O dono do circo no Congresso

Você sabe o que o deputado Tiririca faz? Representantes do universo circense contam como o palhaço campeão de votos virou o principal porta-voz da categoria no Legislativo em seu primeiro ano de mandato (reportagem publicada na 2ª edição da Revista Congresso em Foco, em março de 2012)

A alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo, reza o dito popular. Mas, para Francisco Everardo Oliveira Silva, aquela foi a maior tristeza de sua vida. Alguém pôs fogo de verdade no circo do palhaço. Sem lona nem picadeiro, desfez-se da maquiagem e guardou o sorriso na mala. Não viu graça na própria desgraça. Pegou a filha de dois anos por uma mão, a mulher pela outra, e tomou o rumo de casa: três dias de carona em carona, 650 quilômetros, de Peritoró, no Maranhão, até Fortaleza, no Ceará. A arte popular brasileira perdia um circo, mas a Câmara começava a ganhar ali um deputado.

Duas décadas depois, Francisco Everardo, o dono do circo que virou cinzas, é o deputado Tiririca (PR-SP), primeiro palhaço eleito na história do Congresso. A tragédia fez o artista se reinventar. Tirou o nariz vermelho e a pintura do rosto aos poucos, a contragosto, para ganhar a vida em praças de alimentação com peruca, bigode e roupas extravagantes. “As pessoas tinham vergonha de rir do palhaço”, conta. Debochando de si e dos outros, virou fenômeno humorístico e eleitoral. Vendeu 1,5 milhão de cópias com seu grande sucesso musical “Florentina”, em 1996, e recebeu 1,3 milhão de votos em 2010 – a maior votação da atual legislatura e a segunda da história da Câmara.

Um ano após sua posse, você sabe o que o deputado Tiririca faz? A maioria de seus eleitores não. Mas representantes do meio circense contam que Tiririca virou a principal voz do circo no Congresso. “Eu saí do circo. Mas o circo não saiu de mim. Devo tudo a ele. A gente está aqui para fazer barulho. Vamos gritar. De repente, alguém nos ouve”, afirma o deputado, que estreou no picadeiro aos oito anos de idade.

“Pela primeira vez, temos um gabinete completamente aberto para nós. O Tiririca é uma bela surpresa que caiu do céu”, diz Alice Viveiros de Castro, representante do circo no Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. “Nunca tivemos alguém com tanta representatividade política. Ele é a nossa grande esperança”, afirma Marlene Querubin, dona do Circo Spacial, fundadora da Academia Brasileira de Circo e vice-presidente da União Brasileira de Circos Itinerantes (UBCI). “Com o Tiririca, os problemas da classe não têm ficado sem resposta. Ele está sempre presente e bem assessorado”, avalia Verônica Tamaoki, coordenadora do Centro de Memória do Circo, da Prefeitura de São Paulo.

Palhaço em ação

Na avaliação das especialistas, o palhaço famoso está dando visibilidade a uma categoria tradicionalmente ignorada pelo Estado e pela sociedade. As iniciativas de Tiririca aplaudidas pelos circenses vão desde a apresentação de projetos de lei, passando pelo direcionamento de verba do orçamento para o setor, até a tentativa de reduzir a burocracia para o funcionamento dos espetáculos. O deputado também tem acompanhado representantes do circo em discussões ministeriais e cobrado do Executivo informações sobre a atividade no país.

“Não há um censo que diga oficialmente quantos somos no Brasil. Por não termos endereço fixo, não somos atendidos em postos de saúde. A maioria das escolas se nega a matricular nossas crianças porque a lei que existe praticamente não prevê punição para a recusa”, reclama Marlene Querubin, representante do circo na Frente Parlamentar Mista da Cultura, da qual o deputado também participa.

