Nas revistas: novas gravações revelam os negócios de Cachoeira e Demóstenes com Perillo

Gravações da Polícia Federal mostram o envolvimento claro do governador de Goiás com o esquema de Carlinhos Cachoeira e com a construtora Delta. Em um dos diálogos, Marconi garante contrato de R$ 1,2 bilhão para empresa

Época

Novas gravações revelam os negócios de Cachoeira e Demóstenes com Perillo

Época teve acesso a novas conversas telefônicas interceptadas pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo – que, no final de fevereiro, deslindou a infiltração do crime organizado no governo de Goiás. A íntegra das conversas – 5,9 gigabytes de informação – corre sob segredo de Justiça na 11ª Vara Federal de Goiânia. Nela, encontra-se fartura de trechos inéditos – e explicitamente reveladores, sobretudo sobre o envolvimento do tucano Marconi Perillo, que governa o Estado de Goiás, com o esquema liderado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira e pela construtora Delta. Entre outras novidades, há diálogos em que se diz que Perillo “mandou passar” à Delta um contrato que poderia render R$ 1,2 bilhão. Noutros diálogos, cita-se Perillo como responsável por ordenar, por intermédio do ex-senador Demóstenes Torres (ex-DEM), que o diretor do Detran no Estado, indicado por Cachoeira, contratasse uma empresa de um amigo do governador. Descobre-se, ainda, que um irmão de Perillo, chamado Antônio Pires Perillo, ou Toninho, tinha um celular Nextel habilitado nos Estados Unidos para conversar com Cachoeira – e que Toninho prestou serviços a ele.

Desde que a existência da quadrilha de Cachoeira veio a público, em fevereiro, sabia-se que a força do grupo escorava-se, entre outros políticos, no senador Demóstenes. O envolvimento de Perillo aparecia, até então, por indícios. Na semana passada, ÉPOCA revelou as evidências – contidas num relatório enviado pela PF à Procuradoria-Geral da República – de que a Delta firmara um “compromisso” político com Perillo: comprara a casa que o governador vendia, pagara R$ 500 mil a mais do que ela valia – e passara a receber em dia o que o governo de Goiás lhe devia.

Pobres advogados

O paraibano Serafim Simeão, de 71 anos, é o oitavo de 20 irmãos. Migrou para o Rio de Janeiro há 50 anos. Fez bicos, trabalhou numa cooperativa de táxis e, depois de sofrer oito assaltos, passou a atuar como pedreiro. Há cinco anos, sofreu um derrame, que lhe deixou sequelas em todo o lado esquerdo do corpo. Simeão caminha mancando. Um dos braços não lhe obedece. Viúvo, mora numa casa alugada em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Quando foi atrás de sua aposentadoria, descobriu várias irregularidades em suas contribuições. Por isso, não teria direito a um benefício. Impedido de trabalhar, não sabia como pagar suas contas.

Num dos postos do INSS, um porteiro sugeriu que ele procurasse um lugar de nome “complicado”: a Defensoria Pública da União, perto do mercado popular da Uruguaiana, um dos formigueiros humanos do centro do Rio de Janeiro. Simeão pegou dois ônibus para chegar até lá. Decisão acertada. Depois de receber assessoria jurídica da DPU, há quase um ano ele recebe seu benefício. Seu caso foi coberto pela Lei Orgânica de Assistência Social (Loas), que permite a pessoas carentes ter direito a um benefício assistencial. Ele agora ganha um salário mínimo – R$ 622. Pouco, se comparado a seus gastos: R$ 200 de aluguel e contas gerais, mais pelo menos R$ 80 de remédios para pressão e colesterol todo mês. Fora a comida. Uma das cinco filhas o ajuda quando pode.

A história de Serafim Simeão é semelhante à de muitos outros brasileiros que, no momento de se aposentar, deparam com problemas de contribuição ou com a própria burocracia. A atuação das Defensorias Públicas da União tem sido sinônimo de sobrevivência na vida de gente como ele. Mas esse órgão, cuja missão é representar o cidadão em ações contra a União, ao oferecer assessoria jurídica a brasileiros carentes, precisa de advogados. Em suas sedes, espalhadas pelas capitais e por algumas outras poucas cidades, a DPU tem estrutura muito aquém de sua importância. O corpo de defensores é considerado pequeno demais: 474 para todo o território nacional. Do outro lado da mesa, defendendo os interesses – também legítimos – da União, a Advocacia-Geral da União (AGU) conta com a ação de quase 7.970 advogados.

