Pastéis, R$ 7 mil, caldo de cana, conta corrente e dinheiro em espécie

Movimentação financeira de pasteleiro abasteceu os bolsos de pessoas ligadas ao deputado Sandro Mabel

Considerados como “investigados” pelo inquérito do “golpe da creche” no Supremo Tribunal Federal, o deputado Sandro Mabel (PMDB-GO), o ex-motorista Francisco José “Franzé” Feijão de Araújo e o pasteleiro Severino Lourenço dos Santos Neto se encontram numa investigação que envolve assinaturas questionadas e transferências de dinheiro entre contas correntes.

 

Como revelou este site, o pasteleiro Severino foi contratado para trabalhar no gabinete de Mabel. Em tese, lá ele ganhava R$ 7 mil por mês entre salários, vale-transporte de R$ 480 como morador de Formosa (GO) e auxílio-creche de R$ 1.716 para seus três filhos. O pasteleiro disse que o marido de uma prima lhe pôs em contato com o motorista de Mabel, Franzé, que lhe prometeu um benefício de R$ 100 mensais para cada uma das três crianças.

Dois pastéis, um caldo de cana e R$ 7 mil de salário

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Com a ajuda do então assessor do deputado, Severino assinou um monte de papéis na Câmara dos Deputados, numa agência bancária no Congresso e, depois, na própria pastelaria. Sem conta bancária, recebia os R$ 300 mensais do “benefício social”. Apesar de morar em Valparaíso (GO), a quadrilha inseriu seu endereço na Câmara como morador da cidade de Formosa, para turbinar o vale-transporte do funcionário fictício.

Tudo corria bem com Severino até ele ser intimado pela polícia para prestar um depoimento e indiciado por estelionato. O pasteleiro disse ser vítima de um golpe.

Afora os R$ 300 do “benefício social” das crianças de Severino, o resto do salário do pasteleiro era embolsado pela quadrilha, que, segundo a polícia, era comandada por Franzé e por sua mulher, Abigail Pereira da Silva, que trabalhava para o então deputado Raymundo Veloso (PMDB-BA).

A contratação de Severino só aconteceu porque sua nomeação, como de qualquer servidor comissionado da Câmara, foi assinada pelo deputado. Mas Sandro Mabel afirma que suas assinaturas foram falsificadas. Um exame grafotécnico do Instituto Nacional de Criminalística para  atestar tal afirmação, não foi concluído até hoje, pelo que se tem notícia.

Dinheiro para pessoas de Mabel

Extrato da conta corrente de Severino e o depoimento da chefe de gabinete de Mabel, Maria Solange Lima, mostram que parte do dinheiro do golpe pagou pessoas ligadas ao deputado do PMDB e ex-dono da fábrica de biscoitos Mabel.

Entre março e setembro de 2009, saíram R$ 7 mil da conta corrente aberta em nome do pasteleiro na Caixa Econômica. Transferências bancárias passaram pouco mais de R$ 3 mil para a conta de Franzé. O restante foi parar no bolso de pessoas que deveriam receber dinheiro por ordem de Mabel, segundo depoimento de Solange Lima. Por exemplo: uma eleitora do deputado, um aliado político de Mabel, a filha de uma ex-prefeita de Goiás aliada e que precisava pagar sua faculdade, o reembolso a uma servidora do gabinete que comprava presentes a pedido do deputado e o filho de outra servidora.

Conta do pasteleiro pagou pessoas ligadas a Mabel

Fonte: Congresso em Foco, com base em documento da Caixa e depoimentos de Solange Lima e Celeste Romualdo

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Veja lista: Quem é quem na conta do pasteleiro

Dinheiro em espécie

No depoimento, Solange disse que, todo mês, Mabel lhe dava dinheiro em espécie para fazer esses pagamentos, que superam os R$ 3 mil. Os valores eram repassados a Franzé para quitar as despesas. Mas os gastos, pelo que diz extrato da Caixa, foram pagos com o dinheiro do pasteleiro.

Entre os pagamentos feitos por ordem de Mabel estava o carro de Solange. Em depoimento, Mabel disse que também ajudava Franzé a pagar um veículo, que inclusive era usado eventualmente pelo parlamentar. Veja a íntegra do depoimento

A Polícia Legislativa da Câmara não indiciou Mabel e Solange. Agora, a Procuradoria Geral da República vai investigar o deputado, Franzé e Severino. A reportagem não conseguiu falar com o ex-motorista e sua esposa, Abigail, nos telefones que possuíam. Em abril passado, eles não retornaram recados deixados em sua residência. O ex-deputado Raymundo Veloso não foi localizado, mas, em 2010, ele havia negado participação no esquema.

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