Um dos quatro projetos de lei apresentados por Tiririca em 2011 prevê a criação de um programa de amparo social às pessoas que exercem atividades circenses. Na prática, a proposta garante aos profissionais do circo a inclusão na Lei Orgânica de Assistência Social, permitindo que eles sejam atendidos, por exemplo, pelo Sistema Único de Saúde (SUS) mesmo sem ter endereço fixo. “O Estado precisa entender que circo não tem CEP. Nosso CEP é o Brasil”, afirma Alice Viveiros defensora da mudança.

Quantos são?

De acordo com estimativas não oficiais, o circo emprega 30 mil pessoas diretamente e outras 120 mil indiretamente em todo o país por meio de 2,5 mil companhias. Tiririca quer saber quantos profissionais existem no Brasil, onde estão e o que fazem. Despachou um pedido de informações ao Ministério da Educação cobrando dados oficiais sobre o número de crianças circenses que frequentam a escola e reivindicando a entrega de material didático para esses alunos especiais. A pasta, porém, ainda não respondeu.

O gabinete do deputado também preparou uma série de perguntas ao Ministério do Planejamento na tentativa de mapear a realidade do circo no Brasil. Os dados, segundo ele, são necessários “para levar adiante um debate mais fundamentado sobre a formulação de políticas públicas para o desenvolvimento da atividade”. O documento, porém, ainda aguarda o despacho do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS). “O sistema aqui é muito engessado. As coisas não andam”, reconhece Tiririca. “É por isso que digo que deputado trabalha muito e produz pouco”, explica.

Representante do circo nas discussões travadas no Ministério da Cultura, a atriz, diretora teatral e pesquisadora Alice Viveiros vê na atuação do palhaço no Congresso um divisor de águas para os profissionais da área. “Tiririca tem mídia própria. A ação parlamentar dele vai além da apresentação de projetos de lei e da posição que toma nas votações. Quando ele faz reunião para discutir com prefeitos as dificuldades para instalar circo, as organizações vão lá por causa dele. Vão nos ouvir por conta da força dele”, observa. Alice se refere a uma concorrida audiência pública promovida pelo deputado, em dezembro, que discutiu as exigências das prefeituras para a instalação de circos. A presença de Tiririca atraiu para o debate os principais veículos de comunicação do país

Conhecimento de causa

Nem só de circo vive o deputado palhaço. Integrante de um Congresso em que 79% dos parlamentares concluíram o ensino superior, Tiririca é o único que sabe apenas ler e escrever. Como ele, há 15 milhões de brasileiros, também analfabetos funcionais, e outros 15 milhões que nem isso são. O assunto incomoda o parlamentar: ele é autor de uma proposta que cria a Bolsa-Alfabetização, benefício a ser pago pelo governo por seis meses a analfabetos maiores de 18 anos matriculados na rede oficial de ensino. “Ele não tem conhecimento livresco, mas tem de causa. Ao mesmo tempo em que aprendeu rapidamente o papel do deputado, Tiririca inventou o seu próprio papel de maneira muito inteligente. Serve de exemplo”, avalia o cientista político Paulo Kramer.

A atuação do deputado parece ser inspirada pelo passado triste do palhaço. O Circo do Tiririca, incendiado no início da década de 1990 no interior maranhense, reunia apenas nove artistas. Enquanto Tiririca montava a marquise do circo em uma tarde, o macaco-prego da companhia mordeu o braço de uma criança, filha de um “coronel” da cidade. “Ele mandou botar fogo no circo”, acusa o deputado. “O delegado foi muito legal comigo e disse ‘sai, fora, que esse homem vai mandar prender você’”, conta. Tiririca deixou para trás as cinzas da lona, mas o circo ainda continua em suas pegadas. O palhaço tem os seus motivos para não achar graça da incendiária expressão popular.

