Nas revistas: A queda livre de um peso pesado

Época mostra que o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, retomou e ampliou um negócio apontado pelo Ministério Público Federal como o meio para receber propina nos anos 1990. Istoé traz reportagem sobre o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves

Época

A queda livre de um peso pesado

Ricardo Teixeira sempre pareceu inabalável. Em seus 23 anos à frente da Confederação Brasileira de Futebol, foi senhor absoluto sobre uma das maiores paixões dos brasileiros. O excesso de poder, entretanto, muitas vezes mascara falhas estruturais graves, como já descobriram grandes empresas (Pan Am, Enron, General Motors) e líderes nacionais (Muammar Khadafi, Hosni Mubarak, Silvio Berlusconi). Como um velho dique carente de manutenção, Ricardo Teixeira começou a exibir pequenas fissuras, inicialmente controladas à custa de amigos influentes. No último ano, as rachaduras tornaram-se mais profundas – e levaram à enxurrada de informações divulgadas na semana passada sobre o desejo de Teixeira de largar o osso a que sempre teve tanto apego. O que há anos parecia impossível assumiu tom de realidade nas conversas do mundo do futebol. Exatamente como no diálogo de dois veteranos de guerra no clássico O Sol também se levanta, de Ernest Hemingway, no qual um personagem pergunta como o outro foi à falência, e ouve a resposta: “De dois jeitos. Aos poucos e, depois, de repente”.

Nos últimos dias, de repente, mas aos poucos, o presidente da CBF falou a amigos sobre sua saída do cargo e do comando da organização da Copa 2014. A família Teixeira já está em Miami, nos EUA. Isso sugere uma mudança de ares. Aos 64 anos, Teixeira não pretende, porém, pendurar sua gravata. Segundo documentos obtidos por ÉPOCA, o mandachuva futebolístico já aponta para outra direção: consultorias e transações envoltas em suspeitas. Em 2011, revelam os documentos, Teixeira retomou e ampliou um negócio apontado pelo Ministério Público Federal como o meio usado por ele nos anos 1990 para receber, de uma agência de marketing esportivo europeia, US$ 9,5 milhões de propina.

Esse duto de dinheiro sujo chama-se RLJ Participações, de acordo com a Procuradoria da República uma empresa de fachada com endereço no centro do Rio de Janeiro. Durante 17 anos, não houve qualquer alteração contratual da RLJ na Junta Comercial. Em meados do ano passado, após novas denúncias de pagamento de suborno a Teixeira, ele voltou a investir na empresa, meses depois de a rede britânica BBC tê-lo acusado de receber propina. O esquema da RLJ foi mencionado pela primeira vez em 2001, pela CPI do Futebol no Congresso Nacional. Oito anos depois, durante o julgamento dos envolvidos em irregularidades na empresa de marketing suíça ISL, parceira da Fifa na década de 1990, foi revelado o pagamento de propina a dirigentes da entidade para a obtenção de contratos lucrativos. No final de 2010, alguns bois receberam nome. A BBC disse que Teixeira recebeu US$ 9,5 milhões de suborno da ISL. O pagamento, segundo a acusação, ocorreu por meio da empresa Sanud Etablissement, sediada na minúscula nação europeia Liechtenstein. A Sanud é sócia de Teixeira na RLJ Participações. Para o Ministério Público, a Sanud também pertence a Teixeira, algo que ele nega. Os documentos agora obtidos por ÉPOCA reforçam as suspeitas dos procuradores. Procurada, a assessoria de Teixeira negou haver qualquer “investigação ou acusação sobre recebimento de propina” em andamento.

Acarajés quentes no tabuleiro da “Graciosa”

Na Bahia, acarajé quente é sinônimo de bastante apimentado. Chamada de “Graciosa” pela presidente Dilma Rousseff na cerimônia de posse na última segunda-feira, a mineira radicada no Rio de Janeiro Maria das Graças Foster assumiu a presidência da Petrobras diante de um cardápio de problemas que inclui dois acarajés quentíssimos. Eles foram deixados sobre sua mesa por seu antecessor direto, o petista José Sergio Gabrielli, e referem-se a duas denúncias de desvio de recursos da empresa para irrigar campanhas do PT na Bahia, terra natal de Gabrielli. E é justamente lá onde o mais longevo presidente da Petrobras retomará a carreira política. Após seis anos e sete meses no comando da maior empresa da América Latina, Gabrielli fará parte do governo de Jaques Wagner (PT), onde pretende pavimentar sua candidatura ao governo do Estado em 2014.

