Nas revistas: Supremo blindado

Revistas destacam últimos momentos do julgamento do mensalão e as consequências do caso

Istoé

Supremo blindado

A capa preta e a caneta do relator do mensalão, ministro Joaquim Barbosa, fizeram com que o magistrado fosse comparado a um herói justiceiro dos quadrinhos na internet. Na vida real, porém, Barbosa tem recorrido a guarda-costas para se proteger. Desde o início do julgamento, o ministro não dá um só passo sem a escolta de sete homens, que ele requisitou ao Supremo Tribunal Federal. A operação de blindagem que alterou a vida do relator do mensalão desde o início do processo não será exclusividade dele. Na próxima terça-feira, o STF vai contratar 90 homens para fazer a segurança pessoal dos magistrados. A Corte está preocupada com a proteção dos ministros após o fim do julgamento. O preço do serviço é estimado em R$ 6,3 milhões, registra o edital do pregão, e o número de seguranças que escoltará cada ministro será uma decisão pessoal dos magistrados. O ministro Marco Aurélio de Mello, por exemplo, mais preocupado em manter a privacidade, terá apenas quatro seguranças. “Continuo protegido pelos meus jurisdicionados”, brincou. A maioria dos ministros terá escolta de oito seguranças. Joaquim Barbosa, por sua vez, que assumirá a presidência do STF em novembro, aumentará sua segurança. Contará com a proteção de dez homens divididos em dois turnos, quatro de dia e seis à noite. Para entrar na vida dos magistrados e fazer a segurança pessoal, os guarda-costas terão remuneração de R$ 8 mil mensais, receberão treinamento especial, além de informações sobre os hábitos, rotina e vida familiar dos ministros. Também precisarão assinar um termo de sigilo, que os impede de revelar a terceiros dados sobre a intimidade das autoridades, explica o especialista em segurança Irenaldo Pereira Lima, presidente do Sindicato das Empresas de Segurança do Distrito Federal. A arma-padrão para o serviço é uma pistola calibre 38, guardada em um coldre embaixo da axila.

Como Duda encolheu

Até o dia 11 de agosto de 2005, Duda Mendonça era conhecido como o publicitário que conseguiu transformar a imagem de sindicalista raivoso de Luiz Inácio Lula da Silva em líder popular carismático, o “Lulinha paz e amor”. Mas assim que decidiu ocupar, espontaneamente, a cadeira de depoente na CPI dos Correios e contar os artifícios usados pelo PT para pagar por seu trabalho na corrida presidencial de 2002, ele passou por um calvário particular. Embora tenha sido absolvido pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), na última semana, o publicitário amargou uma silenciosa pena de quase oito anos. Viu minguarem seus negócios e a força de seu nome no mundo da propaganda. Os números são reveladores desse declínio. Em 2004, Duda chegou a faturar R$ 63 milhões em contratos com a União. Neste ano, os repasses do governo federal para sua agência não ultrapassaram a casa dos R$ 90 mil. Desde a crise, a então poderosa agência Duda Propaganda sofreu outras baixas significativas. Em 2009, fechou um dos escritórios do Rio de Janeiro. Já a filial de São Paulo chegou a operar no vermelho.

