Falta de planejamento compromete legado esportivo da Rio 2016, avalia especialista

Desporto brasileiro nunca recebeu tantos investimentos públicos e privados, mas ausência de política de Estado ameaça futuro de atletas no país, diz José Cruz

Embora chegue à reta final da Olimpíada com chance de terminar entre os dez primeiros países no quadro de medalhas, o Brasil dificilmente conseguirá manter o volume de investimentos e melhorar sua participação no próximo ciclo olímpico. A avaliação é do jornalista José Cruz, um dos principais especialistas na cobertura de política esportiva no país. Segundo ele, nunca houve tanto investimento para o desporto no Brasil. O problema, ressalta, é que não houve controle sobre a aplicação dos recursos nem o devido planejamento para garantir a formação de atletas de base.

"Temos hoje a seguinte situação: apesar da fartura do dinheiro, não tivemos um controle do próprio Estado, do próprio governo, sobre a aplicação dos recursos", avalia José Cruz.

Após a definição de que o Brasil seria o país-sede dos Jogos Olímpicos de 2016, ainda em 2009, o investimento de recursos públicos em esportes de alto rendimento tinha como principal objetivo o bom desempenho no evento dentro de casa. Assim, em 2012 o governo federal lançou o Plano Brasil Medalhas, com a meta de colocar o país entre os dez primeiros colocados na Rio 2016 e entre os cinco primeiros nos Jogos Paralímpicos.

Em entrevista ao Congresso em Foco, o jornalista faz uma análise do desempenho dos atletas brasileiros com base nos recursos aportados para o financiamento de esportes de alto rendimento e indaga: os investimentos se sustentarão em 2017, em um cenário de recessão econômica?

Congresso em Foco - Como o senhor avalia o desempenho dos atletas brasileiros até o momento?
José Cruz -
Não podemos avaliar o desempenho só pelo número de medalhas conquistadas. Esse tipo de classificação o Comitê Olímpico Internacional não leva em consideração. O COI não tem uma tabela dizendo quem foi primeiro, quem foi segundo... porque essa questão das medalhas foi criada durante a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Aproveitavam os Jogos Olímpicos para saber quem era mais potência no esporte, quem ganhava mais, então se criou essa convenção que a imprensa mantém até hoje. Primeiro, disputaram quem era potência armamentista, econômica, depois política e aí potência esportiva. Então essa foi uma convenção criada pela imprensa internacional que se mantém até hoje.

Este não é um bom critério?
Eu particularmente acho que não se pode avaliar só pelo número de medalhas, mas também pelo número de finais de que se participa, etc. O Comitê Olímpico Brasileiro, a partir do momento em que o Brasil se tornou sede, mudou o critério de contagem de medalhas. Até a penúltima Olimpíada nós contávamos as medalhas (ouro, prata e bronze) como toda a imprensa internacional conta, o ouro sendo mais valorizado. O que o COB fez? No momento em que foi estipulado que o Brasil ficaria entre o Top 10, ele passou a usar outro critério: o número de medalhas conquistadas, e não o de medalhas com valorização para o ouro.

Por que a mudança?
É uma jogada que o COB fez para poder justificar que, se nós não ganharmos muito ouro, já que tradicionalmente a gente não ganha muito ouro, a gente ganha muita medalha. O interessante é que a imprensa não está levando em consideração o critério do COB, e sim o tradicional. É uma disputa interessante, o COB e o Ministério do Esporte, para justificarem o volume de recursos aportados, mudaram o critério para mostrar “não, nós ficamos em tal posição...”

