Nas revistas: o esquema que saiu dos trilhos

Revistas destacam o esquema criado em São Paulo para desviar milhões das obras do Metrô e dos trens metropolitanos. As ações foram delatadas pela multinacional alemã Siemens nesta semana. Segundo Istoé, governos tucanos sabiam dos desvios e nada fizeram. Carta Capital informa que esquema já era alvo de denúncias há 5 anos. Revistas também destacam visita do Papa Francisco ao Brasil

Istoé

O esquema que saiu dos trilhos

Um propinoduto criado para desviar milhões das obras do Metrô e dos trens metropolitanos foi montado durante os governos do PSDB em São Paulo. Lobistas e autoridades ligadas aos tucanos operavam por meio de empresas de fachada. Os governos tucanos de Mario Covas, Geraldo Alckmin e José Serra nada fizeram para conter o esquema de corrupção.

Ao assinar um acordo com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a multinacional alemã Siemens lançou luz sobre um milionário propinoduto mantido há quase 20 anos por sucessivos governos do PSDB em São Paulo para desviar dinheiro das obras do Metrô e dos trens metropolitanos. Em troca de imunidade civil e criminal para si e seus executivos, a empresa revelou como ela e outras companhias se articularam na formação de cartéis para avançar sobre licitações públicas na área de transporte sobre trilhos. Para vencerem concorrências, com preços superfaturados, para manutenção, aquisição de trens, construção de linhas férreas e metrôs durante os governos tucanos em São Paulo – confessaram os executivos da multinacional alemã –, os empresários manipularam licitações e corromperam políticos e autoridades ligadas ao PSDB e servidores públicos de alto escalão. O problema é que a prática criminosa, que trafegou sem restrições pelas administrações de Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, já era alvo de investigações, no Brasil e no Exterior, desde 2008 e nenhuma providência foi tomada por nenhum governo tucano para que ela parasse. Pelo contrário. Desde que foram feitas as primeras investigações, tanto na Europa quanto no Brasil, as empresas envolvidas continuaram a vencer licitações e a assinar contratos com o governo do PSDB em São Paulo. O Ministério Público da Suíça identificou pagamentos a personagens relacionados ao PSDB realizados pela francesa Alstom – que compete com a Siemens na área de maquinários de transporte e energia – em contrapartida a contratos obtidos. Somente o MP de São Paulo abriu 15 inquéritos sobre o tema. Agora, diante deste novo fato, é possível detalhar como age esta rede criminosa com conexões em paraísos fiscais e que teria drenado, pelo menos, US$ 50 milhões do erário paulista para abastecer o propinoduto tucano, segundo as investigações concluídas na Europa.

As provas oferecidas pela Siemens e por seus executivos ao Cade são contundentes. Entre elas, consta um depoimento bombástico prestado no Brasil em junho de 2008 por um funcionário da Siemens da Alemanha. ISTOÉ teve acesso às sete páginas da denúncia. Nelas, o ex-funcionário, que prestou depoimento voluntário ao Ministério Público, revela como funciona o esquema de desvio de dinheiro dos cofres públicos e fornece os nomes de autoridades e empresários que participavam da tramoia. Segundo o ex-funcionário cujo nome é mantido em sigilo, após ganhar uma licitação, a Siemens subcontratava uma empresa para simular os serviços e, por meio dela, realizar o pagamento de propina. Foi o que aconteceu em junho de 2002, durante o governo de Geraldo Alckmin, quando a empresa alemã venceu o certame para manutenção preventiva de trens da série 3000 da CPTM (Companhia Paulista de Transportes Metropolitanos). À época, a Siemens subcontratou a MGE Transportes. De acordo com uma planilha de pagamentos da Siemens obtida por ISTOÉ, a empresa alemã pagou à MGE R$ 2,8 milhões até junho de 2006. Desse total, pelo menos R$ 2,1 milhões foram sacados na boca do caixa por representantes da MGE para serem distribuídos a políticos e diretores da CPTM, segundo a denúncia. Para não deixar rastro da transação, os saques na boca do caixa eram sempre inferiores a R$ 10 mil. Com isso, o Banco Central não era notificado. "Durante muitos anos, a Siemens vem subornando políticos, na sua maioria do PSDB, e diretores da CPTM.

O Brasil que tortura

A história dos rapazes agredidos para confessar a morte de uma adolescente no Paraná não é um caso isolado. Segundo a ONU e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, espancamentos, choques elétricos e pau de arara são corriqueiros nas delegacias do País.

Chovia muito no dia em que Adriano, Sérgio, Paulo e Ezequiel foram presos em Colombo, na região metropolitana de Curitiba, Paraná. O clima daquela quarta-feira, 26 de junho, no entanto, seria apenas um detalhe na memória dos rapazes. Isso se policiais civis não tivessem feito com que se ajoelhassem debaixo das goteiras que pendiam do telhado da delegacia. Ali, molhados, eles levaram muitos choques elétricos. "Onde está o corpo?", perguntavam os policiais. Ninguém sabia. E dá-lhe corrente elétrica. O corpo a que se referiam era o da estudante Tayná Adriane da Silva, de 14 anos, desaparecida no dia anterior. Segundo a mãe da menina, ela foi vista pela última vez nas proximidades do parque de diversões onde trabalhavam os quatro rapazes, com idades entre 22 e 25 anos. Mesmo sem provas ou testemunhas, a polícia prendeu o quarteto e os torturou com diversas técnicas até a confissão. Eles foram espancados, asfixiados com saco plástico, levaram choques elétricos em diversas partes do corpo, tiveram a cabeça colocada dentro de um formigueiro e ainda sofreram abusos sexuais.