Com o nome manchado pelo escândalo do mensalão, a indisponibilidade dos bens, determinada pela Justiça, prejudicou ainda mais os negócios. Desde 2006, cada passo gerencial da agência só ocorre com o aval do Supremo. No ano passado, para alterar o quadro societário da firma, Duda teve que solicitar a autorização do ministro relator do mensalão, Joaquim Barbosa. A distribuição dos lucros entre os sócios da agência também passou a ser analisada com lupa pela corte. Para sobreviver à nova realidade que se impôs a partir do escândalo, e conseguir lucrar na área de publicidade e marketing, Duda teve de alterar geograficamente seu foco de atuação. Notando que no Sudeste os candidatos evitavam seus serviços – por temer que os adversários levassem o mensalão para as campanhas –, Duda resolveu trabalhar somente para políticos da região Nordeste. No Maranhão e na Paraíba, comandou duas campanhas vitoriosas. A dos governadores Roseana Sarney (PMDB) e Ricardo Coutinho (PSB). Mas, em vez de exibirem o publicitário como grife na corrida eleitoral, como os candidatos faziam antes de o nome de Duda engrossar a lista de réus do mensalão, limitaram seu trabalho aos bastidores, evitando aparições públicas ao seu lado. Nas eleições deste ano, o profissional que era chamado de “publicitário fazedor de milagres” teve que investir no varejo das campanhas municipais, fazendo consultorias. Ele ajudou seu amigo Fábio Câmara (PMDB) a conquistar uma cadeira na Câmara de Vereadores de São Luís (MA). Ainda atua na campanha do candidato petista Elmano Freitas, que disputa o segundo turno da eleição à Prefeitura de Fortaleza. Mas ficou nisso.

A política das agressões

Vendo que a distância para o concorrente Fernando Haddad (PT) aumenta a cada nova pesquisa de intenção de voto, a uma semana do segundo turno da eleição à Prefeitura de São Paulo, o candidato do PSDB, José Serra, reedita a malfadada estratégia usada contra Dilma Rousseff na disputa presidencial de 2010. Diante das projeções nada alvissareiras para ele – o instituto Datafolha aponta uma vantagem de 17 pontos para Haddad –, Serra passou a enxergar na tática das agressões a única forma de evitar a derrota que parece se avizinhar. Destemperado e irascível no trato com jornalistas e até correligionários, o tucano acionou a metralhadora giratória nos últimos dias. Em atos públicos e, principalmente, nas inserções de rádio e televisão, Serra desferiu uma série de ataques ao oponente. Insistiu na tentativa de vincular Haddad aos réus do mensalão e explorou de maneira equivocada a confecção do chamado “kit gay” pelo petista durante sua gestão no Ministério da Educação.

“Isso não é combater homofobia, é uma espécie de doutrina. O problema do kit gay é acima de tudo pedagógico”, declarou o candidato do PSDB. O ataque se voltou contra ele próprio, quando o jornal “Folha de S.Paulo” revelou, durante a semana, que material semelhante destinado a tentar combater o preconceito a homossexuais havia sido distribuído em 2009, pelo governo de Serra, para escolas públicas paulistas. Questionado sobre a contradição, Serra tentou, em vão, diferenciar as duas iniciativas, perdeu a cabeça e mergulhou sua campanha numa agenda negativa na reta final da eleição.

Carta Capital

A real reforma do Estado

Após nove anos, completados no sábado 20, o Bolsa Família tornou-se um programa social aclamado no mundo. A quase totalidade dos preconceitos e mitos que alimentavam a oposição à sua existência foi desmentida pelos fatos. O programa não colocou sob o cabresto de Lula e do PT o voto dos eleitores mais pobres. Como é depositado direto em uma conta do cadastrado, ele eliminou a intermediação que sustentava os coronéis locais nos quatro cantos do País. Não fez vicejar uma geração de preguiçosos e vagabundos dispostos a trocar um emprego pelo benefício mensal que varia de 32 a 306 reais. Não transformou as mulheres em parideiras, prontas a colocar filhos no mundo em troca dos caraminguás ofertados pelo governo. A taxa de natalidade das beneficiárias está em queda, como acontece entre as demais mulheres. Muito menos desvinculou o benefício de metas escolares. Ao contrário. Os dados mostram que o controle tornou-se mais eficiente. A frequência das crianças beneficiadas pelo Bolsa é de 95,5%. A taxa de aprovação supera a da média dos alunos da rede pública (80% a 75%). A evasão escolar é 50% menor.