Fernando Frazão/Agência Brasil
E qual a sua análise em relação à política de investimentos no esporte?
Hoje o que nós temos é muita fonte de recursos. A comparação tem que ser feita nesse aspecto. Quais são as fontes de recursos para o esporte? Temos o Ministério do Esporte, através de convênios, as estatais, a Lei de Incentivo ao Esporte, a Lei Piva, que repassa loterias para os comitês Olímpico e Paralímpico, e as Forças Armadas. Hoje estamos com 175 atletas-sargentos da Aeronáutica, Marinha ou do Exército, que também ganham. Temos também a Confederação Brasileira de Clubes, que recebe dinheiro federal também para preparar atletas. Então há hoje uma série de fontes de recursos públicos injetados no esporte que não havia oito, 12 anos atrás. Isso começou a acontecer a partir do governo Lula, em 2003, quando ele decidiu que o esporte de alto rendimento seria uma questão de Estado. O interessante é que a Constituição diz, em seu artigo 217, que o dinheiro público para o esporte tem de ser aplicado prioritariamente no desporto escolar.

 

 

Foi um erro político?
Não estou fazendo crítica ao governo, estou fazendo só uma constatação. A partir do momento em que se trocou de governo e passamos a ter um governo mais popular, ele passou a apostar no esporte de alto rendimento como uma forma de ter mais um cartão de visita para o Brasil, para dar visibilidade ao país. Daí inclusive sai dinheiro para o próprio futebol. Foi uma opção de governo. Então temos muitas fontes de financiamento e consequentemente nós deveríamos ter proporcionalmente um maior número de medalhas. Temos hoje a seguinte situação: apesar da fartura do dinheiro, não tivemos um controle do próprio Estado, do próprio governo, sobre a aplicação dos recursos. Por exemplo, os nossos melhores atletas do tênis, que recentemente disputaram as duplas, já arrecadaram, só este ano, 400 mil dólares em prêmios de torneios internacionais. Nada contra, os torneios internacionais pagam muito bem, isso é ótimo, eles são profissionais, estão no circuito e se ganham isso é porque fazem jus. Atletas que ganham, num semestre, 400 mil dólares merecem ganhar bolsa-atleta do Estado, num país em dificuldade? E com atletas de iniciação, na base, sem dinheiro? E, assim como eles, atletas também do hipismo, do golfe, da vela – modalidades que pagam prêmios internacionais muito valiosos – também são contemplados com um cargo ou uma patente nas Forças Armadas de sargento e com verbas de bolsa-pódio. Portanto, temos três fontes de financiamento para eles: a bolsa, as Forças Armadas e a confederação que recebe o dinheiro e aplica sobre eles. E, como se não bastasse, a maioria dos atletas de ponta tem patrocínio particular com as estatais. Os Correios patrocinam a natação, o handebol e o tênis. Esses atletas têm patrocínio particular. Então eles têm patrocínio da estatal, a bolsa, as Forças Armadas e a confederação botando dinheiro para eles.

Mas falta uma política de Estado para o esporte?
Tivemos muito dinheiro para o esporte, mas não uma política de Estado para o esporte. A coisa foi assim: "precisamos ficar no Top 10” e acabou a história.  Não faltou dinheiro. Os nossos atletas tiveram condições para fazer uma boa preparação. Em segundo lugar: para nós ficarmos no Top 10 nós contratamos 50 técnicos estrangeiros. Isso vem demonstrar uma falência dessa política que nós não tivemos, ou da ausência dela. Temos atletas, temos recursos mas não temos técnicos, tivemos de pegar técnicos de fora. Isso vem mostrar que as nossas faculdades de Educação Física não estão cumprindo o seu papel de formar profissionais que atuem nos esportes de alto rendimento. Pelos menos nos últimos 13 anos do governo do PT tivemos muito dinheiro e não tivemos formação de profissionais para formar novos atletas. Ainda assim, para nós chegarmos ao Top 10 nós nacionalizamos 25 atletas de várias modalidades. Mas não é só o Brasil, os Jogos Olímpicos na minha avaliação precisam passar por uma grande revisão inclusive para tratar dessa questão. Vulgarizou, a maioria dos países com pouca expressão no esporte acaba nacionalizando atletas e pagando porque se tornou uma fonte de renda, virou um grande comércio.