Exaustos, os quatro acabaram assinando um documento onde reconheciam ter estuprado e matado Tayná no terreno do parque. Nas buscas, porém, não souberam indicar onde a teriam enterrado. O corpo foi encontrado dois dias depois, dentro de um poço em um terreno vizinho ao parque. Segundo a perita Jussara Joeckel, profissional com vinte anos de experiência, não havia nenhum indício de que a garota tivesse sido estuprada, como registrava a "confissão". Apesar da prova pericial, o delegado Silvan Pereira ignorou a conclusão e encerrou as investigações. Na semana passada, uma contraprova do exame de DNA do sêmen coletado da calcinha de Tayná mudou tudo. O material genético nas vestes da menina não era compatível com nenhum dos quatro presos. O advogado dos rapazes, então, denunciou as torturas à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Paraná. Após 17 dias de pesadelo, eles foram soltos na terça-feira 16 e estão no programa de proteção à testemunha. A investigação sobre o assassinato da menina foi reaberta e até a noite da quinta-feira 18, nove policiais estavam presos e outros cinco são procurados, entre eles o delegado Silvan Pereira.

Fosse uma história isolada, já seria motivo para indignação. Mas, só este ano, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos recebeu 466 denúncias de tortura contra a população carcerária. "É uma prática institucionalizada que perpassa o sistema em suas diferentes estruturas", disse a ministra Maria do Rosário à ISTOÉ. "Uma limitação que a nossa democracia ainda possui." Não é de hoje que a tortura é uma das ferramentas mais usadas por autoridades policias brasileiras, principalmente contra os mais pobres. Durante a ditadura militar as sevícias passaram a ser praticadas contra jovens das classes mais abastadas e universitários. Agentes da repressão estavam interessados em conhecer os nomes daqueles que se opunham ao regime e o paradeiro dos que viviam clandestinamente no País. Com o fim da ditadura, os pobres, negros e trabalhadores informais, segundo o advogado José Filho, da Pastoral Carcerária, voltaram a ser a "população torturável", vítimas preferidas dos policias em busca de confissões. Técnicas violentas para obter informações tendem a ser usadas especialmente nos casos de grande clamor popular, como estupro e sequestro, quando existe maior pressão por um rápido desfecho.

A força da mensagem da humildade

Em sua primeira viagem internacional oficial, Francisco, o papa do povo, mostra ao mundo uma nova forma de liderar a Igreja Católica, com simplicidade e transparência. Ao sair dos domínios do Vaticano pela primeira vez como líder máximo da Igreja Católica, em sua viagem internacional inaugural, Francisco, o papa latino-americano que tem arrebatado fiéis a cada gesto, fala ou aparição, terá a oportunidade de amplificar sua mensagem de humildade, que, mais do que um marcante traço de personalidade, já começa a provocar profundas modificações na milenar instituição religiosa, tão alquebrada por escândalos de ordem financeira e moral. No Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, o pontífice argentino falará para milhões de pessoas, em eventos no Rio de Janeiro e em Aparecida (SP), mas sabe que os olhos e ouvidos do mundo, além do 1,2 bilhão de católicos, estarão voltados para ele, mestre em quebrar protocolos (que o diga o comitê responsável por sua segurança no Brasil, preocupadíssimo com os já famosos improvisos papais). Não à toa, seus discursos têm sido preparados há meses, por ele próprio – essa também uma novidade, pois os outros pontífices tinham assessores para tal tarefa. Para o dominicano Frei Betto, esta semana, no Brasil, será inaugurado de fato o pontificado de Bergoglio. "Durante a jornada, ele vai abrir o jogo e dizer a que veio", diz.

A fifa joga para a torcida

Acuada pela pressão exercida pelos brasileiros na porta dos estádios, a entidade anuncia ingressos para a Copa do Mundo no valor mais baixo da história da competição. A turma que ocupou ruas e avenidas Brasil afora, recentemente, acaba de marcar mais um gol. Embora já tenham tirado o time de campo, os manifestantes que, além de gritarem por melhorias em serviços públicos, bradaram toda a indignação frente às cifras vultosas aplicadas na construção de estádios acabam de ser contemplados com a notícia de que a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, terá ingressos no valor mais barato da história dessa competição: R$ 30 para meia-entrada em jogos na fase de grupos, menos o de abertura. Na sexta-feira 19, a Fifa divulgou os preços, em evento realizado em São Paulo. Para assistir ao jogo final, no Maracanã, o torcedor poderá desembolsar até R$ 1.980 – o valor mais alto.

Embora a entidade que rege o futebol do mundo não admita, a pressão popular na porta dos estádios que serviram de sede para a Copa das Confederações, no mês passado, tem muito a ver com o anúncio do ingresso ao custo mais baixo da história do Mundial. A Fifa havia previsto divulgar os valores e o esquema de venda dos tíquetes em 1º de julho, mas adiou para após a competição vencida pelo Brasil, recentemente, para fazer "alguns ajustes". A entidade se assustou ao ver os brasileiros partindo ao ataque. Para o sociólogo Maurício Murad, do mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), os gastos excessivos com estádios e o pouco legado que alguns deles deverão deixar para o País transformaram a Copa das Confederações em copa das manifestações. "Do mesmo jeito que autoridades voltaram atrás em assuntos relacionados à PEC e às tarifas de transporte público, a Fifa resolveu fazer o mesmo", diz ele. "Uma entrada a R$ 30 é uma tentativa de responder ao clamor do povo e segurar a onda de novos protestos."

