Nas revistas: os nervos expostos da ditadura

As mais de 2 mil páginas de documentos secretos do Centro de Informação da Marinha (Cenimar) obtidas por Época mostram que o Cenimar se tornou um gigantesco aparato de conspirações e perseguição aos adversários do governo

Época

Os nervos expostos da ditadura

Criador do Serviço Nacional de Informações (SNI), em 1964, o general Golbery do Couto e Silva, anos mais tarde, passou a chamar de “monstro” o aparelho de espionagem e repressão que montou. O SNI ficava no topo de uma complexa estrutura de órgãos encarregados de combater as organizações de esquerda que se opunham ao regime militar (1964-1985). As mais de 2 mil páginas de documentos secretos do Centro de Informação da Marinha (Cenimar) obtidas por ÉPOCA dão razão a Golbery. O conteúdo desses arquivos mostra que o Cenimar se tornou um gigantesco aparato de conspirações e perseguição aos adversários do governo.

Um relatório escrito no fim de 1971 diz que, àquela altura, o arquivo do Cenimar guardava cerca de 330.000 prontuários acondicionados em 160 gavetas de aço. As fichas pessoais eram organizadas sem muito critério, como se o serviço secreto quisesse dominar o mundo. O cadastro incluía inimigos notórios da ditadura, vivos ou mortos, líderes do golpe de 1964, como o ex-presidente Castello Branco, e até personalidades estrangeiras, como o ex-presidente dos Estados Unidos John Kennedy, assassinado em 1963. Muita coisa estava distante do tema “segurança interna”, objetivo declarado do Cenimar. Muitas vezes, nem os chefes escapavam da bisbilhotagem.

Em 26 de abril de 1971, o agente identificado como PT-73 relatou um caso de abuso de autoridade perpetrado pelo então ministro da Marinha, almirante Adalberto de Barros Nunes. Ministro do governo Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), Nunes era conhecido por ter sido amigo do sambista Almirante e de ter conhecido os compositores Noel Rosa e João de Barro. Segundo PT-73, no dia 13 de janeiro de 1971, Nunes usou o poder do cargo de ministro para internar a caseira de seu sítio em Itaipava, no Rio de Janeiro, Floripe Lopes, no Hospital Nossa Senhora da Glória, administrado pela Marinha. Após uma série de exames, diz o relato do agente, o médico Marcos Blanc mandou que fosse dada alta a Floripe. A assistente social Maria Elizabeth Teixeira telefonou à mulher do ministro, dona Maria, para comunicar o fato. O agente escreveu que dona Maria ficou “indignada com a maneira de falar da assistente social” e “com a alta de sua caseira”. Ao saber disso, o ministro Adalberto Nunes deu ordem para punir a assistente social, o médico e a enfermeira que atenderam Floripe. O médico foi condenado a oito dias de prisão. As punições dos militares não foram incluídas em seus registros de carreira. A ficha de internação de Floripe desapareceu do hospital. Tudo foi apagado para não deixar rastros. Mas o Cenimar soube.

A estrutura que fez de órgãos como o Cenimar tão poderosos começou a ser montada no fim da década de 1920. Mas a influência dos serviços de informação cresceu nos preparativos do golpe contra o governo do presidente João Goulart, derrubado pelos militares em 1964. A insubordinação da Marinha, fundamental na queda de Goulart, era alimentada desde 1962 dentro de seu serviço secreto. Numa investigação interna sobre o comportamento de um integrante do centro, um oficial do Cenimar fez um relatório que descrevia a conspiração. O texto afirma que o almirante Pedro Paulo de Araújo Suzano, ministro da Marinha de Goulart, tinha interesse em bloquear as atividades do Cenimar, definido pelo oficial como um “baluarte da ação anticomunista”, o que “contrariava os interesses do governo João Goulart”.

Suplente de senador diz que Agnelo Queiroz lhe ofereceu dinheiro para desistir de candidatura

Ao longo de 2011, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), gastou boa parte do tempo com explicações sobre ligações obscuras com ongueiros, lobistas e empresários. Agora, um ex-petista, Hélio José Lima, suplente do senador Rodrigo Rollemberg (PSB), conta mais uma história constrangedora para Agnelo. “Agnelo me ofereceu dinheiro para eu desistir da candidatura. Não vou detalhar valores. Mas foi uma quantia vultosa”, disse Lima em entrevista a ÉPOCA. “Ele queria indicar o empresário Fernando Marques. É rico e daria suporte financeiro à campanha. Eu era apenas um militante do partido.” Lima é servidor concursado do Ministério de Minas e Energia.

