“Ninguém deve ser líder de tudo”, diz Marina

Renata Camargo


A senadora Marina Silva (PV-AC) assinou neste domingo (30) a filiação ao Partido Verde (PV). Em cerimônia de quase duas horas em São Paulo, a ex-ministra do Meio Ambiente, durante seu discurso, deu um recado implícito ao governo Lula: “Ninguém deve ser líder de tudo. Cada um se coloque na posição de revezamento”, declarou Marina que estuda se candidatar à Presidência da República nas eleições de 2010.


“Ninguém deve ser líder de tudo e querer ser líder do resto. Isso está destruindo a política no Brasil. É preciso nascer novas plantas. Se você quer reter tudo, você vai acabar virando mar morto. Cada um se coloque na posição de revezamento”, desafiou Marina. “Estamos aqui porque temos ideais e em cima de princípios éticos podemos fazer alianças pontuais, pois não somos obrigados a pensar da mesma forma, não somos saco de estopa. O erro é quando alguém pensa que de forma ilegítima vai fazer o seu interesse prevalecer aos demais”, declarou.


Em meia hora de discurso, a senadora Marina Silva relembrou os seus 30 anos de militância no PT, falou sobre suas expectativas em relação ao novo partido e enfatizou a importância de adotar políticas de sustentabilidade como estratégia de desenvolvimento do país. Nitidamente feliz, sendo aclamada por colegas de partido, eleitores e admiradores, Marina reafirmou sua responsabilidade em reformular o programa político do PV.


“Venho pensando a sustentabilidade como algo estratégico para o Brasil e para o planeta. Tenho andado pelo Brasil e sinto que está surgindo uma nova forma de pensar políticas públicas. Isso está acontecendo porque estamos vivendo a crise na economia e uma crise ambiental sem precedentes. Chegamos à era dos limites. O PV, ao dispor a fazer uma revisão no seu programa e em sua estrutura partidária, me moveu para esse desafio”, disse.


“Não foi fácil”

Quando anunciou no início do mês sua saída do PT, após 30 anos filiada ao partido, Marina causou um verdadeiro reboliço na legenda. A saída da ex-ministra abre portas para sua candidatura à Presidência da República, ou ao menos um apoio de peso a um candidato de oposição ao PT, e prejudica os planos do presidente Lula, que tem preparado a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, como sua sucessora.

Na tentativa de manter Marina no partido, o PT chegou a publicar carta de pedido para que ex-ministra permanecesse na legenda. Na época, o presidente Lula cogitou a possibilidade de um encontro pessoal com Marina para tentar convencê-la a se manter filiada ao PT. O encontro, no entanto, não ocorreu. Mas os petistas mandaram uma recado à Marina: sua saída e possível candidatura podem prejudicar os planos do partido que a recebeu por tantos anos.


“Durante todo esse debate para a minha saída, eu ouvia: ‘Por que você não permanece no partido e vamos fazer esse embate para convencer o PT de que a sustentabilidade é estratégica? ’. Não trata mais de tentar convencer o PT daquilo que o mundo está convencido. Trata de fazer o encontro daqueles que já estão convencidos. Espero que esse gesto [sua filiação] possa contribuir para que a questão da sustentabilidade seja estratégica não só no PV, mas em outros partidos”, declarou Marina.


Em seu discurso, a senadora relembrou os tempos de militância petista e considerou que “não foi fácil” a decisão se desfiliar do PT. “Não foi fácil chegar até aqui. Chego até aqui e não posso dizer que esse percurso foi fácil. Tenho 30 anos de militância no PT e nesses anos aprendemos muito, realizamos muitas coisas boas, sonhamos muito. Não venho mais com a ilusão dos partidos perfeitos, mas venho com a certeza de que homens de bem podem aperfeiçoar as instituições”, disse Marina.


Socioambiental

A ex-ministra falou, especialmente, sobre os momentos de militância ao lado do líder seringueiro Chico Mendes. Marina recordou os primeiros passos de sua militância política socioambiental e relembrou os tempos ao lado de Chico Mendes, que "nem sempre era entendido pelo movimento sindical", pois “não lutava pela reforma agrária clássica” e sim, lutava “pela floresta”.


“O partido verde no Acre foi criado por vontade do Chico Mendes. Ele queria um partido para se coligar, mas ninguém queria coligar com o Chico Mendes, porque ele era visto como alguém contra o progresso. Então ele disse ‘nós vamos criar o PV aqui’. Perguntei: ‘Mas como criar o PV, se não temos militantes do PV aqui? Então Chico decidiu: ‘Vamos emprestar militantes do PT para fundar o PV’. O Partido Verde aprendeu o caminho da roça até hoje”, brincou Marina se referindo a sua saída do PT.


A senadora assinou a filiação ao PV na tarde de hoje ao lado do presidente do partido, José Luiz Penna, do líder do PV na Câmara, Sarney Filho (MA), do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), do escritor Jorge Cury – que também se filiou ao partido hoje –, do ex-deputado federal Fábio Feldmann, do biólogo e ambientalista João Paulo Capobianco e de outros intelectuais e líderes políticos.


“Hoje todo mundo está de acordo com a urgência de se fazer algo. Mas as esquerdas, tanto aqui, quanto em países da Europa, não entenderam nada, pois continuam propondo que para resolver a crise, que não é só econômica, é ambiental, social, global, é preciso mais crescimento, mais construção. Isso não resolve nada. Com Marina há uma nova consciência dos cidadãos e da sociedade civil”, disse a representante dos partidos verdes no Parlamento Europeu, Katherine Greeza.

A cerimônia de filiação da Marina Silva no PT durou cerca de duas horas. A abertura do evento, que começou com atraso de uma hora, teve início com o hino nacional e com um vídeo mostrando a recepção de militantes do partido em diversos estados ao nome de Marina. Muito sorridente, a senadora chegou à cerimônia após a abertura do evento, sendo ovacionada pelos presentes que gritavam: “Brasil urgente, Marina presidente”.

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