Época

O Papa vem para a rua

O argentino Jorge Mario Bergoglio não planejou vir ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de 2013, nesta semana. Quando o evento foi anunciado, em 2011, Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires - um dos poucos cardeais "pastores", distante da burocracia do Vaticano e próximo de seu rebanho. Em fevereiro, Bento XVI renunciou ao trono de São Pedro, numa decisão inédita em seis séculos. Bergoglio tornou-se papa Francisco e, pelo calendário, a JMJ no Rio de Janeiro tornou-se seu primeiro evento internacional. Nada foi previsto, mas o acaso se tornou oportuno. Francisco assumiu uma Igreja Católica ferida por escândalos de corrupção e desvios de conduta. Sua administração no Vaticano busca austeridade e transparência. Francisco tornou a Igreja mais acessível. O papa despe-se da pompa, aproxima-se do público e admite imperfeições. Seus exemplos como homem e como chefe de Estado são bem-vindos ao Brasil de hoje. Não apenas aos 2,5 milhões de fiéis esperados nos eventos oficiais, ou aos 123 milhões de católicos que constituem o maior rebanho da Igreja no mundo. Os 15 discursos programados pelo papa Francisco, dirigidos a diferentes audiências, mostrarão, para o mundo, os rumos que ele pretende imprimir à Igreja - e, fora dela, como pretende conduzir a relação com católicos e não católicos. Suas palavras contêm lições de conduta que superam o universo da religião (leia a reportagem na página 46).

Uma das marcas da visita do papa será o contato com grupos carentes e marginalizados. Ele fazia isso em Buenos Aires e fez questão de repetir no Brasil. Falará em favelas, visitará ex-viciados e conversará com jovens infratores. Começa a se delinear aí a visão de uma Igreja próxima dos excluídos sociais e econômicos, ao mesmo tempo que distante do marxismo que inspirava a Teologia da Libertação. As fontes da opção pelos pobres de Francisco - que ele chama de "misericórdia popular" - são o voto de pobreza dos jesuítas (a ordem religiosa a que ele pertencia) e sua própria criação, num bairro popular de Buenos Aires. Ser católico, para Francisco, significa estar próximo dos que mais necessitam de apoio.

O papa no meio da fúria

As manifestações de rua mudaram a rotina do carioca nas últimas semanas. A aflição começa por volta das 17 horas, quando há protestos ou apenas boatos de que ocorrerão. Comerciantes fecham lojas e bares, e pedestres aceleram o passo. Muitos, ansiosos por voltar mais cedo para casa, superlotam o metrô e pontos de ônibus. As manifestações começam pacíficas, mas, volta e meia, como na quarta-feira, dia 17, terminam em violência. Lojas são saqueadas, lixeiras destruídas e agências bancárias apedrejadas. A sede do governo do Rio, o Palácio Guanabara, já foi atacada duas vezes neste mês - e uma nova manifestação está marcada para o local, no dia 22. A novidade será a presença do papa Francisco no prédio; segundo o Vaticano, para uma cerimônia de boas-vindas com a presidente Dilma Rousseff e o governador Sérgio Cabral.

A visita do papa tem elementos potencialmente explosivos. O primeiro é o próprio Francisco. A experiência de suas aparições públicas no Vaticano mostra que ele gosta de quebrar protocolos de segurança e buscar contato com a multidão. O segundo são os manifestantes. A Copa das Confederações mostrou que líderes de protestos gostam de pegar carona em momentos de atenção mundial ao país. A semana da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) será um teste permanente da interação desses elementos de risco.

O papa deverá reunir grupos de até 2 milhões de pessoas, em lugares abertos, como a Praia de Copacabana. É grande a possibilidade de vândalos se infiltrarem entre os fiéis para promover baderna. Nos incidentes da semana passada, um grupo de pessoas deixou um rastro de destruição no Leblon e em Ipanema, bairros nobres da Zona Sul do Rio. A violência ocorreu após um protesto nas proximidades da casa do governador Sérgio Cabral e levou a Secretaria de Segurança Pública a anunciar uma revisão em suas táticas, até hoje marcadas pelo uso de bombas e balas de borracha.

Qual foi o papel deles?

O Ministério Público acusa a Policia Federal de desvios na investigação da quebra do sigilo de tucanos – e aponta para a pré-campanha de Dilma. Denúncias de jogo sujo em campanhas eleitorais costumam ser embaraçosas para os candidatos - e às vezes fatais para seus projetos políticos. Em março de 2002, Roseana Sarney despontava como uma das favoritas para a Presidência da República, quando a Polícia Federal (PF) apreendeu R$ 1,3 milhão em dinheiro vivo no escritório de uma empresa de sua propriedade. Ela foi obrigada a abrir mão da candidatura. Em 2006, Lula caminhava para uma reeleição fácil, quando petistas "aloprados" foram pilhados na compra de um dossiê fajuto contra políticos tucanos. O episódio foi considerado fator decisivo para a disputa ter ido para o segundo turno. Agora, um escândalo que marcou a eleição de 2010 volta a assombrar a presidente Dilma Rousseff, pré-candidata à reeleição em 2014: a quebra do sigilo fiscal de pessoas ligadas ao oposicionista José Serra. No mês passado, de acordo com documentos a que ÉPOCA teve acesso com exclusividade, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou os responsáveis pelo crime, acusou a Polícia Federal de desvios na condução do caso - e solicitou novas investigações sobre os mandantes.

É aí que a coisa começa a esquentar para Dilma e para medalhões do PT. Na rota de investigação da Procuradoria da República estão o presidente do partido, Rui Falcão, e o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel. Os dois tiveram funções de destaque na campanha de Dilma em 2010 e se envolveram, ainda que de modo indireto, com o jornalista Amaury Ribeiro Jr., acusado de ter encomendado, de forma criminosa e por meio de uma cadeia de despachantes, papéis da Receita Federal protegidos pela lei.

Um estímulo para a economia

Ao aprovar uma medida provisória, o Congresso começa a desbastar o cipoal da lei trabalhista. Por que isso é bom para todos os brasileiros. No afã de atender a voz das ruas, que emergiu nos protestos de junho, o Congresso Nacional entrou num ritmo frenético de aprovação de projetos em comissões e no plenário, numa onda que tem sido apelidada em Brasília de "agenda positiva". Dos royalties do pré-sal aos poderes de investigação do Ministério Público, nossos congressistas têm passado por tantas votações que às vezes passam despercebidos temas fundamentais para o futuro do Brasil. É o caso da ampliação na redução dos encargos trabalhistas, parte da complexa e abrangente Medida Provisória 610, aprovada pouco antes de o Congresso entrar em recesso na quarta-feira passada. Trata-se de um impulso fundamental para tirar a economia do marasmo.