Ele diz que ouviu a proposta de Agnelo poucos dias antes do registro da candidatura. “Não aceitei chantagem, nem cargos, nem oferta financeira”, afirmou. “Trata-se de mais uma denúncia criminosa, inconsistente, vinda de mais uma fonte sem credibilidade”, afirmou Agnelo, em nota a ÉPOCA.

Fernando Marques é filiado ao PTB.Duas empresas dele, a União Química e a Biolab, doaram R$ 300 mil à campanha de Agnelo. No período em que foi diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Agnelo concedeu à União Química um certificado necessário para a empresa participar de licitações. Ex-funcionário da União Química, o lobista Daniel Tavares disse que pagou propina a Agnelo para que o governador favorecesse a empresa. Depois de mostrar um comprovante de depósito de R$ 5 mil para Agnelo,Tavares mudou a versão. Disse que o valor era relativo ao pagamento de um empréstimo e que fez a acusação pressionado pela oposição.

A história de Lima é mais uma no enredo de confusões em que o governador Agnelo mergulhou. Na semana passada, o deputado federal Fernando Francischini (PSDB-PR) pediu a prisão de Agnelo em razão de suspeitas de enriquecimento ilícito de membros de sua família, entre eles a mãe e irmãos. Agnelo afirma que essas acusações também são mentirosas.

Os novos centros da Fé

Jesus Cristo disse aos apóstolos, segundo o Evangelho de Mateus: “...E sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Inspirados nessa passagem da Bíblia, há 1.600 anos os cristãos erguem templos para louvar a Deus. No começo, eram simples e pequenos; no Renascimento, esculturas e pinturas de mestres como Michelangelo e Ticiano fizeram das igrejas palcos da grandiosidade do talento do homem; no século XX, os templos católicos perderam esses adereços litúrgicos e parte relevante de sua frequência. Agora, na primeira década do século XXI, as igrejas de todas as denominações cresceram. Ganharam capacidade de reunir, de uma única vez, dezenas de milhares de fiéis – a despeito de inovações como a televisão, o rádio e a internet, que tornaram os líderes das igrejas famosos e inventaram o exercício remoto e quase impessoal da fé. Ao custo de centenas de milhões de reais, os megatemplos se multiplicam nas grandes cidades brasileiras e atraem multidões antes vistas apenas em shows e jogos de futebol. Como exibição de fé, são verdadeiros monumentos a atestar o vigor do cristianismo brasileiro. Do ponto de vista social, testemunham o enorme desejo de participar que anima as multidões de fiéis. Se Deus está presente onde duas ou três pessoas se reúnem em nome Dele, como diz a Bíblia, os fiéis imaginam que sua presença será ainda mais intensa quando se reúnem 30 mil, 50 mil, 150 mil pessoas.

Megatemplos são construídos em todo o país e por várias religiões: a Igreja Católica inaugurará em 2012 o Santuário Mãe de Deus, para 100 mil pessoas, em São Paulo. Em Belo Horizonte, Minas Gerais, a Catedral Cristo Rei vai abrigar até 25 mil pessoas quando for consagrada, em três anos. Entre os evangélicos, várias denominações prometem inaugurar suas megaconstruções. Em Guarulhos, na Grande São Paulo, a Igreja Mundial do Reino de Deus planeja construir a Cidade de Deus, para 150 mil pessoas. No Recife, a Assembleia de Deus conclui o projeto de um templo para 30 mil pessoas. Em Belo Horizonte, a Igreja Batista de Lagoinha planeja acolher num mesmo teto 35 mil pessoas. “Os brasileiros têm necessidade de grandes basílicas e catedrais, de lugares grandes para congregar e orar”, diz o padre Marcelo Rossi, criador do Santuário Mãe de Deus.

