O Brasil e a crise econômica

Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos mais respeitados economistas brasileiros, faz uma didática exposição sobre a crise econômica internacional e seus efeitos no país

Sylvio Costa

Ao falar na manhã de hoje no 4º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado em São Paulo pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o economista Luiz Gonzaga Belluzzo descartou as duas visões – uma pró, outra anti-Lula – que hoje polarizam o debate sobre a conjuntura econômica e as medidas adotadas pelo governo federal para enfrentar a crise global.

Para ele, é falso o argumento dos críticos da administração petista de que o Estado brasileiro enveredou, sob o comando do PT, numa situação de descontrole fiscal, ou seja, elevou os seus gastos muito além da sua capacidade de gerar receitas para sustentá-los.

“O Brasil fez uma política fiscal que, a despeito das críticas, gerou superávit. A maioria dos países entrou na crise com déficit. É engraçado isso, mas o Brasil foi beneficiado pelo conservadorismo do governo Lula. O Lula é assim, não quer correr riscos, é um cara prudente”.

Mas o economista também faz restrições ao otimismo militante dos entusiastas do governo federal para os quais estamos saindo da crise mais rapidamente do que a maior parte das nações por causa da suposta excelência da política econômica seguida desde 2003, ano em que Lula tomou posse.

Belluzzo concorda que o Brasil está retomando o crescimento com mais agilidade do que a maior parte dos países, mas nem atribui tal fato ao eventual brilhantismo de nossos gestores econômicos nem entende que tenhamos chegado a uma situação que permita comemorações efusivas.

“A queda é grande”

Ele prevê que o crescimento da economia brasileira em 2009 ficará entre -0,5% e +0,5%. “A queda é grande”, destacou. Segundo o IBGE, até ser atingido pela crise mundial, no último trimestre de 2008, o Brasil vinha crescendo acima de 6% ao ano. De mais a mais, Belluzzo fala que o país foi beneficiado, “sem que tenha feito nada para isso”, pela elevação dos preços das matérias-primas, as chamadas commodities (produtos agrícolas e minerais, sobretudo), que formam parcela fundamental das exportações nacionais e tiveram grande peso na obtenção dos recursos utilizados pelo Banco Central brasileiro para acumular mais de US$ 200 bilhões em reservas.

Esse processo, de acordo com a sua análise, está relacionado com as peculiaridades do último ciclo de crescimento capitalista mundial: “Nesse ciclo, em que os americanos consumiam e os chineses e asiáticos produziam e investiam, o Brasil ficou numa posição muito boa, nessa nova divisão internacional do trabalho. Os economistas acham que foi a política de metas de inflação, eu acho que foi a mais-valia dos chineses que nos beneficiou. Os chineses produzem muito barato, e foram os baixos preços dos produtos industriais, possibilitados pela mais-valia dos trabalhadores da China, que deram impulso às commodities”.

O economista enfatiza outro ponto que contou pontos em favor do Brasil, a força do nosso sistema bancário, mas numa linha bem diferente daquela encontrada em manifestações de analistas de perfil liberal. “O nosso sistema financeiro entrou na crise com relativa solidez pelos seus vícios, porque não gosta de emprestar para ninguém”, afirmou.

Por fim, ele diz que o governo Lula não contou apenas com a sorte. Fez o seu papel quando a crise mostrou a sua cara, por meio de medidas como a redução de impostos: “Aí também se saiu bem, houve uma reação, a economia se recuperou”.

De qualquer maneira, prosseguiu, “de todos os países emergentes, o que vai sair antes da crise é a China”. Isso ocorrerá porque “o sistema bancário deles é um sistema de papai-mamãe, o banco é do Estado, não tem o sistema financeiro ocidental, que oferece muito mais riscos”. Assim, se um banco entra em dificuldades, o governo intervém botando dinheiro e eliminando o problema. “Todo mundo dizia: os bancos chineses vão quebrar. Isso é uma bobagem porque o Estado vai lá e capitaliza o banco”, completou.

“Ciência da inexatidão”

Um dos mais respeitados economistas brasileiros, Luiz Gonzaga Belluzzo é também um homem de variada trajetória pessoal e profissional. Formado em Direito, pela Universidade de São Paulo (USP), doutorou-se depois em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), instituição da qual se tornou professor.

Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney, 1985 a 1987) e secretário de Ciência e Tecnologia do estado de São Paulo (governo Quércia, 1988 a 1990). Depois disso, sem deixar a atividade acadêmica, tornou-se consultor da revista Carta Capital; presidente do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que mantém a TV Brasil; e, mais recentemente, presidente do Palmeiras; além de fazer as vezes de consultor eventual do presidente Lula para assuntos econômicos.

No congresso promovido pela Abraji, aberto na quinta-feira e que termina hoje (na Universidade Anhembi Morumbi), ele dividiu uma mesa de debates com o veterano jornalista Celso Ming, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, sobre “A cobertura da crise econômica”. Ambos defenderam a necessidade de o jornalista de economia desconfiar de versões apresentadas pelas fontes de informação, aprofundarem o seu conhecimento econômico e lutarem permanentemente contra as certezas prévias e a arrogância.

“Como diz o Celso, e preciso desconfiar. O saber econômico não é uma coisa constituída, está sempre sujeita a novas hipóteses”, ponderou Belluzzo, dando como exemplo a própria crise global, gerada pela “pirâmide” de operações financeiras sem lastro que vinham sendo feitas de modo incessante, baseadas na “hipótese frágil de que os imóveis [nos Estados Unidos] iam se valorizar continuamente a curtíssimo prazo, uma fragilidade que já era visível desde 2004” – quando, explica ele, um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) já claramente apontava os riscos de curto-circuito.

“Os jornalistas compraram as ideias mais absurdas que foram vendidas sobre o capitalismo, que não é simplesmente economia de mercado, mas um complexo conjunto de relações entre Estado, mercado e sistema financeiro, o sistema que representa a alma do capitalismo atual. Venderam essa historia de que o mercado poderia se autorregular, e muita gente comprou”, acrescentou o economista.

Lições finais do professor: “A gente precisa desconfiar sempre do saber convencional, inclusive o nosso, e ser um pouco menos arrogante. A certeza que vejo de alguns colunistas econômicos... eles, e elas, não têm nenhuma dúvida sobre suas certezas! E a economia é uma ciência da inexatidão. Quando você transmite essa ideia para o leitor, de que não pode haver dúvidas sobre a sua certeza, você transmite uma ideia equivocada. Você tem que conceder ao leitor o direito de duvidar daquilo que você está escrevendo. Eu estudo essa porcaria há anos, estudo isso todo dia, três a quatro horas por dia, e sempre sou cheio de dúvidas”.

Celso Ming arrematou, dizendo que a presente realidade oferece grande oportunidade para o exercício do saudável direito jornalístico a desconfiança: os vultosos recursos queimados pelos governos para enfrentar a crise econômica, se por um lado irão possibilitar superá-la em curto e médio prazos, trazem efeitos danosos para um amanhã que tende a trazer consigo novos motivos para temores. “O momento é muito bom para o jornalismo econômico. E como um médico. Quando toda a população está sadia, ele não tem o que fazer. Mas quando está todo mundo doente, tem muito trabalho. E o que está acontecendo hoje para os jornalistas de economia”, ensinou Ming.

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