Kalil, o franco-atirador que ameaça Aécio

Polêmico e dono de um discurso “antipolítico”, a exemplo de Doria e Trump, o ex-presidente do Atlético Mineiro Alexandre Kalil ameaça impor ao presidente do PSDB sua terceira derrota consecutiva dentro de casa em dois anos e complicar suas pretensões de chegar ao Planalto

 

 

 

Como cartola de futebol, ele levou um dos clubes mais populares do país à inédita conquista da Taça Libertadores da América, em 2013. Como político, quer surpreender, dentro de um pequeno partido, elegendo-se prefeito da quarta capital mais rica do Brasil. Ex-presidente do Clube Atlético Mineiro, Alexandre Kalil (PHS) é o novo obstáculo no caminho do senador Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência da República. Cabo eleitoral de Aécio em eleições passadas e segundo colocado no primeiro turno, Kalil lidera as últimas pesquisas para a prefeitura de Belo Horizonte, desbancando o deputado estadual João Leite (PSDB), ex-goleiro do próprio Atlético-MG. O cenário, porém, ainda é de indefinição.

Com o avanço dele, o presidente nacional do PSDB corre o risco de sofrer sua terceira derrota consecutiva, em apenas dois anos, dentro de casa. Após ter menos votos que Dilma em Minas na disputa presidencial e de ter seu candidato a governador derrotado pelo PT no primeiro turno, em 2014, Aécio se vê agora ameaçado por um franco-atirador de pavio curto, dono de um discurso “antipolítico” e personalista e de uma metralhadora verbal giratória. Um eventual novo fracasso em seu berço político põe em xeque o poder eleitoral do senador e complica ainda mais sua liderança no próprio PSDB, abalada principalmente pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), de São Paulo, hoje favorito para ser o nome dos tucanos na corrida ao Planalto em 2018.

Em sua primeira campanha como candidato, Kalil encarna o papel do empresário – é empreiteiro – que quer virar político para mudar “tudo o que está aí”, a exemplo de João Doria (PSDB), prefeito eleito da capital paulista com o apoio de Alckmin, ou do controverso magnata Donald Trump, nos Estados Unidos. Assim como o norte-americano, Alexandre Kalil coleciona frases polêmicas e já se viu traído pela própria língua algumas vezes.

“Eu roubo, mas não peço propina”, disse o candidato mineiro enquanto acusava João Leite de participar de um esquema de corrupção durante um debate na TV no último fim de semana. Em seguida, foi ao Twitter se desculpar: “Peço desculpas. No debate, quis dizer ‘eu devo, mas não peço propina’. Saiu outra coisa. Mas estou tranquilo. Todos sabem que nunca roubei”.

Coleção de polêmicas

Para se eleger, Kalil depende de votos dos cruzeirenses, torcedores que já comparou a “aleijados”, das mulheres – sobre as quais fez comentários que agora tem de explicar – e dos evangélicos e católicos, após ter dito que preferia “bar e uísque” e achava igreja “um saco”. O candidato precisa do apoio do pequeno PHS, partido ao qual se filiou no início deste ano porque “não dói e é de graça” e tem de fazer a “merda de política”, que desconjurou ao anunciar a desistência da candidatura a deputado federal pelo PSB, em 2014, após a morte de Eduardo Campos (PSB).

Com o slogan "Chega de político, é hora de Kalil", o candidato diz que está entrando para a política agora, mas sua militância partidária começou no PSDB, em 2001, ao lado do próprio Aécio. Ele pediu votos entre os atleticanos para o tucano, que é cruzeirense, em suas eleições para governador e senador. Depois, o cartola trocou o PSDB pelo PSB, do atual prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, agora um de seus principais alvos. Em junho deste ano, foi até o Senado para avisar Aécio e Antonio Anastasia (PSDB-MG) que era pré-candidato à prefeitura da capital mineira. Seu vice é o deputado estadual Paulo Lamac, que trocou o PT pela Rede Sustentabilidade, de Marina Silva.