Fernando Abrucio: Como o retrovisor pode ajudar a encarar os desafios de 2012

O ano de 2012 promete, no mínimo, ser agitado. No âmbito internacional, a lista de eventos importantes é enorme. O euro passará por seu grande teste, haverá eleições presidenciais completamente indefinidas nos Estados Unidos, a Primavera Árabe poderá ao mesmo tempo se expandir em alguns lugares e retroagir noutros, e mesmo os Brics não podem garantir que terão o crescimento econômico dos últimos anos. No plano interno, a temperatura será menor. Os acontecimentos mais marcantes serão as eleições municipais, a definição do marco regulatório do pré-sal e, sobretudo, a forma como o governo Dilma reagirá às dificuldades econômicas e políticas externas.

Cientistas sociais (incluindo os economistas) e analistas políticos em geral não são bons em profecia. O máximo que conseguimos, como certa vez dissera o historiador Fernand Braudel, é ser “profetas do passado”. Mas se pode usar o aprendizado adquirido ao longo dos anos para enfrentar melhor o futuro. É impossível saber, tim-tim por tim-tim, o que acontecerá em 2012, não obstante seja possível reduzir danos e erros, e até mesmo propor algumas trilhas – não muitas – mais propícias ao sucesso.

Os semeadores da Amazônia

O sol já estava baixo quando um helicóptero com o emblema oficial do governo despontou sobre a fazenda de José Adelar Jaenisch, de 50 anos, produtor de soja de Mato Grosso. Com metralhadoras em riste, os ocupantes da aeronave apontavam em direção a uma máquina agrícola que, em terra, preparava o solo para o plantio da próxima safra. Seis viaturas reforçavam a fiscalização nas estradas vizinhas. Assustado, o motorista que pilotava o trator abandonou o veículo no mato e fugiu. Jaenisch foi se esconder na cidade. Só retornou depois que os agentes de crimes ambientais deixaram a região. “Fiquei pelo menos uma semana sem trabalhar”, afirma ele. “Foi uma época de muita insegurança. Você nunca sabia o que ia te acontecer no dia seguinte.”

O episódio ocorreu no município de Querência, em Mato Grosso, um dos 20 maiores produtores de soja do Brasil. Mas poderia ter sido em qualquer localidade do Pará, de Rondônia ou do Acre. Desde que o Ministério do Meio Ambiente criou, em fevereiro de 2008, a lista negra do desmatamento, a tensão no campo aumentou – e se alastrou. O ministério mirou nos 36 municípios campeões de desmatamento. Fazendeiros e madeireiros ilegais foram presos. Centenas de serrarias fecharam. Os bancos deixaram de liberar financiamento aos produtores. Na prática, é como se todas essas cidades estivessem com o nome sujo na praça.

IstoÉ

Lula prepara volta à cena

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou avisar que estará de volta aos palanques no ano que vem. Com a redução do tumor na laringe em 75% e o sucesso da primeira etapa do tratamento, o ex-presidente já faz planos de retomar o papel de comandante das eleições municipais de 2012. No PT, avalia-se que Lula voltará ainda com mais força para dar a palavra final nos rumos eleitorais e abortar as iniciativas de partidos aliados de lançar candidaturas próprias contra o PT. “Lula vai somar seu carisma a mais esse exemplo de superação”, diz o secretário de Comunicação do PT, deputado André Vargas (PT-PR).

Do ponto de vista médico, dar aos brasileiros a notícia de que o tumor de Lula regrediu consideravelmente foi um alívio para a equipe que cuida do ex-presidente. Se o tumor de Lula não respondesse bem à quimio, muito provavelmente ele não seria sensível à etapa seguinte do combate, a radioterapia, fase do tratamento que será um pouco mais penosa para o ex-presidente.