Integrante da equipe que montou o programa em 2003, a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, fala a seguir do êxito do Bolsa Família e vai além. Segundo ela, o cadastro único originado pela inclusão dos beneficiados, que permitiu a elaboração do mapa da pobreza, tem sido responsável por uma verdadeira reforma do Estado brasileiro. “A partir das inúmeras informações que o cadastro único gera, estamos reorganizando a oferta de serviços públicos no País. Teremos um Estado mais efetivo, mais eficiente no atendimento às demandas, principalmente da população mais necessitada.”

Da pobreza para a universidade

Da infância no interior de Alagoas, Cleiton Pereira da Silva, de 27 anos, ainda carrega recordações de uma vida difícil. Após a escola, as diversas viagens ao açude sob o sol escaldante do sertão eram rotina. Para encher o reservatório da casa de água, trazia consigo um carrinho de mão repleto de baldes. A seca tornava a realidade ainda mais dura, assim como alimentar as seis pessoas da família com apenas um salário mínimo e a plantação de milho e feijão em uma região árida.

As cenas gravadas na memória de Cleiton representam a vida de milhares de outros brasileiros pobres e famintos, principalmente, no nordeste do Brasil. A morte do pai quando ainda criança completou o cenário de adversidades e forçou a mãe a buscar o sustento da família em São Paulo. Mesmo assim, as dificuldades não diminuíram para ele, a irmã, a tia e os avós. A perspectiva de uma vida melhor surgiu apenas quando a família se tornou beneficiária do programa Bolsa Família, em 2003. À época recebiam 68 reais. “Para muitas famílias que não possuem nada, esse dinheiro é uma fortuna. Não dá para viver apenas disso, mas te ajuda a procurar outros rumos, como pagar a condução para procurar um trabalho”, conta o jovem, que há dois anos deixou voluntariamente de receber o auxílio quando sua renda aumentou.

Mulheres beneficiárias assumem maiores responsabilidades

Dados da segunda rodada de Avaliação de Impacto do Bolsa Família, realizada pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) com 11.433 famílias, beneficiárias ou não, em 2009, mostram que as mulheres auxiliadas ganharam espaço nas decisões importantes para a família, além de terem alcançado avanços na área da saúde.

Segundo o levantamento, as mulheres estão exercendo mais o seu poder de escolha sobre aspectos que podem levar ao maior bem estar dos filhos, como a compra de alimentos e despesas de saúde. Nas áreas de alimentos, roupas das crianças, frequência escolar, despesas médicas e compras de bens de consumo duráveis, elas avançaram mais: de 2005 a 2009 passou de 4% a 7% a porcentagem das mulheres que tomam sozinhas esse tipo de decisão. Além do aumento de 8 pontos nas participação sobre a compra de remédios para os filhos e 5,3 pontos sobre gastos com bens duráveis. “As mulheres ganharam um espaço muito maior nas decisões familiares porque a bolsa vai em nome delas, o que as tornou mais protagonistas. Em algumas regiões, por outro lado, a palavra final ainda é do pai, marido, sogro”, explica Walquiria Leão Rêgo, professora titular de Sociologia da Unicamp e pesquisadora dos efeitos do Bolsa Família nas mulheres beneficiadas pela ação.

Época

Último round. Ou o primeiro?

O último round da eleição municipal paulistana é, também, o primeiro round da eleição presidencial. No próximo domingo, dia 28, os 8 milhões de eleitores de São Paulo escolherão, entre o tucano José Serra e o petista Fernando Haddad, quem administrará a cidade nos próximos quatro anos. Não está em jogo apenas um cargo de prefeito. O partido que vencer as eleições paulistanas – PT ou PSDB – larga na frente na próxima eleição presidencial. Se José Serra for eleito, abrirá caminho para a reeleição de Geraldo Alckmin ao governo de São Paulo em 2014. Neste cenário, os dois marchariam ao lado do senador Aécio Neves numa forte chapa tucana, tendo como base os Estados de Minas Gerais e São Paulo, os mais populosos do país. Se Fernando Haddad vencer o pleito, ele emergirá como a mais promissora liderança da nova geração do Partido dos Trabalhadores e trará a maior cidade do país para a base de apoio da presidente Dilma Rousseff, provável candidata à reeleição. Será também uma vitória pessoal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mentor da candidatura de Haddad e de Dilma.