O deputado que não dorme

Acostumado a trocar a noite pelo dia, Tiririca preenche noites de insônia jogando videogame. Ele sofre para conciliar uma intensa agenda política e artística e admite que ainda não conhece Brasília

Tiririca está insone desde que virou deputado. Francisco Everardo, o cearense que dá vida ao palhaço, dorme apenas duas horas diariamente – das seis às oito da manhã – quando está em Brasília. Passa as noites em claro, jogando videogame com o motorista da mulher e o filho Antonio Everardo, de 16 anos. O costume de trocar a noite pelo dia o acompanha há três décadas, desde quando varava a madrugada vigiando o próprio circo. “Não dormir me deixa arrasado, fraco”, admite.

Mas Francisco Everardo resiste a tomar os remédios receitados pelo médico. “Tenho medo de me viciar.” Por enquanto, ele não tem demonstrado receio com o volume de trabalho. As agendas do palhaço e do deputado se misturam ao longo da semana. Tiririca desembarca em Brasília toda segunda-feira à noite e permanece na cidade até quinta à tarde. Na terça e na quarta, dias mais agitados do Congresso, recebe de 70 a 80 pessoas diariamente, fora os incontáveis pedidos de autógrafo e de pose para fotos que recebe nos corredores da Casa. “As pessoas se veem em mim”, diz. Terça à noite, ele costuma jogar futebol com um grupo de deputados em um clube nas redondezas do Congresso.

Um dos 13 deputados que tiveram 100% de presença em plenário, ele compareceu à quase totalidade das reuniões da Comissão de Educação e Cultura. Depois do expediente na capital federal, Tiririca desembarca em São Paulo para, já na pele do palhaço, começar a gravar seus quadros humorísticos na TV Record. Grava na quinta à noite e na sexta também. Nos finais de semana, divide-se entre compromissos políticos e familiares e a agenda de shows – cada vez mais reduzida por conta da atividade parlamentar. “É uma doideira”, resume.

Na capital federal, Tiririca vive em um confortável apartamento funcional com a mulher, a filha de dois anos e o filho adolescente. O casal raramente sai de casa e reclama da falta de tempo para conhecer Brasília. Mas pode ser visto, eventualmente, na mais famosa churrascaria da cidade. Comer bem é um prazer do qual ele não abre mão. “Passei fome pra caramba. Comia uma vez por dia. Não tinha arroz e feijão. Às vezes, só feijão com farinha. Às vezes, só rapadura e farinha”, afirma.

Grande família

Tiririca tem muitas bocas para alimentar. Aos 46 anos, o deputado conta cinco filhos, de quatro mães diferentes, e seis netos. Apenas o primogênito, Ângelo Vinícius, o palhaço Tirulipa, de 30 anos, segue os passos do pai no humor e se insinua na política também. É pré-candidato a vereador em Fortaleza, onde reside, pelo PSB. “Não vou poder ajudá-lo diretamente na campanha porque somos de partidos diferentes”, avisa o pai.

A figura paterna sempre foi uma lacuna na vida de Francisco Everardo. Criado pela mãe, Maria Alice, Tiririca só veio conhecer o pai biológico há dez anos durante um show no interior do Rio Grande do Norte. Do padrasto, o palhaço Batata, ele não guarda nenhuma graça. “Ele batia muito em mim quando eu era criança. Era racista, me xingava o tempo todo e dizia que eu ia ser maconheiro e ladrão. Mas ainda o ajudei no final da vida”, diz.

No recesso parlamentar, em janeiro, Tiririca promoveu uma grande festa em Fortaleza para comemorar seus 15 anos de casamento com Nana, uma atriz carioca de 34 anos que ele conheceu nos bastidores do programa “Vila do Tiririca” na extinta TV Manchete. Ela colabora na agenda de shows e também participa das apresentações do palhaço.

Assédio maior

“Quando ele começou a campanha, fiquei meio assustada. Mas me tranquilizei quando vi o carinho do público. Eu acreditava mais na eleição do que ele mesmo. Mas o Everardo abraçou a vida de deputado como uma carreira profissional”, diz Nana, que só chama o marido pelo nome artístico quando o vê fantasiado. “O assédio do público aumentou quando ele veio para a Câmara. É mais gente querendo tirar foto. Mas a gente está acostumada a isso”, afirma a mulher do deputado.