Foi ele

Em outubro de 2010, uma onda de agressões à então candidata do PT, Dilma Rousseff, chegava às caixas de entrada dos e-mails de milhares de brasileiros. Aquelas mensagens, como ISTOÉ mostrou na reportagem “Os santinhos de uma guerra suja”, revelavam um lado espúrio da política: o uso de calúnias para atingir um candidato e promover o medo em parte do eleitorado. Tudo feito anonimamente. Sob títulos como “Dilma defende o aborto” e “A terrorista petista”, os textos distorciam a visão da presidenta sobre fatos caros a segmentos representativos da sociedade. No ritmo frenético da internet, as acusações reverberaram em sites, blogs, redes sociais e ensejaram até sermões religiosos. Agora, o criador da estratégia vem à tona. Na biografia autorizada da presidenta Dilma Rousseff, “A Vida Quer é Coragem”, o jornalista Ricardo Amaral, que assessorou Dilma na Casa Civil e na eleição, afirma que por trás dos e-mails estava o especialista em marketing político digital Ravi Singh, que já trabalhou em mais de 600 disputas eleitorais pelo mundo.

A capacidade de Ravi de construir reputações, pela internet, lhe rendeu o apelido de “guru de campanhas” em publicações americanas. Com esse currículo exemplar, ele desembarcou com turbante e tudo para prestar consultoria ao candidato José Serra, em agosto de 2010. Sua estada no país durou, no entanto, cerca de um mês. Integrantes do staff tucano reclamaram, entre outras razões, de ele ter burocratizado o site da campanha, fazendo os visitantes preencherem extensos formulários. Graças a essa prática, segundo o livro – lançado na quinta-feira 15, Ravi montou um “gigantesco banco de e-mails”, usado pela campanha de Serra para disparar mensagens apócrifas contra Dilma. Pelo tamanho da repercussão na época, o guru mantinha muitos seguidores.

Manuais de guerra

Na ocupação da Rocinha no início de novembro, a polícia encontrou em poder dos traficantes um lança-rojão AT-4, modelo de bazuca de uso restrito das Forças Armadas. Não foi a primeira vez que uma arma de guerra caiu nas mãos do crime organizado. Surpresa é descobrir que os criminosos podem aprender a manusear um equipamento destes com ajuda do próprio Exército. Estão disponíveis no site oficial das Forças Armadas, especificamente na página do Departamento de Ensino, manuais de operação do AT-4, do fuzil FAL 7.62 e outras armas portáteis. Também há instruções para uso de minas terrestres e montagem de armadilhas com granadas. Não se trata de manuais de fabricantes, mas documentos produzidos e avalizados pelo Estado Maior do Exército. Essa informação estratégica, que deveria estar guardada a sete chaves, pode ser acessada por cidadãos comuns a partir de alguns cliques no mouse. “Isso é um risco à segurança nacional”, avalia o coronel reformado Milton Corrêa da Costa, da Polícia Militar do Rio. “Já basta a legião de conscritos que são devolvidos às ruas com um mínimo de habilidade com equipamentos bélicos. Agora os narcoterroristas podem beber direto da fonte. É um absurdo”, critica.

Os manuais do Exército podem ser acessados de duas maneiras. Em sites de busca, basta colocar uma palavra-chave para acessar o link diretamente. Outra opção é entrar no site do Departamento de Ensino e preencher um cadastro, que não precisa ter informações verdadeiras. E engana-se quem pensa que se trata de informação técnica de difícil leitura. São manuais de campanha, que ensinam, por exemplo, técnicas de tiro noturno, tiros em alvos móveis, em operações ofensivas e defensivas, tanto em área urbana como na selva. No manual da bazuca, há todos os dados e recomendações de manuseio, além de desenhos e esquemas ensinando como disparar e em que circunstâncias é necessário ajustar a alça de mira. O manual de minas e armadilhas traz instruções sobre uso em todo tipo de operação, inclusive ofensivas, e dá dicas de lançadores e o preparo de campos de guerra.

STF rejeita pizza no mensalão

O ministro Joaquim Barbosa, relator do rumoroso processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal, passou a última semana nos Estados Unidos para tratar de assuntos pessoais. Mas, na quarta-feira 14, ficou irritadíssimo ao tomar conhecimento de declarações feitas pelo ministro Ricardo Lewandowski, que atua como revisor do processo. Lewandowski afirmou, em entrevista à “Folha de S.Paulo”, que os crimes dos 38 réus devem prescrever antes da conclusão do julgamento. Diante da previsão pessimista de seu colega, que preside o TSE, Barbosa reagiu e avisou aos amigos: “Não pretendo passar à história como coveiro do mensalão.” Ele se prepara para ler seu voto logo após o início do ano do Judiciário, em fevereiro. Lewandowski, porém, afirma que não terá tempo hábil para pronunciar o voto de revisor. O que é estranho. O revisor tem acesso irrestrito às peças do processo, de 130 volumes, e sua tarefa será apenas a de emitir um parecer sobre o voto do relator. Logo, se Joaquim Barbosa cumprir o prazo que se impôs, nada justificaria a prescrição dos crimes.

