Nas revistas: o xerife do Senado

Istoé conta como Pedro Ricardo passou de um técnico legislativo a diretor da Polícia Legislativa do Senado. Revistas destacam morte do ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez

Istoé

O xerife do Senado

Homem de confiança do senador José Sarney (PMDB-AP), protegido por sua mulher, dona Marly, Pedro Ricardo era apenas um técnico legislativo com formação em contabilidade. Até que, em 2005, foi promovido ao posto de diretor da Polícia Legislativa da Casa e transformou o broche funcional que carrega na lapela em uma estrela de xerife. Com a função comissionada e acesso irrestrito ao gabinete de Sarney, Pedro Ricardo ganhou superpoderes. Baixou oito atos e portarias ampliando cada vez mais a atuação de seu departamento e equipou seus homens com os mais modernos dispositivos da contraespionagem.

Prática recorrente e conhecida dos funcionários da polícia, ele produz relatos semanais para a presidência do Senado sobre, por exemplo, quem entra e sai dos gabinetes, conduta aceitável em organismos de outra natureza, como o Gabinete de Segurança Institucional, ligado à Presidência da República. Recém-eleito presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) esteve tentado a valer-se dos préstimos do xerifão. Os dois já haviam trabalhado juntos até 2007. Mas, hoje, Renan está mais inclinado a substituí-lo. O parlamentar alagoano, na verdade, teme o poder paralelo criado por Pedro Ricardo no Senado nos últimos anos.

Maldição nos direitos humanos

A Declaração Universal dos Diretos Humanos foi criada em 1948 durante a Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas como o ideal comum de respeito, liberdade e dignidade a que todas as pessoas têm direito – independentemente de cor, sexo, religião ou qualquer outra condição. O documento, no entanto, não impediu que a intolerância e o preconceito continuassem a grassar no mundo. Os exemplos de incompreensão e intransigência a diferentes opiniões e comportamentos são fartos, mas deveriam passar bem longe de uma comissão destinada a deliberar sobre os direitos e liberdades básicas. Na última semana, o parlamento brasileiro resolveu agredir este princípio.

Diante de uma confusão tremenda, elegeu na quinta-feira 7 o pastor-deputado Marco Feliciano (PSC-SP) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Com 40 anos, o pastor da Igreja Assembleia de Deus é conhecido por suas posições preconceituosas em relação a negros e homossexuais, entre outros temas. Ele é defensor, por exemplo, de um projeto de lei que pretende obrigar o Conselho Federal de Psicologia a aceitar como científica o que chama de terapias de reversão da homossexualidade. O parlamentar também cunhou frases como: “Vivemos uma ditadura gay” e “A Aids é o câncer gay”. Para Feliciano, “os africanos são descendentes de um ancestral amaldiçoado por Noé” e essa maldição é que explicaria o “paganismo, o ocultismo, misérias e doenças como ebola” na África.

Qual é o trabalho do ministro?

Na quarta-feira 6, a presidenta Dilma Rousseff recebeu no Palácio do Planalto os líderes das seis principais centrais sindicais do País, após uma marcha que reuniu cerca de 40 mil trabalhadores em Brasília. Mais do que a tentativa de reconciliação entre o governo federal e as entidades, o encontro escancarou a todos os participantes o que no governo e no PDT já se comentava intramuros: o completo isolamento do ministro do Trabalho e Emprego, Brizola Neto. Durante a conversa que se estendeu por uma hora e 40 minutos, o ministro nem sequer pediu a palavra. Entrou na reunião mudo e saiu calado. Coube ao secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, mediar o diálogo de Dilma com os sindicalistas. “Foi constrangedor. Ele parecia alheio à discussão das pautas de reivindicações”, contou à ISTOÉ o dirigente de uma das centrais. Esse comportamento apático adotado pelo ministro, nos últimos meses, tem sido alvo de críticas do governo. O Planalto debita na conta de Brizola Neto, por exemplo, a ida da Força Sindical, a segunda maior central do País, para os braços da oposição.