A ultrapassada legislação trabalhista brasileira forma um intrincado cipoal, cheio de regras e normas obsoletas que, sob o pretexto de proteger o trabalhador, contribuem apenas para encarecer o custo de mão de obra, dificultar a geração de empregos e reduzir nossa competitividade no cenário global. Ela onera a produção e drena recursos necessários a investimentos em setores de alto impacto econômico e social, como obras de infraestrutura, transporte urbano, ferrovias e rodovias. É consenso entre os economistas e empresários que o Brasil precisa implementar uma ampla reforma trabalhista, para aumentar nossa competitividade e reduzir o "custo Brasil". Trata-se, contudo, de um objetivo difícil de atingir, tamanha a quantidade de interesses afetados e a resistência daqueles que vivem encastelados em privilégios ao longo de anos. Por isso, toda medida adotada para diminuir o custo da mão de obra no país, ainda que parcial, merece aplausos da sociedade. "Sem dúvida, é uma medida que tem por objetivo estimular a geração de empregos e melhorar a competitividade das empresas", diz o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), relator da matéria no Senado.

Qual é a deles?

Em vez de aproveitar o desgaste do governo para ensaiar sua volta, Serra e Lula deveriam entender que seu tempo já passou. A  campanha presidencial de 2014 começou em fevereiro, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou a candidatura à reeleição da presidente Dilma Rousseff, na festa do PT em comemoração aos dez anos no poder federal. Em junho, tudo ficou embaralhado. O amplo favoritismo de Dilma acabou, como confirmou na semana passada uma pesquisa feita pelo Ibope em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo. No cenário hoje considerado o mais provável para a sucessão, em que os candidatos são Dilma, a ex-senadora Marina Silva, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), a intenção de votos em Dilma desabou. Em março, ela tinha 58% das preferências. Agora, tem 30%. A maior beneficiária da reviravolta foi Marina, que cresceu de 10% para 22% das intenções de voto. Num hipotético segundo turno entre Dilma e Marina, que nem sequer tem ainda um partido, as duas se enfrentariam em situação de empate técnico.

Esse cenário mais competitivo desatou ambições de candidatos antes considerados fora da liça. Como num filme de terror em que os fantasmas nunca morrem, dois nomes que a plateia considerava enterrados voltaram a assombrar o noticiário eleitoral. Primeiro, o ex-governador de São Paulo José Serra, duas vezes derrotado na pretensão de chegar à Presidência. Sem espaço no PSDB, Serra tem uma oferta para ser o candidato do PPS. Confiante em que ele ainda teria boas chances, seus aliados já traçam planos de encorpar sua candidatura e negociam com outros partidos, como PV e PSD. O PSD tem um ministério no governo Dilma, mas já avisou que não é de esquerda, nem de direita, nem de centro, na descrição inapelável de seu patrono, o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. Falta apenas, aos aliados de Serra, negociar com o PSDB do governador paulista, Geraldo Alckmin, o preço do lançamento de uma eventual candidatura de Kassab ao governo de São Paulo.

Uma chance para uma faxina

Uma notícia auspiciosa para iluminar os descaminhos da corrupção no Brasil tornou-se pública na semana passada. O jornal Folha de S.Paulo revelou que a Siemens, multinacional alemã com 360 mil empregados e presença em 190 países, resolveu delatar um esquema de cartel, em licitações para compra de equipamentos ferroviários e construção e manutenção de linhas de metrôs e trens em São Paulo e no Distrito Federal. Outras empresas de grande porte, inclusive subsidiárias de multinacionais, participavam do conluio com a Siemens para ganhar licitações de valores milionários, com preços superfaturados em 10% a 20%, segundo estimativas. O esquema agora está sob investigação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A Siemens fez a delação mediante um acordo de leniência, segundo o qual ela e seus executivos estarão isentos de condenação ao final do processo. A Siemens disse que tomou a iniciativa porque, desde 2007, passou a envidar esforços por uma postura mais ética nos negócios. Na década de 1990, ela fora atingida por escândalos de pagamentos de propina em vários países. Em 1997, os 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) assinaram uma convenção para combater o pagamento de propinas por empresas para obtenção de contratos.

O Brasil, embora não seja integrante da OCDE, também assinou a convenção, que resultou em várias investigações internacionais contra grandes corporações. Uma das mais rumorosas atingiu a Alstom, conglomerado francês com atuação nos setores de transporte e energia. O Brasil participa da investigação sobre a Alstom. Aqui, ela é acusada de ter pagado mais de US$ 8,25 milhões em comissões a políticos - entre eles, um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Ao contrário do ocorrido noutros países, a Justiça brasileira ainda não aplicou punições aos acusados - entre outros motivos, por idiossincrasias da legislação brasileira e do nosso sistema judicial Espera-se que o caso da Siemens que conta com a ajuda da própria empresa, contribua para tornai nossa Justiça mais célere.

Veja

"Onde houver dúvida que eu leve a fé"

Em sua tão aguardada visita ao Brasil, o papa jesuíta de alma franciscana, defensor da humildade e das oportunidades aos pobres, espera que suas atitudes e palavras motivem os jovens do mundo a agir como verdadeiros cristãos.

