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O mapa da violência no Distrito Federal

Na periferia, moradores convivem com índices de criminalidade que lembram o dos países mais violentos do mundo; nas áreas nobres, onde vivem políticos e a elite do funcionalismo, nenhum assassinato é registrado há dois anos. Mais parece a Europa

 

 

 

O Distrito Federal abriga, ao mesmo tempo, a estrutura político-administrativa e residencial da capital, área onde não há homicídios, e regiões com assassinatos diários. Em regiões nobres como o Lago Sul, o Park Way e a Octogonal/Sudoeste há dois anos a polícia não registra assassinatos. Em outras, a poucos quilômetros do Palácio do Planalto e do Congresso, os índices de criminalidade são comparáveis às regiões mais violentas do país e do mundo.

De janeiro a julho deste ano a polícia brasiliense registrou 334 homicídios, 28 latrocínios e quatro mortes causadas por lesão corporal nas 31 regiões administrativas que formam o DF. Em média, foram quase duas execuções por dia. Isso representa 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes/ano. Este índice é quase o dobro de São Paulo, a maior cidade da América Latina, que registra 11 homicídios, latrocínios e lesões fatais por grupo de 100 mil por ano.

A taxa está longe da contabilizada em um dos estados menos violentos do país, Santa Catarina, que registra 12 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes/ano. Em alguns lugares, as estatísticas no Distrito Federal são próximas às registradas por alguns dos países mais violentos do mundo, como Nicarágua e El Salvador.

 

Os números oficiais revelam que a região mais perigosa do DF é a Fercal. Apelido dado a um local invadido por migrantes, hoje regularizado, onde vivem quase 9 mil pessoas. Nos sete primeiros meses deste ano, a pequena região administrativa registrou 45 mortes violentas por grupo de 100 mil habitantes. São taxas que deixam o lugar, que fica a menos de 30 quilômetros do Palácio do Planalto, com níveis de violência comparáveis a de cidades da Nicarágua e El Salvador, dois países que estiveram em guerra até a década de 1990 e registraram em 2014 entre 45 e 90 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes por ano. Na Fercal, a renda per capita mensal é de R$ 670. Menor que há três anos. Lá, cada casa consegue ganhar R$ 2,4 mil mensais.

Em seguida vem o Paranoá, uma das primeiras invasões coletivas que virou cidade. De janeiro a julho deste ano, a região registrou 33 mortes por grupo de 100 mil habitantes/ano. Nesse aglomerado a renda per capita mensal é de R$ 963. A terceira mais violenta é a Estrutural, com 28 mortes violentas. Habitada há poucos anos por pessoas que viviam e ainda vivem do maior lixão a céu aberto da América Latina, hoje oficialmente é uma região administrativa, cuja renda per capita é de R$ 548 mensais. Por lá neste ano o índice é de 24 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes.

Vanessa Arcoverde/Campus/UnB
Nos Estados Unidos este índice que mede a intensidade da violência não passa de cinco assassinatos por grupo de 100 mil habitantes/ano. Na Bélgica e na Holanda o número é ainda menor: três homicídios, latrocínios e lesões fatais por grupo de 100 mil. No Japão a taxa é abaixo de um por 100 mil. No lado violento do mundo onde se encontra o DF, há exemplos como o de Honduras, onde a taxa de assassinatos é de 91, e na Jamaica, onde são registradas 52 execuções por grupo de 100 mil moradores.

É consenso entre delegados que os índices de criminalidade em Brasília e arredores também refletem a atuação de quadrilhas organizadas que vivem nas cidades no entorno do DF. Os policiais garantem que grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, se instalaram nos municípios goianos vizinhos à capital e transformaram os brasilienses em mercado para fornecer drogas e fonte de roubos e assaltos. Pesquisadores também apontam o crescimento súbido e desordenado como outro importante motivo do aumento dos índices de violência.

A Secretaria de Segurança Pública comemora uma ligeira queda de 1,3% na taxa de homicídios no DF de janeiro a setembro com relação ao mesmo período do ano passado. A redução não tira a capital e suas cidades satélites – como eram chamadas as atuais regiões administrativas quando o DF foi implantado – dos primeiros lugares nas estatísticas nacionais da violência. Além de Brasília, apenas São Paulo, Espírito Santo, Ceará e Amazonas registraram redução nesse tipo de crime. Os "medidores" históricos dos níveis de violência do DF constatam uma preocupante estabilidade nas taxas de criminalidade, com a migração dos focos de delitos.

Ilhas de excelência

Pedro Ventura/Ag. Brasília
A violência também é desigual na capital do país. No DF há ilhas de excelência comparáveis às regiões mais ricas da Europa. O Lago Sul, o Park Way e a Octogonal/Sudoeste são três localidades onde não há homicídio desde 2014. Nestas áreas moram, sobretudo, a elite do serviço público e autoridades dos três poderes. Têm baixa densidade, a população é estável e formada principalmente por gente madura. A renda per capita lá varia entre R$ 6 mil e R$ 8 mil, o nível de escolaridade é o superior completo, a urbanização e a implantação dos equipamentos públicos são de alto nível. São características de locais pacatos. Outras regiões também de classe média e classe média alta, como o Lago Norte, o Plano Piloto, Águas Claras e o Cruzeiro, registram poucos crimes violentos, com taxas europeias.

Especialistas em segurança pública apontam a estabilidade da população local como um dos fatores que mantêm o baixo nível de violência, além da baixa densidade habitacional. No Lago Sul, no Park Way e na Octogonal/Sudoeste não há terminais de ônibus, os moradores quase não usam o transporte público. Nos dois primeiros, a ocupação urbana é horizontal, com a quase totalidade das unidades habitacionais de casas. A Organizações das Nações Unidas (ONU) já apontou Brasília – formada pelo Plano Piloto e estes “bairros” pacatos, como uma das dez cidades do mundo com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

A secretária de Segurança Pública, a socióloga Márcia de Alencar, classifica estes locais de “nirvana”, em referência à meta máxima do estágio espiritual dos budistas. Mas também cita novas aglomerações como Café Sem Troco, localizada na Fercal, região proporcionalmente mais violenta (veja mapa), Água Quente,  e um local conhecido como Santa Luzia, uma espécie de favela do lixão que forma a cidade Estrutural, como áreas de elevada de violência. “As maiores aglomerações de crimes violentos são pontuais. Normalmente em locais com baixa presença do Estado e atuação do tráfico de drogas”, explica a secretária.

Márcia argumenta que a violência também se combate com a implantação de iluminação pública e a limpeza urbana, por exemplo. Essa é a linha priorizada pelo atual governo para combater a criminalidade nessas regiões.

Veja íntegra do levantamento da violência no DF

Dados socioeconômicos do Distrito Federal reunidos pela Codeplan

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