Lewandowski foi duramente criticado por outros ministros do STF, que interpretaram sua posição como uma tentativa de tirar das costas a pressão pela celeridade no parecer de revisão. Eles explicam que a maioria do Supremo pretende considerar a prescrição dos crimes apenas a partir do recebimento da denúncia, em 2007. Isso faria com que o prazo para extinção do primeiro dos delitos, o de formação de quadrilha, aconteça somente em 2013. Próximo ministro a presidir o STF a partir de abril de 2012, o ministro Carlos Ayres Britto diz que o julgamento do mensalão será prioritário. “Em tese, só correm o risco de prescrever crimes com penas menores. Crimes de penas altas não prescreverão”, diz. A visão de Britto é seguida pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel. “Se o julgamento acontecer no primeiro semestre do ano que vem, dificilmente teremos prescrição, mesmo dos crimes com penas menores”, diz. O ministro Marco Aurélio Mello admite que será preciso correr contra o tempo para julgar o caso, mas pondera: “Se trabalharmos de forma célere, será possível contornar o risco de prescrições.”

Procurador investiga Agnelo

Alvo de uma série de denúncias de corrupção pelas quais já é investigado no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, terá agora que responder também às suspeitas de enriquecimento ilícito que recaem sobre sua família. Na quarta-feira 14, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, decidiu investigar a evolução patrimonial do clã Queiroz e a conexão de Agnelo com esses negócios. “Vamos pedir informações à Polícia Federal”, disse Gurgel. Caberá ao procurador decidir se o caso será apurado no mesmo inquérito aberto no STJ ou se haverá um novo processo. O pedido de investigação do procurador-geral da República foi motivado por denúncia de ISTOÉ. Na última edição, a reportagem da revista revelou que em três anos a mãe, três irmãos e um cunhado do governador adquiriram bens avaliados em R$ 10 milhões – incluindo fazendas, empresas e franquias de restaurantes. Todas as transações foram negociadas pelo empresário Glauco Alves e Santos e sua mulher, Juliana Roriz Suaiden Santos. O casal também vendeu a mansão em que Agnelo mora no Lago Sul, em Brasília. Agora veio a público também a informação de que uma empresa de Glauco e Juliana foi beneficiada por Agnelo quando este era diretor da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), entre 2007 e 2010. Por meio de uma consultoria e com a ajuda de Agnelo, o empresário ainda negociava facilidades para farmacêuticas multinacionais na obtenção de certificado de boas práticas de fabricação – item fundamental para o registro de operação e licença de produtos.

O trem da alegria do Itamaraty

Cauteloso e tradicionalmente avesso à exposição, o Ministério de Relações Exteriores deixou a moderação de lado para engordar, e muito, seus quadros. Graças a um projeto de lei articulado no apagar das luzes do governo Lula, o número de funcionários do Itamaraty deve aumentar em 65%. Serão contratados 400 novos diplomatas, para reforçar o trabalho dos 1.397 existentes, e outros 1.065 oficiais de chancelaria vão se somar aos 849 atuais. E as novas contratações não ocorrerão para substituir servidores aposentados. A ideia é criar novas missões diplomáticas no Exterior e preenchê-las com funcionários pagos pelo Erário brasileiro. O projeto de lei já foi aprovado pela Câmara e acaba de ser encaminhado ao Senado, onde seguirá seu trâmite sem maiores tropeços. “O provimento dos cargos ocorrerá de forma gradual, mediante autorização do Ministério do Planejamento. O Brasil necessita de um corpo diplomático à altura dos interesses brasileiros no mundo”, diz o deputado Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), relator do projeto na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que ratificou o texto em caráter terminativo.