Na Santa Sé. às vésperas do início da Jornada Mundial da Juventude, o grande encontro católico que o Rio de Janeiro sedia a partir desta terça-feira. 23. o ambiente em tomo de seu mais ilustre visitante, o papa Francisco, variava conforme o gabinete. Da pane dos prelados que tocam o dia a dia da Cúria Romana, a sensação é de alívio: Francisco, enfim, vai lhes dar um respiro. Desde que foi escolhido papa. em março, será a primeira vez que ele se ausenta mais do que um dia do Vaticano. Mergulhado na cobrança de uma nova postura ética e moral do clero e nos preparativos de uma ampla reforma na Cúria prevista para outubro, Francisco abriu mão das tradicionais férias de verão em Castel Gandolfo e vem trabalhando — e dando trabalho — intensamente. Para esses funcionários, portanto, a semana que ele passará no Rio será relaxante. Já para o pontífice e seus conselheiros, os últimos dias em Roma foram de grande agitação. A expectativa de que as manifestações populares no Brasil não darão trégua, e talvez até recrudesçam, alçou a questão da segurança a primeiríssimo plano. Mas que fique claro: não é porque Francisco se sente ameaçado. Ele até fez pequenas adaptações no plano original, mas resiste em mudar o roteiro que o coloca por mais de uma vez em picadeiros tumultuados — este pontífice gosta de multidões e faz absoluta questão de acolher e ser acolhido pelos fiéis, de preferência bem de perto.

O papa jesuíta de alma franciscana também terá a chance de exercer aqui sua catequese em favor dos pobres. Seu público no Rio são mais de 1 milhão de jovens peregrinos, que na semana passada começavam a ser vistos na cidade fazendo turismo antes de os trabalhos começarem. Sendo esta uma Jornada da Juventude e sendo os jovens os motores das manifestações de rua no Brasil, o pontífice vai aproveitar para transmitir a ambos, devotos católicos e portadores de cartazes indignados, seu apoio a quem protesta contra a corrupção e as más condições da saúde e da educação, bandeiras defendidas pelo paladino da justiça social que sempre foi. desde os tempos de arcebispo em Buenos Aires. Também cobrará da classe política uma mudança de atitude. O papa é seguidor e arauto dos nobres princípios franciscanos (não escolheu à toa o nome que tem), praticante da ética rigorosa, da simplicidade espartana e do compromisso com os destituídos que são a marca do mais popular dos santos — aquele que trocou uma existência de luxo pela renúncia aos bens materiais. Francisco, como o santo que o inspira, prega uma igreja aberta, devota, atenta aos fiéis. Critica com frequência as desigualdades sociais. Pautou-se por esses altos ideais durante toda a sua vida religiosa e agora os pratica na cúpula vaticana com uma intensidade até perturbadora para prelados desacostumados. Ao se apresentar assim no Rio de Janeiro, estará firmando uma imagem de pontífice popular, carismático e forte — o perfil mais adequado para atrair à Igreja Católica os jovens brasileiros que vêm se desgarrando dela há anos.

Alerta vermelho

Há duas semanas, o traficante Bruno Di Carlantonio Martins, o BR. fechou a contabilidade da maior cracolândia do Rio de Janeiro e deu férias coletivas à quadrilha. Foragido desde fevereiro, quando ele e mais 26 detentos escaparam de um presídio em Bangu. BR controla a favela de Antares, uma das quatro que a Polícia Militar vai ocupar na região em volta do Campus Fidei. em Guaratiba. o palco da vigília e da missa campal a ser celebrada pelo papa com a presença da presidente Dilma Rousseff. A área, de mais de 1 milhão de metros quadrados, fica encravada justamente nessa que é uma das regiões mais perigosas do Rio. Fotos feitas pela Polícia Civil e obtidas por VEJA mostram bandidos armados de fuzis e granadas embalando e vendendo drogas — mas isso antes do "recesso". Voluntariamente. os bandidos da favela estarão ausentes. "Eles receberam o recado da ocupação e resolveram ficar fora para evitar confrontos", informou um policial. Apesar da boa vontade do crime organizado, nem tudo está sob controle. O esquema de segurança foi motivo de divergências pesadas entre autoridades brasileiras e o Vaticano que incluíram até a discussão sobre um suposto atentado contra Francisco.

A segurança durante a Jornada Mundial da Juventude está dividida entre 10266 integrantes das Forças Armadas e 10.000 policiais coordenados pela Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos — que a toda hora se atropelam em uma surda disputa de poder. Cabe às Forças Armadas patrulhar

O entorno dos eventos em que Dilma Rousseff estiver presente, entre eles a missa campal em Guaratiba. Nesse local, onde 1.5 milhão de pessoas são aguardadas, o esquema vai mobilizar 7000 militares. 400 deles ao redor do palco e outros 800 na área destinada ao público. A tropa será municiada com informações vindas de 94 torres de observação. A complicada montagem do quebra-cabeça da segurança do papa Francisco no Rio vem tirando o sono do governo federal. Com grupos de protesto bloqueando ruas toda semana e enormes áreas ainda sob controle de criminosos, a reação do Planalto tem sido muito parecida com a que demonstra diante das manifestações: há muito receio e preocupação, mas não se sabe ao certo o que fazer para evitar os tumultos.

O rato roeu o ronco da rua

É fato que as manifestações que ocuparam as ruas do país tiraram o Congresso Nacional de um longo estado de letargia. Em menos de um mês os parlamentares produziram novas leis, arquivaram projetos absurdos, propuseram saídas para a crise; enfim, trabalharam como nunca. Mais importante ainda: deputados e senadores responderam aos protestos em sintonia com o contribuinte. o eleitor — uma auspiciosa mudança de comportamento. O risco de recaída em pacientes letárgicos, porém, é sempre uma hipótese a considerar. Na semana passada, a agenda positiva do Parlamento sofreu um ataque especulativo de pragas que surgiram de muitos lados. No lugar da pauta sintonizada com a sociedade, que previa ações contra políticos condenados e maior transparência nos procedimentos do Legislativo, moveram-se propostas destinadas a fragilizar a legislação eleitoral e favorecer os conchavos com o dinheiro público. Prioridade número 1, o combate à corrupção e aos corruptos também foi alvejado.