Telefônica tem cinco meses para melhorar serviço de telefonia fixa, diz Anatel

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) determinou que a Telefônica Vivo adote providências para diminuir o número de interrupções no serviço de telefonia fixa no Estado de São Paulo. A empresa terá de reduzir em 40%, no mínimo, no período entre 1º de agosto deste ano a 31 de julho de 2013, as interrupções ocorridas entre os dias 1º de julho de 2011 a 30 de junho de 2012. No prazo de cinco meses, a empresa terá ainda que melhorar o processo de ressarcimento aos consumidores afetados pelas interrupções. A regularização terá de ser feita a todos os assinantes, independente de solicitação.

Segundo a Anatel, a medida foi adotada em razão do aumento da quantidade de interrupções ocorridas nos últimos anos. A Telefônica terá de enviar relatório mensal à Anatel demonstrando as ações e os resultados alcançados.

Istoé

A ferrovia da corrupção

No início do mês, a Polícia Federal prendeu o ex-presidente da Valec José Francisco das Neves, o Juquinha, acusado de enriquecimento ilícito. Segundo os autos do inquérito da Operação Trem Pagador, ele teria comandado um esquema que desviou mais de R$ 100 milhões de obras da Ferrovia Norte-Sul, a mais extensa via férrea do País. ISTOÉ revela agora que o rombo provocado pelo esquema de Juquinha, que comandou a estatal de ferrovias por oito anos, pode chegar à escandalosa cifra de R$ 1 bilhão, dinheiro que teria abastecido não só as contas pessoais do ex-presidente, familiares e ex-integrantes da cúpula da Valec, mas também o caixa de partidos como PR e PMDB. A estimativa é da própria PF, com base numa série de investigações em andamento. Só na Delegacia de Crimes Financeiros da Polícia Federal em Goiás foram abertos sete diferentes inquéritos que abarcam os quase 4,5 mil quilômetros de extensão da ferrovia. Ao longo da Norte-Sul, que já consumiu R$ 8 bilhões, correm suspeitas de superfaturamento em materiais, como trilhos e dormentes, nas ações de terraplanagem, escavações e aterros. A PF encontrou ainda indícios de conluio entre empreiteiras, direcionamento de licitações e subcontratação de empresas ligadas a políticos. As investigações, que tiveram origem em fiscalizações do TCU, da CGU e denúncias do Ministério Público, estão longe de terminar.

As investigações indicam que só no trecho entre Palmas (TO) e Anápolis (GO), justamente o que ajudou a enriquecer Juquinha e sua família, foram desviados mais de R$ 400 milhões. Laudos técnicos que compõem os inquéritos mostram que a estrada de ferro consumiu todo o orçamento previsto nos contratos com as construtoras Andrade Gutierrez, SPA Engenharia, Constram, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa. A Valec de Juquinha autorizou aditivos que atingiram o limite legal de 25% e mesmo assim a obra chegou ao fim infestada de problemas estruturais, como a falta de proteção vegetal de taludes e canais de drenagem superficial. O resultado é a erosão de áreas que estão provocando a desestabilização dos trilhos, inviabilizando o uso da ferrovia. Não foram construídos oito pátios intermodais que estavam previstos em contrato. Isso significa que, mesmo os trens sendo liberados para transitar na estrada de ferro, eles simplesmente não têm onde ser carregados e descarregados.

Todos passam por BH

Até o final do último mês, a reeleição do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), apoiada por PT e PSDB, era considerada favas contadas. O racha entre o PT e o PSB locais, no entanto, alterou totalmente o quadro eleitoral na capital mineira. A disputa ganhou ares de embate nacional ao levar para o jogo potenciais candidatos a triunfar na corrida presidencial de 2014: o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) e o senador Aécio Neves (PSDB), articuladores da reeleição de Lacerda, e a presidenta Dilma Rousseff, que se transformou na principal madrinha da candidatura de Patrus Ananias (PT). Ao lado de São Paulo, a disputa tornou-se determinante para quem está de olho na eleição para o Palácio do Planalto daqui a dois anos. Graças à articulação de Dilma, Patrus Ananias também terá o apoio do PSD de Gilberto Kassab e do PMDB de Michel Temer, outros dois importantes protagonistas políticos da próxima eleição presidencial.