O projeto nasceu pelas mãos dos ex- ministros das Relações Exteriores, Celso Amorim, e do Planejamento Paulo Bernardo. O ex-chanceler Amorim nunca escondeu que queria deixar como seu legado à frente da política externa brasileira a expansão das relações diplomáticas pela cooperação Sul-Sul e novas missões no continente africano para substituir o máximo possível a influência dos Estados Unidos. Na exposição de motivos para turbinar o Itamaraty, Amorim alega: “Acentuou-se nos últimos anos a participação do Brasil nos principais temas da agenda internacional. E o MRE tem se empenhado na articulação de alianças estratégicas com os grandes Estados de periferia.” Essas metas, segundo ele, acabaram exigindo a abertura de 64 novas embaixadas entre 2003 e 2010, totalizando 223 representações brasileiras no Exterior. O atual chanceler Antônio Patriota não pretende romper com os passos traçados pelo antecessor, embora a política externa atual seja mais pragmática e menos ideológica.

O lobista de gabinete

O empresário Gil Pierre Benedito Herck é uma figura influente no Denatran, órgão vinculado ao Ministério das Cidades. Nada acontece ali sem seu aval. Ele chegou a este departamento pelas mãos do diretor Júlio Arcoverde e sob as bênçãos do ministro das Cidades, Mário Negromonte. Mesmo sem estar nomeado formalmente, Herck ganhou crachá, secretária, mesa, telefone e passou a despachar diretamente do quinto andar, ao lado do gabinete de Arcoverde. Mas ele está longe de ser um servidor padrão. Empresário, Herck é ex-presidente da Associação Nacional das Empresas de Perícias e Inspeção Veicular (Anpevi) e, nos últimos três meses, ultrapassou sem-cerimônias a fronteira entre o público e o privado. Ele claramente trabalhou dentro do Ministério das Cidades em benefício da entidade que dirigia e de seus integrantes – alguns , ex-sócios do próprio Herck em empresas de vistoria automotiva. Apresentando-se como assessor especial do Denatran, o lobista da Anpevi reuniu-se com parlamentares para discutir leis de seu interesse, adiou auditorias e agilizou autorizações de credenciamentos, tomando sempre o cuidado de não deixar sua assinatura ou rubrica na papelada oficial. Todos os despachos de Herck eram feitos por meio de recados escritos em “post-it” colados no documento.

Apesar da cautela, o empresário deixou rastros. ISTOÉ acompanha a movimentação oficialesca de Gil Pierre Herck desde outubro. No dia 4, por exemplo, ele participou de reunião do Contran no Hotel Ibis da Barra Funda, em São Paulo. Em 9 de novembro, sempre na condição de assessor especial do Ministério das Cidades, Herck discutiu com o deputado federal Paulo Foletto (PSB/ES) o projeto de lei que tenta extinguir a resolução 282/2008, responsável por abrir a vistoria de licenciamento a empresas privadas. No fim do mês, cumpriu outra agenda oficial, com representantes da Associação do Transporte Rodoviário (ATR). Eles discutiram “projeto de alteração no aumento da tolerância no peso entre-eixos”. Nesse meio-tempo, o lobista ainda tentou adiar a publicação da portaria que determinou novas auditorias em empresas de vistoria veicular.

Duas semanas atrás, ISTOÉ telefonou para Herck pedindo uma entrevista. Ele explicou que ainda não havia sido nomeado e, por isso, não poderia se manifestar. Na terça-feira 13, ISTOÉ flagrou Herck em mais uma atividade oficial, participando de mesas temáticas numa reunião do Contran. Ao ser fotografado, Herck, que vivia nas confortáveis sombras ministeriais, se deu conta de que estava prestes e se tornar uma figura conhecida do público. Então apressou-se para abdicar da condição de funcionário fantasma. Afoito, tratou de telefonar para o senador Ciro Nogueira (PP-PI), seu padrinho político, na tentativa de pressionar o ministro Mário Negromonte a nomeá-lo. Contou que seria objeto da reportagem de ISTOÉ e conseguiu mudar de status. A toque de caixa, na quinta-feira 15, sua nomeação saiu no “Diário Oficial”. “Eu disse que se não me nomeassem eu ia pedir demissão”, confirmou Herck em entrevista à ISTOÉ.