E esse modelo adotado pelo esporte brasileiro funcionou?
A Olimpíada do Rio é um grande vestibular para essa tese que o Brasil adotou, com esse critério de injetar dinheiro, como se isso fosse o suficiente. Estamos vendo que não é, porque não adianta nós termos dinheiro se os outros países também têm. Vimos isso com o Zanetti que era a nossa aposta do ouro e lamentavelmente acabou ficando com a prata. O que eu digo é o seguinte: o esporte olímpico de alto rendimento se tornou um negócio. Estão aí os atletas da NBA disputando. Os nossos atletas do futebol não atuam no Brasil, atuam na Europa porque lá pagam muito bem. E compete ao Estado - principalmente a um Estado com dificuldade financeira - financiar o alto rendimento? Se o atleta já é bem remunerado e contemplado com premiações internacionais, compete a nós, que temos dificuldades em nossos hospitais e em nossas escolas, financiar esse tipo de esporte? Ou esse dinheiro deveria ser aplicado – como diz a Constituição – prioritariamente no desporto escolar? Não para formar atletas, mas para que ali possa se usar o esporte na complementação pedagógica e na formação do caráter dos atletas. E se, em decorrência ali se identificasse um atleta em potencial, o encaminhasse para o clube. Aí sim, se as estatais quiserem injetar dinheiro porque o esporte dá visibilidade, ótimo, então ao invés de fazer publicidade, use o esporte para dar visibilidade à sua marca (Banco do Brasil, Caixa, Correios, etc.).

Depois da Olimpíada, há garantia de que esses recursos continuarão a ser destinados aos atletas?
O que aconteceu foi isso: a partir do momento em que houve mudança de governo nós fizemos injeção de recursos que cresceram ao longo dos anos. Cresceram ainda mais no momento em que assumimos o compromisso de realizar os jogos, cresceram no momento em que definimos que teríamos que terminar no Top 10, mas sem que tivéssemos uma definição de política de Estado. E a partir daí, para concluir o raciocínio, nós estamos vivendo um drama (nós que eu digo, os atletas brasileiros).  Já se foram os recursos, diante das dificuldades financeiras do governo, em 2017 o esporte terá esses recursos? A bolsa continuará? A lei do incentivo continuará botando R$ 400 milhões por ano? As estatais continuarão patrocinando? É uma dúvida, porque o governo faz cortes no orçamento, será que não vai fazer também no esporte? Quanto mais medalhas melhor para justificar que é preciso o governo continuar investindo. Mas isso é o ideal? É isso que a gente quer? Ou a gente quer parar para repensar o esporte dizendo “nós vamos investir mas nós queremos ter uma política", e qual é essa política? O que compete ao público, o que compete ao município, ao estado, à União, à confederação.

O mesmo cenário se repete nas Paralimpíadas?
Os atletas paralímpicos também foram contemplados com muito dinheiro e eles têm uma outra realidade, eles dependem desse dinheiro para comprar seus equipamentos, seus medicamentos, para pagar academias, muitas vezes para pagar o acompanhante (um cadeirante ou um cego que precise de alguém que os acompanhe). Então eles têm uma despesa muito maior. O que vai acontecer com esses atletas a partir de 2017? Eles deverão ter um resultado expressivo, a projeção deles é ficar no Top 5. Então o esporte, independentemente do que nós estamos vendo, tem que ser olhado com essa perspectiva e com essa expectativa: o que vai acontecer em 2017? Oxalá se ganhe mais medalhas para que se possa justificar junto ao governo a necessidade, ou mostrar que somos uma “potência” olímpica e que é preciso seguir investindo. Agora, se o governo não investir, quem vai? Essa é a questão. Porque o nosso modelo é diferente do modelo americano onde se desenvolve o esporte desde a escola, e é diferente de Cuba ou de Rússia, onde lá é sim uma questão de Estado e eles investem muito.

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