A presidenta Dilma elegeu a capital mineira como sua prioridade, pois entende que sua reeleição começa a ser jogada durante a disputa eleitoral de BH. Principal cabo eleitoral de Lacerda, Aécio deve rivalizar com ela em 2014. E o socialista Eduardo Campos, outro apoiador do atual prefeito, também começa a ganhar musculatura política, seja para um vôo solo ao Planalto, seja para ocupar a vaga de vice em uma das chapas, que pode ser até a de Aécio, numa dobradinha PSDB-PSB. Por isso, além de atrair o PMDB e o PSD, a presidenta comandou pessoalmente a entrada de Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte e ministro do Desenvolvimento, na campanha, removendo arestas no PT local. Pimentel era até pouco tempo desafeto de Patrus. Com uma vitória petista na cidade, Dilma conquistaria um palanque privilegiado e, ao mesmo tempo, prejudicaria dois possíveis rivais.

Um vestido para Dilma

No Brasil desde outubro de 2010, o embaixador do Iraque, Baker Fattah Hussen, não vê a hora de ser recebido pela presidenta Dilma Rousseff. Na audiência oficial, cuja data ainda depende de confirmação do Palácio do Planalto, Baker levará um longo vestido de seda colorido, bordado à mão com delicadas lantejoulas douradas. Trata-se de um traje de festa usado pelas mulheres curdas. Na avaliação de Baker, a história de superação curda no Iraque se assemelha com a de pessoas como a presidenta Dilma Rousseff, que pegaram em armas para enfrentar regimes ditatoriais. “Estou ansioso para entregar esse presente por tudo o que a presidenta representa”, disse o embaixador. O gesto seria impossível há uma década, quando os curdos eram considerados inimigos do regime iraquiano e quase foram exterminados. Em 1980, recém-formado em química, Baker sentiu-se obrigado a aderir à guerrilha, que começava a se instalar nas montanhas de Sulaimaniya, na região do Curdistão, norte do país. Pela sua formação, logo foi alçado ao topo da liderança da resistência, traçou estratégias com seus companheiros, enviou códigos cifrados por rádios clandestinas, lutou e conseguiu sobreviver a nove anos de luta armada. “Não queríamos a guerra, mas não havia diálogo. Os curdos analfabetos eram presos. Os que sabiam ler, degolados. Vilas inteiras foram destruídas. Minha mãe e meu irmão foram presos e eu precisei lutar para viver”, disse Baker.

Carta Capital

Aloprados e aloprados

Durante as investigações da Operação Monte Carlo, a Polícia Federal apreendeu um material que pode ser a pista para a compreensão de uma dos mais estranhos episódios da história política recente. Trata-se de gravações de uma conversa entre o ex-sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, e o jornalista Mino Pedrosa, ex-repórter da Isto É e hoje autor do siteQuidNovi, sobre o chamado “escândalo dos aloprados”, como ficou conhecida a suposta tentativa de compra de um dossiê contra o então candidato a governador de São Paulo José Serra (PSDB) em 2006.

Curiosamente, o material foi apreendido na casa de Adriano Aprígio de Souza, ex-cunhado do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Souza foi preso em julho pela PF, na esteira das investigações sobre o grupo. Ao analisar o material, a PF encontrou o grampo de uma conversa ocorrida em 2006 entre Dadá e Mino Pedrosa no qual o jornalista dizia ter informações sobre como o dossiê foi negociado. Dadá é apontado pela PF como araponga do grupo de Cachoeira.

O escândalo, que tumultuou as eleições daquele ano, eclodiu após um assessor da campanha de Aloizio Mercadante, candidato do PT ao governo paulista, ser pego ao entrar num hotel em São Paulo para supostamente comprar informações contra o adversário tucano. O material conteria documentos que ligariam o ex-ministro da Saúde à chamada máfia dos sanguessugas, como ficou conhecido o grupo investigado por desviar recursos da saúde.

Só mesmo no exterior…

Paulo Maluf, cidadão sempre a ostentar o fato de nunca ter sido condenado por crime algum no Brasil, está mais perto de ser julgado no exterior. A Corte Real de Jersey, reconhecido paraíso fiscal internacional, concluiu, na quinta 19, o julgamento de contas relacionadas ao ex-prefeito e ex-governador biônico de São Paulo (nos tempos da ditadura) e à sua família. O pedido de mais tempo para formular a defesa, protocolado pelos advogados da empresa Durant, da família de Maluf, foi rejeitado pelo juiz Howard Page. O julgamento, desdobramento do processo aberto pela Prefeitura de São Paulo para reaver 22 milhões de dólares supostamente desviados por Maluf em seus tempos de prefeito, pode acatar o repatriamento do valor aos cofres públicos paulistanos, supostamente resultado de desvios de verbas da construção da Avenida Água Espraiada, hoje Jornalista Roberto Marinho.

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