Tiririca não abandonou a carreira musical. Muito menos o humor. No recesso, gravou o sexto CD da sua carreira. “É o melhor disco que gravei na minha vida”, considera.

Em dezembro passado, a Sony Music, ex-gravadora de Tiririca, foi condenada a pagar uma indenização de R$ 1,2 milhão por conta da letra de uma música gravada por ele há 15 anos. A Justiça considerou racista a canção “Veja os cabelos dela”, em que faz troça do cabelo de uma negra. A gravadora e o cantor alegaram, na defesa, que as referências diziam respeito a uma brincadeira entre ele e a ex-mulher. Um amor pouco convencional também é o tema de “Ju”, principal faixa das 13 composições do novo CD de Tiririca. “A música é romântica e fala do amor do cara por aquela criatura. Só no final se descobre que a Ju é uma jumenta”, conta, entusiasmado.

“A política antes de Tiririca era uma coisa”

Primeiro palhaço a se eleger deputado rechaça comparação entre Congresso e circo e diz que sua eleição abre portas para quem, como ele, superou a miséria e sempre enxergou os políticos tradicionais como "sujos e iguais"

Quem votou em Tiririca pensando que o palhaço faria palhaçada no Congresso, pode tirar o cavalo da chuva e levá-lo para o circo. O deputado mais votado das últimas eleições diz não ver semelhanças entre a atividade circense e a parlamentar e que vai cumprir à risca as regras da Câmara para não quebrar o decoro. “Aqui a coisa é séria”, avisa. “Se não cometer deslize ético, com o que tem aí, já está bom demais”, acrescenta.

Satisfeito com seu desempenho no primeiro ano – ele se dá nota 9 -, o maior fenômeno eleitoral de 2010 acredita que sua eleição abre portas para quem, a exemplo dele, sobreviveu à miséria e pensava que todos os parlamentares eram “sujos e iguais”. Para o deputado, a política brasileira pode se dividir em antes e depois da eleição de Tiririca: “As pessoas se veem em mim e pensam ‘caramba, esse cara chegou lá, eu também posso chegar’.”

Ele conta que sua visão mudou ao descobrir que há no Congresso também parlamentares “supersérios” e que nem sempre as boas propostas vão adiante por causa do sistema “engessado” do Parlamento. Nesta entrevista exclusiva, o deputado diz que não fazia ideia do que era o PR quando recebeu convite para disputar as eleições pelo partido e que mantém relação apenas profissional com o presidente da legenda, o também deputado Valdemar Costa Neto (SP).

Francisco Everardo Oliveira Silva conta, ainda, que não há diferença entre o deputado e o palhaço Tiririca e que não teme ser manipulado na política. “Tudo é assim, uma mão lava a outra. A imagem de político é totalmente ruim. Mas quem me elegeu não votou no político. Elegeu o artista de circo e tem a consciência de que eu sou um artista.”

Congresso em Foco – Que avaliação o senhor faz de seu primeiro ano de mandato?
Tiririca – De um a dez, me dou nota 9. Foi sensacional, me surpreendi. Pensei que não conseguiria fazer nada no primeiro ano. Mas fiz coisa pra caramba. Apresentei projetos e promovi audiência sobre o circo.

Que diferença há entre o deputado e o palhaço Tiririca?
Não vejo nenhuma. Sou eu mesmo. Brinco, mas não lá dentro do plenário. Não vou fugir do regimento, não sou maluco. Não deixei de ser eu. Só perguntei para a assessoria o que pode e o que não pode. O que meu público vai achar de mim? Que eu estou aqui só pra fazer palhaçada? A gente vai perder os votos do cara que acreditou na gente?

