Pasteleiro diz que investigação é para proteger criminoso

Para Severino Lourenço, os políticos é quem têm culpa na tramóia em que acabou envolvido. Ele disse ter negado autoria de assinaturas em depoimento à Polícia Federal. Roberto Gurgel suspeita de conivência do pasteleiro

Investigado junto com o deputado Sandro Mabel (PMDB-GO) no inquérito do “golpe da creche” no Supremo Tribunal Federal (STF), o pasteleiro Severino Lourenço dos Santos Neto se mostra indignado com a situação. Em entrevista ao Congresso em Foco, ele disse que foi à Polícia Federal prestar mais esclarecimentos sobre o caso, e, na ocasião, entendera que o assunto estava encerrado, até por comentários que ouviu dos delegados sobre a situação.

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Severino contou que disse à PF não reconhecer algumas assinaturas em documentos com seu nome e, por isso, os policiais colheram material grafotécnico para análise no Instituto Nacional de Criminalística. O depoimento aconteceu há cerca de sete meses, segundo ele.

Para o pasteleiro, o objetivo da investigação contra si é desviar a atenção para os reais culpados pelo golpe da creche. “Eles fazem isso – sabem que o cara não tem nada a ver – para encobrir eles, que realmente fazem as tramoias todas”, protestou Severino, na tarde de quinta-feira (28), em frente à pastelaria na periferia de Brasília, onde trabalha há cinco anos e recebe R$ 800 por mês para sustentar a si mesmo e a ex-mulher, que cuida dos quatro filhos junto com os ex-sogros. Genericamente, ele disse ao site acreditar que os culpados são os políticos

“Deputado? Não é essa deputadaiada (sic) tudo que faz isso mesmo? Não é não? Não tem outra coisa, não”, criticou Severino, hoje com 31 anos. “Eu pensei que já tinha me livrado disso.”

Severino reafirmou que é inocente e vítima do ex-motorista de Mabel. Ele contou novamente que, se soubesse que a proposta feita por Francisco José “Franzé” Feijão de Araújo fosse um golpe, jamais aceitaria. “Era R$ 100 para cada um [filho]. Era uma espécie de um bolsa-escola”, disse o pasteleiro ao site. “Os outros fazem a bagaceira e quem se lasca é o pobre. Eu caí como laranja nisso aí”, disse. “O que é que eu tenho a ver com isso?”

O pasteleiro disse mais uma vez que Franzé o levou à Câmara para assinar papéis, quando também assinou documentos em uma agência bancária no Congresso, e que depois o ex-motorista do deputado foi à pastelaria. Naquela ocasião, Severino assinou mais documentos e os entregou a Franzé.

Cartão de crédito

Severino disse que, tempos atrás, chegou à sua casa um cartão de crédito da Caixa, banco de onde foi transferido dinheiro para os bolsos do ex-motorista e de pessoas ligadas a Mabel. O pasteleiro afirmou que nem tocou no plástico. Disse que assim que for chamado a prestar esclarecimentos na Procuradoria Geral da República, que preside o inquérito 3421 no STF, vai entregar o cartão ao procurador Roberto Gurgel.

O pasteleiro não tem advogado. “Eu não devo nada, cara. E não tenho dinheiro para pagar advogado”, afirmou Severino. Ele disse que sequer procurou ajuda da Defensoria Pública, que oferece advogados gratuitamente a famílias pobres.

Agora, com a investigação no Supremo, Severino afirmou que pensa em recorrer à Justiça para obter alguma indenização por danos morais. Ele se sente constrangido por ter que deixar o trabalho várias vezes para prestar depoimentos às autoridades. Por enquanto, os patrões têm apoiado e liberado o funcionário.

Conivência com crime

Policiais que acompanharam o caso disseram que a investigação contra Severino tem sentido. Para eles, não é possível acreditar na inocência completa do pasteleiro. Eles dizem que, quando Severino foi à Câmara junto com Franzé assinar papéis numa agência bancária, deveria desconfiar de algo errado na obtenção de uma possível “bolsa-escola”.

Além disso, a apuração seria motivada por um fato concreto e admitido: o pasteleiro recebia de R$ 200 a R$ 300 por mês dos valores depositados na conta de um servidor que nunca trabalhou no Congresso.

O procurador Roberto Gurgel também desconfia de Severino. Ele disse que é comum que nestas situações haja um acordo entre as partes. “A pessoa faz na intenção de beneficiar os filhos, mas, de certa forma, até o homem médio imagina que ali tem algo de errado”, disse ele ao Congresso em Foco.

Ele disse ser possível a existência de pessoas muito “desligadas” e que não perceberam o golpe que estava sendo armado. “Mas, na maioria dos casos, neste tipo de fraude, há uma conivência”, afirmou Roberto Gurgel.

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