Carta Capital

Só mesmo no Brazil-zil-zil

Pergunto aos meus intrigados botões por que a mídia nativa praticamente ignorou as denúncias do livro de Amaury Ribeiro Jr., A Privataria Tucana, divulgadas na reportagem de capa da edição passada de -CartaCapital em primeira mão. Pergunto também se o mesmo se daria em países democráticos e civilizados em circunstâncias análogas. Como se fosse possível, digamos, que episódios da recente história dos Estados Unidos, como os casos Watergate ou Pentagon Papers, uma vez trazidos à tona por um órgão de imprensa, não fossem repercutidos pelos demais. Lacônicos os botões respondem: aqui, no Brazil-zil-zil, a aposta se dá na ignorância, na parvoíce, na credulidade da plateia.

Ou, por outra: a mídia nativa empenha-se até o ridículo pela felicidade da minoria, e com isso não hesita em lançar uma sombra de primarismo troglodita, de primeva indigência mental, sobre a nação em peso. Não sei até que ponto os barões midiáticos e seus sabujos percebem as mudanças pelas quais o País passa, ou se fingem não perceber, na esperança até ontem certeza de que nada acontece se não for noticiado por seus jornalões, revistonas, canais de tevê, ondas radiofônicas.

Mudanças, contudo, se dão, e estão longe de serem superficiais. Para ficar neste específico episódio gerado pelo Escândalo Serra, o novo rumo, e nem tão novo, se exprime nas reações dos blogueiros mais respeitáveis e de milhões de navegantes da internet, na venda extraordinária de um livro que já é best seller e na demanda de milhares de leitores a pressionarem as livrarias onde a obra esgotou. A editora cuida febrilmente da reimpressão. Este é um fato, e se houver um Vale de Josaphat para o jornalismo (?) brasileiro barões e sabujos terão de explicar também por que não o registraram, até para contestá-lo.

De bico calado

É praticamente impossível, dadas as quantidades envolvidas, listar todas as ações da mídia brasileira voltadas para escamotear, manipular ou simplesmente mentir diante de uma realidade sobre a qual perdeu o controle quando, em 2002, o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva se elegeu presidente da República. Arregimentada às pressas para assumir o papel de oposição no lugar de um combalido Exército de Brancaleone perfilado em torno do PSDB, a imprensa nativa passou a se dedicar à diuturna tarefa de tentar esconder do mundo, e principalmente dela mesma, as mudanças sociais resultantes da inflexão política decorrente da eleição de Lula e da chegada do PT ao poder.

Primeiro, tentou neutralizar o potencial das políticas de distribuição de renda e voltou todas as suas baterias contra o Bolsa Família, programa social que tirou 20 milhões de brasileiros da linha da miséria. O Brasil dos rincões e das periferias, mesmo longe do noticiário, tornou-se um poder fundamental para a reeleição de Lula em 2006, apesar do escândalo do chamado “mensalão”, samba de uma nota só entoado pela mídia para tentar apear o presidente petista do Palácio do Planalto e entronizar o tucano Geraldo Alckmin. Na campanha eleitoral de 2010, foi a vez de a Folha de S.Paulo emplacar, na primeira página, uma ficha policial falsa da então candidata Dilma Rousseff. A intenção era fixar no imaginário do eleitorado a figura da guerrilha fria e cruel, assassina a soldo do comunismo ateu.

Alheios à irrelevância desse tipo de estratégia ante o poder da internet, os conglomerados de comunicação sob o comando de meia dúzia de famílias entregaram-se, assim, a uma guerra sem trégua contra o bom senso e a razão até chegar, na semana passada, ao paroxismo de um surto psicótico de fundo golpista. Por conta disso, desde a sexta-feira 9, jornalistas das maiores e mais conhecidas redações brasileiras passaram a se dedicar à tarefa inglória de brigar com fatos. Sem aviso prévio nem estratégias de salvaguarda, os principais grupos privados de mídia do País foram atropelados pelo best seller A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., uma espécie de guia geral de tramoias e banditismo de Estado a envolver o ex-governador de São Paulo José Serra, além de amigos, sócios e parentes do tucano por ocasião do processo de privatização de estatais, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, entre 1998 e 2002.