Quais as suas prioridades para este ano?
Em 2012, vou ficar nessa questão da melhora de vida do artista de circo. Agora, se o projeto será aprovado é outra coisa. Tem parlamentar que tem dez mandatos, e só teve um projeto aprovado. Isso não depende da gente.

O que o senhor conhecia do PR antes de ser convidado pelo partido?
Nada de nada.

O que o senhor conhece do PR hoje?
É um partido que está crescendo muito. Minha entrada fez com que as pessoas se filiassem mais ao partido.

Que relação o senhor tem com o presidente do seu partido, deputado Valdemar Costa Neto?
Não é meu inimigo, não. Nem é meu amigo. Às vezes, ele me liga, manda pessoal para tirar foto. É uma relação profissional.

Por que o senhor acredita que foi escolhido para ser candidato do PR?
Uma mão lava a outra. Se me convidaram, não é porque tiveram pena de mim nem porque os caras me adoravam. É porque era bom para o partido. Eles tinham pesquisa. O que penso é realmente fazer um trabalho sério e digno pra não decepcionar não só o meu eleitor, mas o meu público. Não prometi nada. Se não cometer deslize ético, como o que tem aí, já está bom demais.

O senhor tem receio de ser manipulado na política?
Não. Tudo é assim, uma mão lava a outra. A imagem de político é totalmente ruim. Mas quem me elegeu não votou no político. Elegeu o artista de circo e tem a consciência de que eu sou um artista.

Já recebeu alguma proposta indecorosa depois que virou deputado?
Os caras nem chegam em mim. Eles sabem que sou muito autêntico. Eles não são nem malucos de falar comigo.

Que visão o senhor tinha do Congresso antes de ser deputado?
Quando a gente está lá fora acha que os caras não fazem nada aqui. Dentro, você vê que eles ralam pra caramba. Mas a política antes de Tiririca era uma coisa e agora é outra.

Como assim?
Um palhaço de circo foi o deputado mais votado do país. Quebrou aquela coisa de que só pode ser deputado o político, o professor, o empresário, sei lá o quê. Esta é a Casa do povo.  Qualquer um pode entrar. Com certeza, minha eleição abre portas para quem quer trabalhar e fazer algo pelo povo. As pessoas pensam em colocar um cara do povo no poder, porque a visão que elas têm de fora é de que todos são sujos e iguais. Mas tem gente superséria aqui dentro.

O que o surpreendeu negativamente na Câmara?
O sistema é engessado. Não é que eu não queira, mas não tem como mudar. São interesses diferentes. Tive quase 1,5 milhão de votos, mas meu voto vale a mesma coisa de quem se elegeu com 13 mil. Às vezes, você tem vontade de gritar, mas não pode. Eu achava que, por ter sido bem votado, chegaria aqui com moral. Mas não. É uma loucura. Trabalha pra caramba, mas produz muito pouco.

Que critérios o senhor adota nas votações?
Os líderes é que comandam tudo. Mas tenho um sistema diferente, porque o partido me deixa à vontade para votar. Voto se eu achar legal, que a coisa não prejudica o povo.

Afinal, o senhor contrariou mesmo o partido na hora de votar o salário mínimo ou cometeu um erro na hora do voto?
Como vou votar contra o povo que me botou aqui? Não tem como. Aí deram aquela versão de que votei errado. Desde a primeira reunião, o partido disse que era pra eu ser o que sou.

Muita gente compara o circo ao Congresso. O senhor vê semelhança entre os dois?
Não tem nada a ver. A coisa aqui é séria.

Se a eleição fosse este ano, o senhor seria candidato à reeleição?
Não sei. Estou me adaptando, fazendo o que dá pra fazer. Gosto de ficar solto. Isso aqui me deixa muito preso. Para mim, é legal, porque a gente está fazendo alguma coisa.

