Padilha, de solução a problema para Temer

Amigo e homem de confiança do presidente, o atual chefe da Casa Civil foi um dos articuladores do impeachment de Dilma, a quem serviu na Secretaria de Aviação Civil até dezembro de 2015. Na linha de tiro da Lava Jato, sente agora os efeitos da "maldição" do cargo

Um dos ministros mais próximos do presidente Michel Temer, Eliseu Padilha se licenciou informalmente da Casa Civil na última quinta-feira, alegando problemas de saúde. O peemedebista promete voltar no dia 6, após retirar a próstata. Não poderia haver momento mais providencial para a cirurgia: depoimento prestado por um amigo e ex-assessor de Temer reforça a delação de um ex-diretor da Odebrecht contra Padilha e o próprio Temer. O gaúcho sente na pele, agora, a “maldição” da Casa Civil e corre risco de nem mesmo voltar ao cargo, como defendem nos bastidores alguns assessores do presidente.

Ex-ministro dos Transportes de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Padilha assumiu com desconfiança a secretaria de Aviação Civil, no governo Dilma. Deixou o governo da petista em 5 de dezembro de 2015 para articular o impeachment da ex-chefe. Pela capacidade de articulação política e pela velha amizade com Temer, virou nome natural para a Casa Civil logo após o afastamento de Dilma.

Na semana passada, o advogado José Yunes, um dos melhores amigos de Temer, contou que recebeu, a pedido de Padilha, um “pacote” em seu escritório, entregue pelo doleiro Lucio Funaro, operador do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A informação foi prestada por Yunes em depoimento espontâneo à Procuradoria-Geral da República, e repetida exaustivamente por ele em entrevistas a diversos veículos de comunicação.

Em sua delação premiada, o ex-executivo da Odebrecht Claudio Melo Filho disse que enviou dinheiro vivo ao escritório do advogado a pedido de Padilha. O ministro ainda não se pronunciou sobre as declarações de Yunes. Em entrevistas, Yunes disse que pode ter sido um mero “mula” e que nunca teve nada a ver com a origem nem com o destino de recursos para campanhas eleitorais.

De acordo com ele, o presidente não falou com Padilha sobre o assunto e reagiu com “serenidade” ao tomar conhecimento do fato, ainda em 2014. “Eu decidi contar tudo a ele [Temer] porque, em 2014, quando aconteceu o episódio, eu entrei no Google e vi quem era o Funaro, fiquei espantado com o currículo dele”, justificou o advogado.

Pressão sobre Temer

As declarações do ex-assessor especial da Presidência pressionam Padilha e o presidente Michel Temer. Em sua delação, Claudio Melo disse que Temer lhe pediu, durante um jantar no Palácio do Jaburu, apoio financeiro para o PMDB na campanha eleitoral de 2014. Segundo ele, também estavam presentes ao encontro Eliseu Padilha e Marcelo Odebrecht. O presidente admite o pedido, diz que o dinheiro foi declarado e que não sabe de qualquer irregularidade.

Claudio Melo afirmou que acertou o repasse de R$ 10 milhões ao PMDB. Desse total, R$ 4 milhões ficariam sob responsabilidade de Padilha. O ex-diretor da empreiteira contou que um dos pagamentos foi feito na sede do escritório de Yunes, no Jardim Europa, em São Paulo.

Conforme o amigo de Temer, o hoje chefe da Casa Civil lhe pediu, por telefone, que recebesse alguns “documentos”, a serem retirados em seguida por um emissário. Segundo ele, quem entregou o documento foi Lucio Funaro, que chegou levando um “pacote”.

José Yunes disse que não sabe o conteúdo do pacote e que não se preocupou em esclarecer o que havia dentro dele. O advogado deixou a assessoria do presidente no final do ano passado após a divulgação da delação de Cláudio Melo. Em carta divulgada quando deixou o governo, Yunes afirmou que tinham jogado seu nome no “lamaçal de uma abjeta delação” premiada e criticou a “fantasiosa alegação, pela qual teria eu recebido parcela de recursos financeiros em espécie”.

Essa não é a única suspeita que recai sobre o atual chefe da Casa Civil. Uma planilha apreendida pela Polícia Federal na casa de Maria Lúcia Tavares, ex-funcionária da Odebrecht, aponta o pagamento de R$ 1 milhão a “Angorá”, no dia 18 de agosto de 2018. O documento é do setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, também conhecido como departamento da propina da empreiteira. Em delação premiada, Cláudio Melo Filho afirma que o “Angorá”, nesse caso, é Eliseu Padilha. As informações são do jornal O Globo. Angorá também é um velho apelido do secretário de Parcerias de Investimentos Públicos, Moreira Franco, dado ainda pelo ex-governador Leonel Brizola, um de seus desafetos políticos. Moreira também está na lista dos suspeitos de receber repasses da Odebrecht.

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