Nem PSDB nem PT

Desde o início da campanha, Kalil mantém discurso agressivo em relação aos políticos “tradicionais” e ao tucanato. Se João Leite ganhar, quem comandará o município será Aécio, tem insistido. Também repete que o nome deles aparece na chamada “lista de Furnas”, documento cuja autenticidade ainda não foi comprovada sobre um suposto esquema de corrupção no governo FHC.

O candidato também alega querer distância do atual governador, Fernando Pimentel (PT), alvo da Operação Acrônimo, da Polícia Federal. Por causa da rivalidade com o PSDB, os petistas apoiam o candidato no segundo turno. Mas de maneira velada, já que ele afirma que não precisa e não deseja o apoio de partido algum. “Eu quero ser prefeito de Belo Horizonte. Não quero saber do PT. Não quero saber do PSDB”, disse.

Janot

Para conquistar a prefeitura, Kalil aposta em outro tipo de cabo eleitoral. Ainda no primeiro turno, divulgou em sua página de campanha no Facebook uma foto ao lado do procurador-geral da República, o também atleticano Rodrigo Janot. Na legenda, o candidato diz que teve autorização do procurador-geral para utilizar a imagem. “Perguntei ao Janot se poderia usar. A resposta: ‘Te conheço, Kalil. Use à vontade”, publicou.

Junto com essa foto aparece outra em que João Leite participa de uma confraternização. Entre os políticos que acompanham o tucano estão Aécio, Anastasia, o vice-governador Antônio Andrade (PMDB) e os deputados Leonardo Quintão (PMDB-MG) e Luiz Fernando Faria (PP-MG). Este último é um dos parlamentares investigados na Operação Lava Jato. O próprio Aécio é alvo de dois inquéritos em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF). “Me diga com quem tu andas”, escreveu entre as duas imagens.

20 segundos

Mesmo com direito a apenas 20 segundos no horário eleitoral, Kalil terminou o primeiro turno na segunda colocação, com 26,5% dos votos válidos, atrás de João Leite, que liderou com 33,4%. Os dois, no entanto, foram superados pelos eleitores que não votarem em ninguém. O índice dos que não compareceram à votação, votaram em branco ou anularam chegou a 43% na capital mineira, um dos mais altos do país.

O tucano saiu na frente nas primeiras pesquisas divulgadas no segundo turno. Mas, com a divisão ao meio do horário eleitoral e o discurso cada vez mais agressivo do candidato do PHS, o ex-goleiro teve de sair da defesa e ir ao ataque depois de ver sua liderança ameaçada. No dia 11, João Leite aparecia com 55% das intenções de votos contra 45% de seu adversário, conforme pesquisa Datafolha. Em pesquisa divulgada ontem pelo mesmo instituto, os dois estão em empate técnico, considerada a margem de erro, mas Kalil aparece numericamente à frente: 34% a 31%. O mesmo cenário é desenhado pelo Ibope.

Troca de acusações

Divulgação
Para tentar impedir a derrota de seu candidato, Aécio tem concentrado esforços em Belo Horizonte, onde está desde o início da semana fazendo articulações políticas. Entre os tucanos, há uma avaliação de que João Leite, conhecido por seu estilo discreto e moderado, demorou a reagir aos ataques de Kalil. Nos últimos debates, o clima entre os dois esquentou com troca de acusações, como nepostimo, incompetência para administrar uma metrópole, participação em esquemas de corrupção e calotes.

 

Na campanha, Leite tem questionado uma dívida de R$ 100 mil de IPTU de Kalil com a própria prefeitura e débitos trabalhistas e previdenciários de sua empresa de engenharia. Também tem cobrado explicações de Kalil, que tem patrimônio declarado de R$ 2,78 milhões, por ter informado à Justiça que doou para sua eleição R$ 2,2 milhões. O candidato do PHS afirma que teve problemas financeiros como qualquer outro empresário do país e que vai pagar o que deve. “Quando eles veem que vão chegando essa derrota, aí me perguntam se bati em mulher. Disse que não, mas que só apanhava de mulher. Agora vou virar pedófilo e, por fim, cruzeirense”, disse em entrevista publicada no jornal O Globo.

O Congresso em Foco procurou as assessorias de Kalil e de Aécio, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem.

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