Além da falta de interlocução com lideranças sindicais e com setores do próprio partido, o PDT, problemas na gestão do ministério, como a incapacidade de pôr fim à indústria dos sindicatos – denunciada por ISTOÉ – foram o que levaram Brizola Neto ao descrédito junto a Dilma. Nos bastidores do governo, há quem aposte que Brizola Neto não atravesse a semana no posto de ministro do Trabalho. Tende a ser apeado do cargo nos próximos dias, dando início à reforma ministerial imaginada por Dilma com o objetivo de recompor sua base de apoio de olho nas eleições presidenciais de 2014.

Joaquim, o supremo

No final do ano passado, quando as atividades do Judiciário brasileiro se encerraram, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, brilhava como um ídolo nacional. Ele tinha assumido o cargo dois meses antes e, graças à firmeza com que conduziu o processo do mensalão, passou a ser encarado como um combatente contra a corrupção e os desmandos da política. Voz forte e decisiva para mudar uma história de impunidades. Também não faltaram especulações sobre eventuais apetites eleitorais do ministro, até para a Presidência da República.

Agora, sob constantes e previsíveis holofotes na volta das férias forenses, Joaquim Barbosa tem provocado rebuliços. Num curto espaço de tempo, ele fez declarações e tomou atitudes nada corriqueiras para a tradicional fleuma do judiciário. Disse que os magistrados brasileiros são tíbios e conservadores, foi ovacionado por plateias em eventos culturais, apareceu em colunas sociais com sua nova namorada, previu prazos para colocar mensaleiros na cadeia (com o que desagradou os colegas do STF) e ofendeu jornalistas que tentavam entrevistá-lo. Supremo mesmo, quem pareceu não foi a Corte, mas o ministro.

Época

À sombra de um corpo embalsamado

Uma anedota narrada pelo escritor anglo-americano Christopher Hitchens ajuda a explicar o fenômeno Hugo Chávez. Em 2008, ao lado de um amigo, o ator Sean Penn, Hitchens foi a Caracas visitar o presidente da Venezuela. Durante uma conversa sobre os Estados Unidos, Chávez pôs em dúvida a existência do terrorista Osama bin Laden. Sean Penn objetou: “Mas, presidente, vários vídeos mostram Bin Laden, feitos pelo próprio Bin Laden”. Ao que Chávez respondeu: “Mas você acredita nesses vídeos? Eles são exibidos pela mídia americana. É tudo propaganda”. E emendou: “São como as imagens que mostram o homem na Lua. Lá, você vê a bandeira americana tremulando. Mas existe vento na Lua?”. Todos riram, em dúvida sobre se Chávez falava a sério ou não. Hitchens – colunista de ÉPOCA até sua morte, no fim de 2011 – escreveu na revista americana Vanity Fair, também com uma pitada de ironia, que, em momentos como esse, duvidava da saúde mental de Chávez.

O episódio resume dois dos aspectos essenciais da personalidade do presidente venezuelano. Um deles é o charme, capaz de seduzir artistas e intelectuais de esquerda no mundo inteiro, o ator Sean Penn entre eles. Chávez era um frasista de efeito (leia abaixo), contava histórias engraçadas e sabia adaptar seu registro às diferentes plateias que cortejava. O outro aspecto é a estratégia traçada por Chávez para realizar seu grande objetivo na vida: entrar para a história e erigir-se em mito . Eleito presidente da Venezuela no limiar do século XXI, ele detectou que havia lugar no mundo – especialmente na América Latina – para quem se apresentasse como inimigo número 1 dos Estados Unidos. Durante décadas, Fidel Castro ocupara esse papel. Mas Fidel estava velho, e seu regime em crise, desde que perdera o subsídio da União Soviética. A esquerda latino-americana clamava por um Fidel mais jovem. Chávez – que, como Fidel, já usava uniforme militar – pôs a boina vermelha e, com um discurso sedutor, postou-se diante das câmeras e dos microfones.

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