Ganhadores do maior número de prefeituras nas metrópoles e cidades médias do país, PT e PSDB não são os únicos vitoriosos na eleição deste ano. Como ÉPOCA apontou na semana passada, surgiram, no primeiro turno, lideranças fortes fora dos dois partidos. Em Pernambuco, o governador Eduardo Campos apoiou Geraldo Júlio, candidato que se opunha ao petista Humberto Costa, o preferido de Lula. Júlio levou a prefeitura do Recife e consolidou a figura de Campos como liderança nacional. Eduardo Paes foi o prefeito mais votado da história do Rio de Janeiro e, na semana passada, mostrou que, a partir de agora, quer ser peça importante no xadrez federal. Lançou o governador fluminense Sérgio Cabral a vice de Dilma em 2014, causando uma pequena crise na base de seu partido. Paes é do PMDB, Campos do PSB. É cedo para dizer se essas legendas apresentarão projetos capazes de empolgar o país em 2014, em vez de apoiar tucanos ou petistas como em eleições anteriores.

Sinopec desmente acordo com Refinaria de Manguinhos

No início da semana, o governador do Rio, Sergio Cabral, comprou uma briga pública com o empresário Ricardo Magro, dono da Refinaria de Manguinhos. Depois de ocupar as favelas de Manguinhos e Jacarezinho com uma nova Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), Cabral anunciou um plano para desapropriar e construir no terreno da refinaria um conjunto habitacional, vizinho às comunidades pacificadas. A investida de Cabral foi agressiva. Irritado com uma dívida de mais de R$ 600 milhões da refinaria com o Estado, Cabral disse que Manguinhos é uma "ex-refinaria" e já antecipou o custo para despoluir a área: algo em torno de R$ 150 milhões. O decreto de Cabral foi publicado dez dias depois de a refinaria – que tem ações em Bolsa – oltar um fato relevante em que anuncia um acordo de confidencialidade com a chinesa Sinopec para "avaliar o interesse de uma eventual associação com a refinaria num projeto de aproximadamente R$ 1,4 bilhão".

Embora não tenha valor jurídico, esse tipo de anúncio sempre anima o mercado. Diante da boa perspectiva, ações sobem e a empresa valoriza. Procurada por ÉPOCA, porém, a Sinopec Brasil desmentiu o acordo. “O acordo foi um engano”, respondeu duas vezes a funcionária, que trabalha com o presidente da empresa no Brasil. A refinaria informou que não comentaria, devido à cláusula de confidencialidade do tal acordo. Se o acordo for de fato um "engano" e não der em nada, não será a primeira vez que uma intenção de parceria de Manguinhos não se concretiza. Vigorou por um ano, para efeitos de conhecimento público, um protocolo assinado em junho de 2010 com a Petrobras para "estudo conjunto de oportunidades de negócio" entre as empresas. O período de estudos foi oficialmente encerrado em junho de 2011, ano em que Manguinhos liderou todas as altas da Bovespa.

Lincoln Secco: "A imagem do PT continuará a se desgastar"

O professor de história contemporânea da USP Lincoln Secco publicou no ano passado a primeira obra do Brasil a tentar reconstituir a trajetória do PT. Aborda o partido desde a sua criação, em 1980, até o final da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência (2003-2010). Apesar de seu passado como militante petista, Secco não se furtou a abordar de maneira crua em A história do PT(editora Ateliê Editorial) a crise que explodiu em 2005 com o mensalão. Por isso, recebeu críticas do Partido dos Trabalhadores. Neste momento, em que o julgamento do mensalão se encaminha para o final no Supremo Tribunal Federal, com a condenação de vários dirigentes do PT, Secco afirma que os veredictos devem alterar a visão da sociedade sobre o PT. Segundo ele, o julgamento no Supremo é o “julgamento político da gestão Lula”.


Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!