O misterioso voo do colaborador de Fernando Sarney

Eduardo Militão

O bilhete de viagem de um colaborador do empresário Fernando Sarney foi pago pela Câmara graças à ação de dois assessores dos deputados Valadares Filho (PSB-SE) e Carlos Abicalil (PT-MT), que comercializaram créditos de passagens com um agente de viagens. Essa é a conclusão do relatório da sindicância sobre venda de cotas aéreas dos parlamentares, segundo os dois deputados.


Como mostrou o Congresso em Foco, o colaborador de Fernando Sarney viajou de Brasília para São Paulo transportando uma mala – com conteúdo não identificado pela Polícia Federal – por meio de uma passagem da cota de Abicalil. Ele e Valadares demitiram os assessores apontados pela comissão de sindicância da Câmara, que resultou na abertura de processo administrativo disciplinar contra os ex-auxiliares dos deputados.


De acordo com os parlamentares, o relatório diz que o bilhete do auxiliar de Fernando Sarney, Marco Antônio Bogéa, foi comprado na agência de Pedro Damião Pinto Rabelo. Era julho de 2008 e Bogéa foi seguido pela Polícia Federal, que investigava os passos de pessoas ligadas a Fernando Sarney na Operação Boi Barrica (leia a íntegra do inquérito).


Segundo o relatório, Damião emitiu a passagem com um crédito fornecido pelo então assessor de Valadares, José Ribamar de Abreu. Por sua vez, Ribamar “emprestou” a cota do então chefe de gabinete de Abicalil, Manfred Rodriguez, que, como ele, trabalhava no 6º andar do Anexo IV da Câmara.


Procurado pela reportagem, Damião não retornou os recados em seu celular. Ribamar e Manfred não foram localizados.


R$ 3 mil


Abicalil afirma que Manfred emprestou R$ 3 mil em créditos a Ribamar. Entretanto, não informou ao chefe sobre a operação. O parlamentar afirma que o servidor não lhe convenceu ao explicar por que tudo foi feito à sua revelia. “Ele falou da confiança entre nós”, contou Abicalil, que demitiu Manfred no último dia 6.


Os dois deputados disseram-se satisfeitos com o resultado da investigação da Câmara, porque mostra que eles não tiveram culpa pelo mau uso das verbas a que têm direito. “O papel fundamental foi desvendar esse esquema criminal”, afirmou Valadares ao Congresso em Foco.


Segundo o parlamentar sergipano, Ribamar negou que tivesse vendido a cota para Pedro Damião. “Os dois dizem que não conhecem o Damião”, conta o deputado.


Quadrilha


Essa não foi a única viagem de Bogéa paga com recursos da Câmara. Como mostrou o Congresso em Foco, ele também voou oito vezes por meio de créditos de passagens áreas, vindas de outros gabinetes, como o do irmão de Fernando Sarney, o deputado Zequinha Sarney (PV-MA) (leia mais).


De acordo com o relatório da Operação Boi Barrica, Bogéa saiu de Brasília e transportou uma mala para o apartamento de Fernando Sarney nos Jardins, em São Paulo. Lá, segundo mostram as transcrições dos diálogos telefônicos, foi seguido pelos policiais, que monitoraram seus passos até a porta do apartamento.


Bogéa avisou Fernando Sarney que havia investigadores no térreo do condomínio. Em contato com um policial federal, Fernando descobriu não haver mandado de prisão contra Bogéa. Para a PF, o agente “vazou” informações da operação aos investigados.


No inquérito da Operação Boi Barrica, rebatizada como Faktor, Fernando Sarney foi indiciado por formação de quadrilha, instituição financeira irregular, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Existiu, segundo a PF, tráfico de influência de pessoas ligadas a Fernando Sarney para interferir em obras e projetos na empresa de ferrovias Valec, na Eletrobrás e na Petrobras.


 

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