O primeiro revés aconteceu durante a reunião da Comissão de Constituição e Justiça do Senado que tentou votar uma proposta de emenda à Constituição apresentada pelo senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). Batizada de PEC dos Mensaleiros, a matéria pretende tomar automática a perda de mandato em caso de improbidade administrativa ou condenação por crimes contra a administração pública. O texto foi posto em discussão na comissão justamente para ser aprovado a tempo de resolver o impasse jurídico que envolve a aplicação das sanções aos réus do mensalão. Mas o projeto acabou sendo retirado da pauta por força de uma manobra dos mensaleiros. Aliado do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), condenado a sete anos e dez meses de prisão, o senador Antonio Carlos Rodrigues, também do PR, interrompeu a votação com um pedido de vista. Sob a alegação de que precisaria estudar melhor a matéria, Rodrigues prestou um grande favor a seu colega de partido e a mais três deputados condenados — José Genoíno e João Paulo Cunha, ambos do PT. e Pedro Henry. do PP.

O presidente muy amigo

Evo Morales, presidente da Bolívia, foi submetido no início do mês a um constrangimento. Em viagem oficial à Europa, seu avião foi impedido de sobrevoar o espaço aéreo da França, Itália, Espanha e Portugal. A Áustria autorizou o pouso e o reabastecimento do avião de Evo. Em terra, sem nenhuma autorização, policiais locais revistaram a aeronave em busca de um suposto passageiro clandestino - Edward Snowden, o ex-agente de inteligência que denunciou a existência de uma rede mundial de espionagem de comunicações montada pelo governo dos Estados Unidos. A ação das autoridades europeias, considerada arbitrária e desrespeitosa, foi repudiada pelos países do Mercosul. Na última reunião da entidade, a presidente Dilma Rousseff se solidarizou com o colega boliviano, disse que a vida dele correu riscos e lembrou que o caso desrespeitava a Convenção de Viena. Foi aplaudida por todos os presentes, incluindo o próprio Evo Morales. 0 que a presidente não sabia é que, meses antes, o governo do companheiro Evo patrocinara uma agressão similar ao Brasil que teve como vítima o ministro da Defesa, Celso Amorim.

0 enredo, revelado pelo site Diário do Poder, foi praticamente o mesmo. 0 ministro voltava de uma viagem oficial à Bolívia em outubro de 2011. Antes da decolagem, policiais armados invadiram o avião, revistaram todos os compartimentos e se foram. Embora nunca tenham explicado oficialmente o motivo da ação, as autoridades bolivianas suspeitavam que a aeronave estivesse transportando clandestinamente o senador Roger Pinto, que está refugiado na embaixada brasileira em La Paz. 0 parlamentar tenta deixar a Bolívia desde que denunciou o envolvimento de importantes políticos do país com o narcotráfico. Em 2012, ele pediu e obteve asilo no Brasil. No entanto, o governo boliviano ameaça prendê-lo caso ele deixe a representação diplomática brasileira. Sem um salvo-conduto, o senador só poderia sair da Bolívia de forma clandestina. Ao revistar o avião do ministro Amorim, os bolivianos suspeitaram que o governo brasileiro estivesse sendo cúmplice de uma operação ilegal. Quase dois anos depois do incidente, só na semana passada o presidente Evo Morales pediu desculpas publicamente. Garantiu que nada sabia sobre mais esse vexame imposto pelos bolivarianos à diplomacia brasileira.

O efeito Bumerangue

No mundo real. são poucos os que conhecem ou já ouviram falar do consultor André Guimarães. No mundo virtual, o rapaz é uma estrela. Responsável pela criação da Rede PT13. um conjunto de sites e perfis de redes sociais dedicados a perseguir inimigos do partido, Guimarães é celebrado como um modelo de guerrilheiro da internet, um especialista na arte de atacar, ridicularizar e. sempre que possível, destruir a reputação de adversários do PT. Há dois meses, uma reportagem de VEJA revelou que o jovem petista também se rendeu aos encantos do capitalismo. Apresentando-se como "consultor de mídias sociais", ele procurava prefeituras do partido e oferecia um pacote de serviços que incluía a montagem de uma estrutura virtual, assistência técnica e o bem mais valioso: disponibilizava a tecnologia para difamar adversários. O preço do pacote dependia do orçamento do município e podia chegar a 30000 reais — um excelente negócio. Mas Guimarães quis mais. Ele tentou uma segunda incursão, que, de tão ousada, acabou lhe custando o estratégico posto de assessor do vice-presidente da Câmara dos Deputados, o petista André Vargas.

No início do ano, o ciberguerrilheiro tentou forjar um patrocínio para a festa de Carnaval de Londrina, sua cidade natal e berço político do deputado André Vargas. A ideia era usar os contatos do PT para conseguir o contrato, simular o patrocínio e embolsar o dinheiro. As vítimas eram dois órgãos estatais comandados por petistas: a Petrobras e a Caixa Econômica Federal. O plano, porém, fracassou. Um dos sócios de Guimarães descobriu e denunciou o golpe, que renderia 180000 reais aos envolvidos. Revelada, a ousadia foi considerada excessiva até para os padrões morais do PT, e Guimarães foi demitido. O problema é que ele não era um soldado qualquer. Funcionário do gabinete de Vargas desde dezembro de 2009. Guimarães tornou-se ao longo dos anos um dos mais próximos assessores do petista. Ele participava de reuniões reservadas, viajava o país representando o deputado e tinha acesso aos bastidores das principais decisões do partido. Expulso sem nenhuma honraria, ele agora ameaça mudar de lado e esquecer a lealdade aos antigos companheiros.

