calendário oficial da cidade”, declarou o conselheiro Duque Dantas, do Instituto de Fiscalização Controle. Organizador da corrida, Duque adiantou ao site que a segunda edição do evento já tem data marcada: 11 de dezembro de 2011. “Será um domingo, depois do dia 9, que é o Dia Internacional de Combate à Corrupção.”

Duque informou que mais de 800 pessoas correram ou caminharam no evento, que teve a presença de mais de 2 mil cidadãos. “Esse foi só o passo inicial. É o começo de um processo. Ou a sociedade se mobiliza, se interessa por esse tema, começa a estudar esse tema, ou isso vai virar apenas um evento”, observou o conselheiro.

Dada a largada do projeto Venceremos a Corrupção, outros passos serão dados na luta contra o problema – serão feitos cadastros de “agentes fiscalizadores” das ações dos governos municipais, estaduais e federal. Mesmo os que não participarem da corrida poderão se cadastrar no site do Venceremos a Corrupção para receber informações das áreas de interesse, como educação, saúde, segurança e transporte. Ao se cadastrar, a pessoa passará, a partir do próximo ano, a ter acesso a informações referentes sobre como o seu município tem utilizado os recursos que recebe da União.

Entre as novas ações a serem implementadas a partir de 2011 está o fortalecimento dos índices de transparência das instituições – já que, por lei, os municípios de no mínimo 50 mil habitantes devem ter um portal de transparência em seu site – e a capacitação de entidades organizadoras para saber exatamente o que cobrar das prefeituras quanto à transparência e o combate à corrupção.

“Hoje nós trouxemos a sociedade. Trouxemos sem a premiação da corrida, porque o dinheiro era pequeno, mas as pessoas vieram pela causa. O cidadão tem de se conscientizar de que o combate à corrupção é uma tarefa de todos nós. Em um país do tamanho do nosso, não tem CGU [Controladoria Geral da União], PGU [Procuradoria Geral da União], Polícia Federal que, sozinhas, consigam combater a corrupção”, disse o diretor do Contas Abertas, Gil Castello Branco, comemorando o fato de a mobilização contra a corrupção ter transposto as “gabinetes oficiais e solenidades públicas” e chegado às ruas. Literalmente, e com passos acelerados no asfalto contra a chaga.

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