Objetos de 1959 são achados em buraco na Câmara

Infiltração no Salão Verde da Câmara leva à descoberta de registros históricos da época da inauguração de Brasília

“Acharam o picareta da Câmara”. A frase era uma das mais pronunciadas por profissionais da notícia e da imagem que, trabalhando e divertindo-se à margem de uma fenda na plataforma superior do Congresso, faziam referência a objetos e inscrições usados por operários em 1959, um ano antes da inauguração da capital federal. No buraco, com cerca três metros quadrados e localizado exatamente embaixo da cúpula externa do Plenário da Câmara, havia um tubo de pasta de dente (“Gessy Cristal”, série 1959), algumas ferramentas e objetos de ferro e, nas paredes, inscrições com o português peculiar da época.

Veja detalhes no vídeo produzido pela TV Câmara (atualização em 22/10/2017):

 

“Amor, palavra sublime que domina qualquer ser humano”, registrou o operário Nelson Nilson, que grafou ainda a palavra “Goiânia” ao lado da data “22-04-1959” – Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960.

“Se todos os brasileiros fossem dignos de honra e honestidade, teremos um Brasil bem melhor”, diz outra mensagem escrita por José S. Guerra a grafite, com a mesma data. “Só temos esperança no Brasil de amanhã. Brasília de hoje, Brasil de amanhã. Que os homens de amanhã que aqui vierem tenham compaixão de nossos filhos, e que a lei se cumpra”, diz a continuação do registro, aportuguesando em seguida o termo “Dura lex, sed lex” (máxima em latim que significa “a lei é dura, mas é a lei”).

O “achado arquitetônico”, como classificou outra frase espirituosa dita por um repórter, movimentou o cenário esvaziado do Congresso em plena quinta-feira (11). Até o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), compareceu ao local para ver o resgate histórico da construção. Ele disse ao Congresso em Foco que há a possibilidade de que o local vire atração turística.

“Nós vamos pedir que especialistas ligados à área de museologia façam um estudo sobre os escritos, sobre a área e, a partir da orientação deles, nós vamos tomar as medidas que forem mais convenientes para garantir que a sociedade possa ter conhecimento desses escritos e dessa parte da história de Brasília”, declarou o petista, que momentos antes usou uma escada para entrar no buraco.

Nova rodada de piadas e frases espirituosas – metafórica, a imagem poderia refletir o estágio da representação governista na Casa, que não consegue avançar na pauta legislativa graças ao descontentamento de partidos aliados como PMDB e PR. Como o Congresso em Foco mostrou ontem (quarta, 10), a situação levou à obstrução branca de votações em plenário, com base e oposição dispostas a retardar a apreciação de matérias.

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“São escritos que representam um pouco do sentimento dos operários que estiveram aqui naquele momento, nas obras de construção de Brasília. O sentimento de saudade da sua família, mas também o sentimento de quem estava construindo algo que poderia e deveria contribuir para a melhoria da qualidade de vida de seus filhos”, observou Maia, acrescentando com bom humor à provocação da reportagem sobre uma possível jogada de marketing da marca da antiga pasta de dente, depois de saber do episódio. “Mas não era biodegradável, porque está ali da mesma forma que foi deixada pelos operários há [mais de] 50 anos.”

Procedimento de rotina

O registro histórico foi descoberto por acaso. Tudo começou com uma infiltração no teto do Salão Verde cuja origem os responsáveis pela infraestrutura da Câmara quebraram a cabeça para descobrir. A cabeça e o cimento da plataforma superior – depois de inúmeras e infrutíferas tentativas de detectar a razão do vazamento, optou-se por quebrar a estrutura superior. Com o buraco aberto, expôs-se a passagem dos “candangos” – expressão que designa os trabalhadores que vieram de outros estados para construir Brasília.

Com cerca de 45 anos de serviços prestados, o diretor do Departamento Técnico da Câmara, Reinaldo Carvalho Brandão, falou à reportagem sobre a “manutenção rotineira” que levou à descoberta. “Como não achamos [o vazamento] superficialmente, tivemos de quebrar e chegar até a laje de cobertura. Ao abrir, os operários se depararam com esses escritos, acharam que era importante e nos comunicaram. Passamos pra frente e deu toda essa repercussão”, declarou Reinaldo, rodeado de operários que trabalharam no problema. Ele é responsável por uma equipe que cuida da infraestrutura, dos serviços técnicos e da manutenção da Casa.

“Aqui existem milhares de buracos iguais a este. Deve haver outros escritos que a gente não vai ver. Talvez na posteridade, daqui a 50, 60, 70 anos. A não ser que haja outro problema e que precisemos abrir outro buraco”, revelou o diretor de obras.

Um dos três operários que acharam o registro também falou à reportagem. Com fala contida e humildade evidente, ele transmitia uma sensação mista de orgulho e conhecimento de causa. “Eu gostei [de ter descoberto]. Era completamente diferente, tudo antigo. Outro tipo de segurança. Hoje em dia a gente trabalha tudo arrumadinho, bonitinho. Naquela época, [o calçado usado] era sandália avaiana. Naquele tempo era complicado”, vislumbrou o operário Apolinário Soares Bandeira, acrescentando que prefere trabalhar nos dias atuais.

Diversos veículos de comunicação presenciaram a descoberta. Um deles, o “humorístico-jornalístico” CQC, da TV Bandeirantes, esbaldava-se em piadas prontas. Em uma delas, a repórter Mônica Iozzi, ao sobe-e-desce de cinegrafistas e fotógrafos, exclamava coisas como “Encontraram o picareta da Câmara!” e “Libera o buraco!”. A fila para registrar imagens era grande, a exemplo do cardápio de zombarias.

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