Os boateiros oficiais

Mais uma vez, restou ao governo digerir a própria trapalhada. Depois de quase dois meses de investigação, a Polícia Federal concluiu o que parecia óbvio: a boataria sobre o fim do Bolsa Família que alimentou uma onda de saques e quebra-quebras em agências da Caixa Econômica Federal e casas lotéricas em doze estados, em maio. teve origem em erros do próprio governo. Além de escancarar mais um grave deslize de gestão, a conclusão dos policiais expôs ao ridículo a própria presidente Dilma Rousseff e alguns de seus subordinados que. no auge da confusão, levantaram o dedo para acusar adversários políticos de estar por trás dos tumultos. Na ocasião, a presidente disse que os boatos eram "criminosos e desumanos". A ministra Maria do Rosário. dos Direitos Humanos, acusou diretamente a oposição. O presidente do PT, Rui Falcão, falou em terrorismo eleitoral. O ex-presidente Lula atribuiu os boatos a gente "que veio ao mundo para fazer o mal". E o ministro da Justiça. José Eduardo Cardozo, chefe da Polícia Federai, apontou a existência de uma "ação orquestrada". O que havia em comum em todas as acusações?

Na tentativa de isentar o governo de culpa, o próprio Cardozo difundiu a notícia de que a boataria tinha sido espalhada por uma central de telemarketing, contratada sabe-se lá por quem. e anunciou prontamente que essa suspeita seria investigada por seus agentes. Pois o resultado do inquérito mostrou que não havia nenhuma central de telemarketing nem ação orquestrada. Contrariando o discurso oficial, os policiais concluíram que os boatos foram "fruto de um conjunto de fatores desassociados". entre os quais a decisão da Caixa de antecipar os pagamentos sem aviso prévio, o que provocou correria e alimentou o disse me disse entre os beneficiários. Na quinta-feira, ao falar pela primeira vez sobre a constatação da polícia de que nascera dentro do próprio governo a ação criminosa orquestrada por gente do mal. como definiram as excelências petistas. a presidente mudou o discurso. Disse que "ninguém sabe direito" o que aconteceu. O nome disso é leviandade.

Carta Capital

Procuradores na mira

O juiz federal João Bosco Soares trava desde o ano passado uma guerra particular contra o Ministério Público do Amapá. Em 9 de março de 2012* formalizou denúncias graves de corrupção cont ra a procurado-ra-geral de Justiça Ivana Lúcia Franco Ceie um grupo de promotores e procu ra-dores da República suspeitos de utilizar o recurso de arbitragem do Termo de Ajustamento de Contas para enriquecimento ilícito. G TAC é um mecanismo criado para obrigar cidadãos e empresas a reparar eventuais danos causados ao ambiente ou ao patrimônio público.

Não é uma briga qualquer. No início de julho, quatro bandidos invadiram a casa do juiz. Soares foi amarrado, ameaçado com uma arma na cabeça e espancado na frente da mulher e de dois filhos pequenos. Para a Polícia Civil, tratou-se de um assalto. A Polícia Federal entrou no caso e vai definir se houve ou não motivação política no ataque.

Soares meteu a mão em um formidável vespeiro ao encaminhar uma representação contra Ivana Cei, dois promotores e cinco procuradores da República ao Conselho Nacional do Ministério Público, em Brasília, com base nas ligações do grupo com o conglomera-tio de Eike Batista, ex-dono da MMX Mineradora Amapá. Entre 2007 e 2012, a firma o magistradc >, a MMX e, pc jsterk >r-mente. a britânica Anglo Ferrous pagaram 140 milhões de reais à Etecon, empreiteira local de propriedade de Glauco Cei, marido da procuradora. Essa transferência milionária tornou-se legal graças a um dos TACs assinados por Ivana Cei quando chefiava a Promotoria de Meio Ambiente do Amapá, em 2007.

O lobby venceu a soberania

O Brasil poderia a estar mais protegido da espionagem dos Estados Unidos denun­ciada pelo ex-agente da CIA Edward Snowden se o go­verno não tivesse abandonado a ideia de re­vigorar a Telebras, acredita o ex-presiden­te da estatal Rogério Santanna. A recupe­ração da companhia e seu uso estratégico eram pilares do Plano Nacional de Banda Larga lançado em maio de 2010. Segundo o PNBL, a Telebras assumiria a rede de ór­gãos públicos, por exemplo (após três anos, só a Presidência e o Exército têm o serviço). Também seria um ponto de apoio a empre­sas brasileiras de telecomunicações como a Petrobras faz no petróleo.

Santanna foi o primeiro presidente da nova Telebras, mas deixou o cargo em maio de 2011, após se ver enfraquecido em Brasília. Segundo ele, o PNBL está emperrado por força do lobby das ope­radoras privadas de telefonia crescen­te desde a nomeação de Paulo Bernardo para o Ministério das Comunicações.

A farra dos trilhos

O cartel delatado pela Siemens é alvo de denúncias há 5 anos, mas só agora o governo paulista decidiu investigar os contratos do Metrô e a CPTM. A multinacional alemã Siemens admitiu às auto­ridades brasileiras parti­cipar de um cartelpara manipular licitações de equipamentos ferroviários, construção e manutenção de linhas de trem e me­trô em São Paulo e no Distrito Federal. No início de julho, a Superintendência- Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) executou, com o apoio da Polícia Federal, manda­dos de busca e apreensão na sede de 13 empresas. Entre as companhias delata­das pela Siemens estão as subsidiárias de gigantes da indústria de transportes, como a francesa Alstom, a espanhola CAF, a canadense Bombardier e a japo­nesa Mitsui.

As combinações ilícitas geraram um sobrepreço estimado entre 10% e 20%, segundo as autoridades antitruste. Ao delatar o esquema, a Siemens assinou um acordo de leniência com o Cade e o Ministério Público paulista, o que pode garantir à companhia e a seus executi­vos imunidade em condenações nas es­feras administrativa e criminal. Entre as punições previstas há uma multa de até 20% do faturamento anual bruto da empresa condenada.

Tão logo o escândalo ganhou as pá­ginas dos jornais, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, demonstrou surpresa e prometeu colaborar com as investigações. "O governo é o maior in­teressado (na apuração dos fatos). Dará todas as informações e também fará investigação própria, pela Corregedoria", afirmou. A providência é, no mínimo, tardia. Há ao menos cinco anos, suces­sivas denúncias levantam suspeitas so­bre os contratos do Metrô e da CPTM.