O processo a que o senhor foi submetido para provar que sabia ler o despertou para a leitura?
O estudo é muito importante para tudo. Sou um cara religioso. Leio muito a bíblia e cordéis que os artistas do Nordeste mandam pra mim. O artista tem de estar antenado. Eu, que faço humor quase que de improviso, tenho de ter o começo da coisa, da história. Não existe piada nova nem velha. É a maneira de contar.

O senhor considera que sofreu discriminação nesse processo?
Se eu não fosse artista popular, não teria dado essa confusão toda. É que vende. Tenho a consciência de que sou um artista muito importante para o país. Mas não fico com isso na cabeça. Fico com pé no chão total. As pessoas se identificam muito comigo. Quando um artista popular vende 1,5 milhão cópias é um cara que nunca mais vai ser esquecido na vida. Neguinho tem de respeitar mesmo, tirar chapéu. Quem falar de humor no país e não colocar o Tiririca está por fora. Não é pra qualquer um, maluco.

O senhor acompanha o que os jornais dizem a seu respeito?
Não sou de acompanhar muito a imprensa. Não tenho nada contra. Mas já estou acostumado. Eles falam um negocinho bom e uma porrada de coisas ruins. A imprensa, de maneira geral, coloca aquilo que vende e dá ibope. Dizer que o Tiririca está fazendo coisas boas talvez não venda. Prefere dizer: olha, o palhaço vacilou.

Como o senhor lida, então, com a imprensa?
Sempre trabalhei assim: se tenho algo para apresentar à imprensa, eu a chamo. Se não tenho, recuo. Apresento e recuo. Por isso, não vou me queimar. Não é que eu não goste da imprensa. Falem de mim. Vão bater para caramba, mas isso é igual massa de bolo. Vão batendo e a gente vai crescendo.

O que o senhor viu de mais engraçado por aqui?
No plenário vejo muita coisa engraçada, mas não posso falar, porque aí é quebra de decoro. Aqui é uma loucura. No plenário, um fala, o outro está comendo, dormindo. Ninguém está nem aí.

Qual foi o pedido mais estranhou que o senhor recebeu na Câmara?
Um cara do Acre veio me pedir para eu fazer passar na propriedade dele um rio que ficava a mil quilômetros de distância. Como sou do povo, sempre tive jogo de cintura. Expliquei que ele que tinha vindo no canto certo, mas que não havia condições de atender. Fiz uma brincadeira, e ele saiu satisfeito.

O senhor considera que errou ao mandar conta de um resort em que se hospedou no início do mandato para a Câmara pagar?
Se houve erro, foi erro da Câmara. Você passa a nota para o chefe de gabinete, que passa para a Câmara. Eles não tinham de ter aprovado lá então.

O senhor também foi questionado, no início do mandato, por contratar humoristas para o seu gabinete...
Aquilo foi uma bobeira, os caras continuam contratados. Eles são muito profissionais e me representam em eventos culturais que não posso ir. Se sou humorista, vou contratar o quê? Advogado? É a minha área, são os caras que entendem, que conhecem o meu povo.

Que crítica o senhor recebeu após a eleição que mais o irritou?
Tenho raiva de quem me faz de bobo e otário. Não estou aqui por acaso. São anos de trabalho. Ah, não estudou para isso. Nesse nosso meio, o cara tem de se inteirar, estar ligado. Senão, vem outro e passa por cima igual trator sobre um Fusca.

Isso é um desabafo?
Não é um desabafo. Só que as pessoas não veem que é muito importante arrancar o sorriso de uma pessoa. A minha história de vida é muito bonita. É de vitória. Sair do Ceará, passando fome, de família humilde, virar artista de circo e estar no meio dos grandes artistas é muita coisa. Sou muito feliz. As pessoas se veem em mim e pensam “caramba, esse cara chegou lá, eu também posso chegar”. Isso é bacana.

Tiririca: 100% de presença e nenhum discurso

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