Outros 16 deputados também podem perder o mandato

Edson Sardinha

Acusado pelo Conselho de Ética da Câmara de crime eleitoral, tráfico de influência e de não ter comprovado o esquema do mensalão, o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) deve se tornar hoje o primeiro parlamentar a perder o mandato em razão das denúncias que ele mesmo apresentou. Enclausurado em seu apartamento funcional em Brasília desde que incendiou a vida política do país, Jefferson tornou-se autor de uma ópera-bufa que pôs em cartaz os podres poderes da República.

Entre uma aula de canto e outra, o dublê de barítono ressuscitou clássicos italianos como “Cuore Ingrato” e “Torna a Surriento”. Às vésperas de seu primeiro depoimento na Câmara, ainda em junho, soltou a voz para cantar a brasileiríssima “Caçador de Mim”. “Nada a temer senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo, abrir o peito à força, uma procura. Fugir às armadilhas da meta escura. Vou me encontrar longe do meu lugar (...) Eu, caçador de mim.”

Condenado pela própria boca, Jefferson caminha, ao som dos versos de Sérgio Magrão e Luiz Carlos de Sá, para o fim precoce de seu sexto mandato consecutivo. Para determinar a cassação, são necessários os votos de 257 dos 513 deputados, em votação secreta.

Nos últimos três meses, Jefferson virou uma das personalidades mais conhecidas do país, introduziu o termo mensalão no vocabulário nacional e detonou a maior crise política do governo Lula e do Partido dos Trabalhadores. De quebra, ameaça levar consigo, para fora do Congresso Nacional, outros 18 deputados. Dois deles já limparam os seus gabinetes, Valdemar Costa Neto (PL-SP) e Carlos Rodrigues (PL-RJ), que renunciaram ao mandato para escapar da cassação e da perda dos direitos políticos por oito anos. Outros 16 deputados ainda correm o risco de perder o mandato, acusados de terem recebido dinheiro ilegalmente do empresário Marcos Valério Fernandes.

Advogado criminalista com mais de 200 júris no currículo, Jefferson promete fazer um discurso contundente durante a defesa que lhe será concedida antes da votação. Dono de uma retórica que faz inveja aos colegas, o petebista deve repetir a estratégia adotada desde que se viu acusado de comandar um esquema de corrupção nos Correios: atirar pra quase todos os lados. Enquanto esteve no centro do furacão, Jefferson fez questão de poupar Lula de sua artilharia pesada, mas sinalizou ontem que pode mudar o alvo.

“Não quero antecipar (o meu discurso), mas ele passa pelo presidente Lula. Vou falar bem do presidente e do núcleo duro do governo”, ironizou. “Não tenho como não falar do presidente. Mas serei obrigado a falar sobre o comportamento que o presidente da República teve”, completou.

Mesmo evitando fazer disparos diretos contra o petista, feriu a imagem do presidente e complicou a pretensão de Lula de concorrer à reeleição em 2006. “Não faço na minha cabeça nenhuma ilação que o presidente possa ter participado disso. Se minha declaração em algum momento levantou suspeita sobre o presidente Lula, quero dizer que não fui claro”, afirmou em depoimento à CPI do Mensalão.

De junho pra cá, derrubou o núcleo dirigente do PT, parte da diretoria da estatal Furnas Centrais Elétricas e precipitou a reforma ministerial até então embalada em banho-maria pelo presidente Lula. Devolveu à planície, ou melhor, à Câmara, o ex-todo-poderoso ministro da Casa Civil José Dirceu, a quem acusou de comandar um esquema de compra de parlamentares, e voltou a se pôr sob os holofotes. Luzes que já não lhe procuravam com a mesma freqüência desde 1992, quando liderou a chamada tropa de choque do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Na época, comandou o voto “não” à abertura do processo de impeachment.

Em 1993, teve o seu nome citado por uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) entre os deputados envolvidos no esquema de propina na Comissão de Orçamento. Ao todo, seis deputados foram cassados; outros quatro renunciaram ao mandato. Jefferson escapou da degola. Não conseguiu se livrar, no entanto, da imagem de truculento e de defensor de um dos governos mais controversos da história do país.

O homem que conquistou notoriedade como advogado dos pobres no programa “O Povo na TV”, no Rio, ainda na década de 1980, fez cirurgia para reduzir o estômago. Abandonou a arma que costumava carregar consigo e quase metade dos 170 quilos que ostentava. “Mudei. Mas não virei Mary Poppins”, brinca, ao lembrar que não se desfez do gênio por vezes explosivo. À véspera de deixar a cadeira que ocupou por 22 anos, Jefferson recorreu ontem mais uma vez à ironia para falar sobre o seu futuro. Disse que vai se dedicar à carreira de cantor, caso seja cassado. “Preso a canções, vou me encontrar longe do meu lugar”, aliás, é um dos versos de “Caçador de Mim”.

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