A Supervia financiada

Um financiamento de 1,6 bilhão de reais aprovado do BNDES para a Supervia pretende mudar a cara do transporte ferroviário urbano na região metropolitana do Rio de Janeiro. Sob gestão da Supervia, empresa do Grupo Odebrecht, os recursos serão aplicados em compra de trens, melhora do sistema de controle, reforma de estações e modernização das linhas. Em sintonia com o programa Brasil Maior, de apoio à pro­dução industrial, os trens daAlstom encomendados pela Supervia serão montados no País, com investimento de 300 milhões de reais em uma unidade fabril no bairro de Deodoro, zona oeste da capital fluminense. Os trens deverão entrar em operação no pri­meiro semestre de 2014. Em maio, 0 BNDES aprovou outro empréstimo para aprimorar a mobilidade na região metro­politana do Rio. Os emprés­timos de 4,5 bilhões de reais servirão para levar 0 metrô até a Barra da Tijuca.

Alívio passageiro?

O item alimentação rendeu manchetes alarman­tes recentemente, a começar pelo caso do tomate. Os alimentos contribuíram decisiva­mente para levar o IPCA, ora em queda, além do teto da meta de 6,5%. Também teve influência na decisão do Banco Central de elevar a Selic, hoje em 8,5%. O alívio verificado nos índices de preços de junho e início de julho, contudo, não é definitivo, segundo Salomão Quadros, da FGV. 0 peso grande dos pro­dutos in noturo na categoria alimentos justificaria a análise do economista, que por esse motivo defende que os juros básicos sigam em alta. "Em agosto e se­tembro, 0 preço dos alimentos pode voltar a subir E não podemos nos esquecer de que ainda contamos com uma inflação de serviços persistente."

Duopólio de plástico

No primeiro fim de sema­na de julho, o microempresário da construção civil Fernando Sérgio Antunes realizou o sonho de trocar de aparelho de som. Na loja de uma gran­de rede de varejo, na zona leste paulista­na, soube que deixar o cartão de crédito na carteira era u m ótimo negócio. Caso o usasse, a mercadoria desejada sairia por 2,6 mil reais. Após regatear um tanto, le­vou o produto por 1,7 mil, mas o pulo do gato foi mesmo pagar à vista, usando o cartão de débito. "Pago quase tudo com cartão, mas sempre que posso uso o de débito para conseguir um preço melhor", diz Antunes. No crédito mesmo, só quan­do não consegue qualquer vantagem, aí ganha mais prazo para pagar e, segunda regra de sua cartilha financeira, sem ja­mais parcelar a fatura. "Com os juros que eles cobram não há nenhuma condição." Antunes faz parte da massa de brasileiros acostumada à facilidade proporcio­nada pelos sistemas eletrônicos de paga­mento. A popularização do "plástico" no País: hoje 75% da população das grandes cidades usa regularmente os cartões, que respondem por 26% do gasto das famílias.

A maioria dos usuários não se dá con­ta, porém, da fabulosa fábrica de dinhei­ro, entre taxas e juros, que trafega do chip aos cofres dos bancos. Após a can­cela do consumo e do crédito ser aber­ta, o mercado de cartões supera a mé­dia de 20% de crescimento ao ano. Em 2013 chegará a um faturamento de 847 bilhões de reais e, se forem confirmadas as expectativas mais otimistas, baterá em 1 trilhão no fim de 2014. Em cinco anos, o peso do cartão no fa­turamento varejista subiu de 52% para 58%, com 37% de participação dos car­tões de crédito. Embora seja proibida pe­la Lei do Consumidor, a prática de dife­renciação de preços entre crédito e débi­to, como na experiência do microempresário, está disseminada. O principal mo­tivo para a pechincha no balcão são as ta­xas de desconto das redes credenciadoras, como Cielo e Redecard, na qual es­tá embutida a remuneração dos bancos emissores e das bandeiras dos cartões, quase sempre Visa ou MasterCard. Na média, o desconto em cada transação no débito gira em torno de 1,5%, enquanto no crédito o custo sobe a 2,8%.

Um país dominado pelo desânimo

O Banco Central acompa­nha, "vigilante", o anda­mento dos preços, o que significa dizer que atende­rá à expectativa do sistema financeiro e elevará ainda mais a taxa bá­sica de juros, hoje em 8,5%ao ano. As con­cessões vão precisar de tempo para sair do papel e não há possibilidade de elas afe­tarem de forma positiva o ritmo do PIB deste ano, cujas revisões mais recentes apontam para um patamar de crescimento próximo de 2%. As desonerações fiscais chegaram ao limite, como reconheceu o ministro da Fazenda, GuidoMantega, que finalizava na quinta-feira 18 uma nova ro­dada de cortes dos gastos públicos. Em no­me do combate à inflação e da recupera­ção da confiança dos agentes econômicos, a opção é manter a economia em banho-maria, apesar da estimativa de alta do de­semprego nos próximos meses.

Trata-se de um marasmo poucas vezes visto na história recente do País, segundo analistas experientes. "Não há exemplo de uma sucessão de tantos meses em que o varejo permaneceu em uma condição de tão baixo crescimento como na pri­meira metade deste ano" anotou o economista Jú1io Sérgio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica e pro­fessor do IE-Unicamp. O varejo restrito, que não considera veículos, autopeças e material de construção, oscilou, entre ja­neiro e maio, respectivamente, 0,1%, me­nos 0,1%, zero, zero e 0,2%. Ou seja, não saiu do lugar. "O varejo não vinha bem, piorou em maio e é provável que piore ain­da mais com a queda de vendas decorren­tes das manfestações de junho." Houve, diga-se, um avanço modesto nas vendas de alimentos e bebidas nas redes de su­permercados em maio.

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