Para Dilma, impeachment é “conspiração” e “fraude”

Presidente avalia que existe "conspiração" em admissibilidade do impeachment e objetivo claro de "um grupo" para chegar à Presidência da República sem passar pelas eleições tradicionais

A presidente Dilma Rousseff recebeu jornalistas estrangeiros no Palácio do Planalto, na manhã desta terça-feira (19), para falar sobre a admissibilidade do impeachment pelo plenário da Câmara, no último domingo (17). Para Dilma, existe uma "conspiração", comprovada com o vazamento do discurso do vice-presidente Michel Temer adiantando o possível resultado do processo de impedimento. De acordo com a presidente, essa é o objetivo de "um grupo" para chegar à Presidência da República sem passar pelas eleições tradicionais.

"A conspiração se dá pelo fato de que a única forma de chegarem ao poder no Brasil é ocultando o fato de que esse processo de impeachment, na verdade, não é um processo de impeachment”, avaliou Dilma, destacando que o debate sobre a destituição é baseado em uma fraude jurídica e política.

Para os jornalistas estrangeiros, Dilma afirmou que, desde o placar acirrado das últimas eleições, em 2014, a oposição realizou diversas ações "contra a governabilidade". Como o pedido de recontagem dos votos, lembrou a petista, feito logo depois da divulgação do resultado de sua reeleição.

Ainda de acordo com Dilma, ao ver que as intervenções não traziam respostas plausíveis para as reivindicações feitas pela oposição, "práticas absolutamente condenáveis" foram iniciadas. Nesse momento a presidente fez referências às pautas-bomba instaladas, principalmente, nas votações da Câmara, quando parlamentares agiram para "impedir a redução de gastos necessária ao atingimento da meta fiscal".

"Essa eleição perdida por essa margem tornou essa oposição derrotada bastante reativa a essa vitória e por isso começaram um processo de desestabilização. Esse meu mandato de 15 meses tem o signo da desestabilização política”, enfatizou.

Questão de gênero

Uma jornalista do Canadá perguntou a Dilma Rousseff se o fato de ela ser a primeira presidente eleita no Brasil motivou os ataques para desestabilizar seu governo. A governante disse acreditar que esse foi um elemento forte para decretar a instalação do impeachment. Dilma afirmou ainda que certas coisas não aconteceriam caso o presidente da República fosse um homem.

"Houve, inclusive, recentemente um lamentável episódio de um texto de um órgão de imprensa que mostra uma misoginia. Falam o seguinte: mulher sob tensão tem que ficar histérica, nervosa e desequilibrada. E não se conformam que eu não fique, nem nervosa, nem histérica, nem desequilibrada. Aí tem uma outra ala que diz que não é bem isso, porque eu não estou percebendo o tamanho da crise. Eu até não gosto de falar porque eu tenho uma familiar e acho a forma com que tratam essa questão muito desrespeitosa: falam que eu sou autista. Um preconceito tão grande quanto o de gênero", analisou.

"Agora, eu lamento profundamente o grau de preconceito contra a mulher, de que mulher tem que ser frágil. Ora as mulheres brasileiras não têm nada de frágeis, elas criam filhos e lutam. Tem misturado nisso tudo um grande preconceito contra a mulher. Têm atitudes comigo que não teriam com um presidente homem", acrescentou Dilma.

Homenagem a torturador

Em certo momento, Dilma repudiou a homenagem feita pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Comissão Nacional da Verdade como torturador durante o regime militar brasileiro. A reverência de Bolsonaro a Ustra precedeu seu voto favorável ao impeachment.

“Eu conheci bem esse senhor ao que ele se referiu. Foi um dos maiores torturadores do Brasil. Contra ele recai não só a acusação de tortura, mas também de mortes. É só ler os documentos da Comissão da Verdade. Lastimo que, neste momento, o Brasil tenha dado espaço para esse tipo de situação de raiva, de ódio, de perseguição. É terrível você ver no julgamento alguém defendendo esse torturador. É lamentável”, disse.

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