O último carnaval de Jango antes do golpe

Às vésperas de ser deposto pelos militares, o presidente curtiu os dias de folia isolado do mundo, pescando numa ilha do Espírito Santo. Mas o clima era de apreensão. Na quarta de cinzas, ele já buscava nas ruas o apoio que lhe faltava no Congresso

Flávio Borgneth, de Vitória *

Há 50 anos, o Espírito Santo teve o carnaval mais político de sua história. Na iminência de ser deposto, o presidente João Goulart passou os dias de folia escondido do país pescando na ilha do Boi, em Vitória, enquanto a família permanecia na praia da Costa, em Vila Velha. Os confetes oficiais ficaram por conta da primeira-dama. Maria Teresa Goulart causou frisson nas matinês, bailes e colunas sociais da capital.

A família presidencial veraneou por aqui em 1964, a menos de dois meses do golpe militar que o tiraria do poder e o levaria ao exílio, junto com a família, no Uruguai e depois na Argentina, onde morreu em 1976. Foi o último carnaval de Jango ao lado da família no Brasil. Um carnaval envolvido pela candente atmosfera política que imperava no país.

Confetes oficiais

Quando Maria Teresa chegou ao baile do Clube Vitória, o carnaval parou. A primeira-dama é, até hoje, considerada uma das mulheres mais bonitas da história da política brasileira. Pra completar, usava alta-costura e só bebia e fumava cigarro e uísque importados. Ela sentou ao lado de Chiquinho e esposa na tribuna de honra do Teatro Carlos Gomes.

Naquele domingo e nos demais dias de folia, o Clube Vitória organizou seu carnaval ali. As cadeiras do teatro foram retiradas para os festejos e as escadas da frente viraram uma grande rampa coberta de carpete vermelho.

Com a primeira-dama pra olhar, quase era possível esquecer da ausência do presidente. Jango não compareceu em nenhum ato festivo. Não estava para confetes naqueles dias. Na tarde seguinte, Maria Teresa acompanhou os filhos em uma matinê. Também sem a presença do marido.

O anfitrião Chiquinho

De qualquer modo, o presidente e família, naqueles dias de prazeroso descanso aqui, gostaram tanto que esticaram a estadia até o carnaval. Não por acaso. O Espírito Santo era longe e perto do Rio de Janeiro, onde ainda funcionava boa parte dos ministérios que Brasília ainda não suportava. Maria Teresa e seus filhos, João Vicente e Denise, se hospedaram na residência oficial do governo do Espírito Santo, na Praia da Costa, em Vila Velha. Também passaram uns dias em Guarapari. Ocupado com sua presidência criticada acerbamente pela oposição por causa de decisões de caráter nacionalista tomadas por ele como a nacionalização de empresas estrangeiras , Jango vinha nos finais de semana a Vitória. E enquanto isso, nuvens negras se acumulavam no seu horizonte político.

Quem recebia o presidente era o então governador Francisco Lacerda de Aguiar. Chiquinho, como era conhecido, era opositor do PSD – partido que dominou a política capixaba no século passado. O ruralista Lacerda de Aguiar comandou o Estado por duas ocasiões em um período onde a disputa do poder era reflexo de uma força econômica que mudava de mãos. O café precisava ser substituído pelas indústrias. Isso deixava uma vitrine política sem dono.

O futuro dos políticos capixabas dependia de como esse espaço seria ocupado. Na verdade, essa conjuntura era ainda mais complicada. Afinal, além do estado, existia o país. Por isso, naquele verão, Chiquinho recebeu seus ilustres convidados com medo do futuro. Cada gentileza oferecida aos hóspedes poderia voltar-se contra ele caso o Brasil mudasse de mãos, como de fato mudou logo depois daquele carnaval.

Depois de quarta-feira

Jango voou para o Rio tão logo caiu a lua de quarta-feira de cinzas. Mas voltou dois dias depois. Era 12 de fevereiro quando veio buscar mulher e filhos, que ainda veraneavam em Vila Velha. Passou mais um fim de semana com os peixes e, na segunda (dia 15), aproveitou para fazer uma reunião com um grupo de 40 lideranças que coordenavam o movimento contra a Central Brasileira de Energia, atual Escelsa. Jango apoiava a estatização das concessionárias elétricas controladas por empresas estrangeiras, e isso não seria diferente no caso do Espírito Santo.

O presidente também aproveitou a ocasião para divulgar a desapropriação dos eixos rodoviários de todo o país. Iria assinar tal decreto em um mês num evento grandioso no centro do Rio de Janeiro: o fatídico Comício da Central do Brasil. Às vésperas de sofrer um golpe e sem força política para decretar estado de sítio, o presidente buscava nas ruas o apoio que lhe faltava no Congresso.

O governador Lacerda de Aguiar foi convidado pessoalmente por Jango para o comício da Central. Chiquinho até estava no Rio de Janeiro, mas não compareceu para apoiar o presidente cuja família o governador havia regalado com atenção especial dias antes. Além de ter medo de perder o governo, o fazendeiro de Guaçuí decididamente não jogava no time da reforma agrária. De fato, Chiquinho não recusou o convite que recebeu um mês depois para ir a uma Brasília pós-golpe militar. Em 14 de abril , prestigiou a posse do marechal Castelo Branco, primeiro presidente militar. Apesar disso, acabou cozinhado pelos generais e opositores que cultivava dentro do seu partido, o PSD. Foi acusado de corrupção. Apesar de absolvido pela Assembleia, se afastou do mandato na tarde de 5 de abril de 1966, pressionado pelos militares. O carnaval de Jango e família lhe custou caro.

* Matéria publicada originalmente no site Leia-se, do Espírito Santo.

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