Carta Capital

Só mesmo no Brazil-zil-zil

Pergunto aos meus intrigados botões por que a mídia nativa praticamente ignorou as denúncias do livro de Amaury Ribeiro Jr., A Privataria Tucana, divulgadas na reportagem de capa da edição passada de -CartaCapital em primeira mão. Pergunto também se o mesmo se daria em países democráticos e civilizados em circunstâncias análogas. Como se fosse possível, digamos, que episódios da recente história dos Estados Unidos, como os casos Watergate ou Pentagon Papers, uma vez trazidos à tona por um órgão de imprensa, não fossem repercutidos pelos demais. Lacônicos os botões respondem: aqui, no Brazil-zil-zil, a aposta se dá na ignorância, na parvoíce, na credulidade da plateia.
Ou, por outra: a mídia nativa empenha-se até o ridículo pela felicidade da minoria, e com isso não hesita em lançar uma sombra de primarismo troglodita, de primeva indigência mental, sobre a nação em peso. Não sei até que ponto os barões midiáticos e seus sabujos percebem as mudanças pelas quais o País passa, ou se fingem não perceber, na esperança até ontem certeza de que nada acontece se não for noticiado por seus jornalões, revistonas, canais de tevê, ondas radiofônicas.

Mudanças, contudo, se dão, e estão longe de serem superficiais. Para ficar neste específico episódio gerado pelo Escândalo Serra, o novo rumo, e nem tão novo, se exprime nas reações dos blogueiros mais respeitáveis e de milhões de navegantes da internet, na venda extraordinária de um livro que já é best seller e na demanda de milhares de leitores a pressionarem as livrarias onde a obra esgotou. A editora cuida febrilmente da reimpressão. Este é um fato, e se houver um Vale de Josaphat para o jornalismo (?) brasileiro barões e sabujos terão de explicar também por que não o registraram, até para contestá-lo.

De bico calado

É praticamente impossível, dadas as quantidades envolvidas, listar todas as ações da mídia brasileira voltadas para escamotear, manipular ou simplesmente mentir diante de uma realidade sobre a qual perdeu o controle quando, em 2002, o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva se elegeu presidente da República. Arregimentada às pressas para assumir o papel de oposição no lugar de um combalido Exército de Brancaleone perfilado em torno do PSDB, a imprensa nativa passou a se dedicar à diuturna tarefa de tentar esconder do mundo, e principalmente dela mesma, as mudanças sociais resultantes da inflexão política decorrente da eleição de Lula e da chegada do PT ao poder.

Primeiro, tentou neutralizar o potencial das políticas de distribuição de renda e voltou todas as suas baterias contra o Bolsa Família, programa social que tirou 20 milhões de brasileiros da linha da miséria. O Brasil dos rincões e das periferias, mesmo longe do noticiário, tornou-se um poder fundamental para a reeleição de Lula em 2006, apesar do escândalo do chamado “mensalão”, samba de uma nota só entoado pela mídia para tentar apear o presidente petista do Palácio do Planalto e entronizar o tucano Geraldo Alckmin. Na campanha eleitoral de 2010, foi a vez de a Folha de S.Paulo emplacar, na primeira página, uma ficha policial falsa da então candidata Dilma Rousseff. A intenção era fixar no imaginário do eleitorado a figura da guerrilha fria e cruel, assassina a soldo do comunismo ateu.

Alheios à irrelevância desse tipo de estratégia ante o poder da internet, os conglomerados de comunicação sob o comando de meia dúzia de famílias entregaram-se, assim, a uma guerra sem trégua contra o bom senso e a razão até chegar, na semana passada, ao paroxismo de um surto psicótico de fundo golpista. Por conta disso, desde a sexta-feira 9, jornalistas das maiores e mais conhecidas redações brasileiras passaram a se dedicar à tarefa inglória de brigar com fatos. Sem aviso prévio nem estratégias de salvaguarda, os principais grupos privados de mídia do País foram atropelados pelo best seller A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., uma espécie de guia geral de tramoias e banditismo de Estado a envolver o ex-governador de São Paulo José Serra, além de amigos, sócios e parentes do tucano por ocasião do processo de privatização de estatais, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, entre 1998 e 2002.

 

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