Não há elementos que envolvam diretamente Gabrielli com as duas denúncias narradas a seguir. Mas os dois episódios ocorreram em sua gestão, e ele pouco ou nada fez para saná-los. O primeiro caso passa pela ONG Pangea – Centro de Estudos Socioambientais, sediada em Salvador. De acordo com documentos da Controladoria-Geral da União (CGU), a que ÉPOCA teve acesso com exclusividade, boa parte do dinheiro repassado pela Petrobras à Pangea foi desviada. A CGU suspeita de que parte desses recursos tenha ido parar no caixa dois de campanha do PT na Bahia. Indo aos valores exatos: entre junho de 2004 e dezembro de 2006, a Pangea recebeu R$ 7,7 milhões da Petrobras para dar assistência e organizar catadores de lixo em dez municípios baianos. Um pente-fino da CGU, órgão do governo encarregado de fiscalizar o uso de verbas federais, concluiu que não há comprovação de gastos para mais de R$ 2,2 milhões.

O outro acarajé quente para Maria das Graças Foster se chama Geovane de Morais, ex-gerente de comunicação da área de Abastecimento da Petrobras demitido por justa causa pela companhia no dia 3 de abril de 2009. Ligado ao grupo político de Gabrielli e do governador Jaques Wagner, o baiano Morais cometeu uma série de irregularidades. Ele extrapolou o orçamento de sua gerência. Sem licitação ou autorização formal, gastou cinco vezes o previsto em 2008, ano de eleições municipais. Seu orçamento era de R$ 31 milhões, e a despesa chegou a R$ 151 milhões. Houve pagamentos sequenciais e sem o amparo legal de contratos. Entre as empresas beneficiadas estavam duas produtoras de vídeo baianas que trabalharam para a campanha de Wagner em 2006 e para duas prefeituras petistas.

Istoé

O poderoso Henrique

Experiente por acumular o recorde de 11 mandatos consecutivos, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), tinha tudo para elevar o patamar das discussões políticas no Congresso, mas se especializou no caminho viciado do loteamento de cargos públicos. Atua, sem maior constrangimento, como portavoz do fisiologismo e sempre viu seus pedidos atendidos pelo Executivo.

Nas últimas semanas, porém, a maré parece ter começado a mudar. Depois de trombetear que Elias Fernandes não sairia do comando do Dnocs, o Departamento Nacional de Obras contra a Seca, teve de engolir a demissão de seu apadrinhado. Além disso, viu ameaçada sua candidatura à presidência da Câmara no ano que vem. “Se ele age assim na liderança do PMDB, imagine o que não vaifazer na presidência da Câmara?”, indagou a presidenta Dilma Rousseff a auxiliares. Mas Dilma terá muito trabalho se quiser mesmo limar de vez a influência de Henrique Alves. Hoje ele é um homem muito poderoso na Esplanada. Henrique Alves é apontado no governo como o maior padrinho de vagas no segundo escalão do governo federal. São atribuídas ao deputado quase 50% das nomeações feitas para contemplar o PMDB.

Metade delas consta da sua cota pessoalíssima e a outra parte é de apadrinhados dos amigos de Congresso, a quem também precisa agradar. O Planalto considera de responsabilidade direta de Henrique Alves a nomeação de quase 20 figuras que circulam pela Esplanada, entre eles o ex-deputado baiano Geddel Vieira Lima que ocupa a vice-presidência de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal. Geddel estreitou laços com Henrique Alves durante sua temporada à frente do Ministério da Integração, quando comandava o Dnocs, preenchido ao gosto do deputado potiguar desde aquela época.

Os reféns de Serra

No dia 1o de fevereiro, o PSDB divulgou um vídeo institucional exaltando a realização das prévias para a definição do candidato tucano à Prefeitura de São Paulo. Nas imagens, fundadores da sigla enalteceram a chance de poder escolher democraticamente o seu candidato e ainda criticaram o modelo adotado pelo PT, dizendo que o ex-presidente Lula atropelou a militância e usou sua influência para impor o nome de seu escolhido, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad. “O PSDB mais do que nunca se abre para a sociedade”, diz um dos participantes. Só que, ao mesmo tempo que a gravação era assistida por milhares de pessoas, cardeais tucanos já negociavam uma fórmula para contornar as prévias e definir o nome de José Serra como candidato do partido à prefeitura paulistana.

A principal negociação se deu a portas fechadas no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo. Para não se expor, Serra enviou como emissário o ex-vice-governador Alberto Goldman para o encontro reservado com Alckmin. Sem rodeios, segundo líderes tucanos ouvidos por ISTOÉ, foi apresentada uma lista com quatro condições de Serra para sair candidato. Em primeiro lugar, não ter de disputar a vaga com nenhum outro membro da sigla, o que na prática significa sepultar as prévias, marcadas para o dia 4 de março. Em segundo, apoio total do governador em sua campanha, atraindo partidos da base aliada e participando ativamente de atos públicos. Terceiro, liberdade para escolher o seu vice, o que na prática lhe dá a possibilidade de colocar alguém de confiança para que possa partir, em 2014, para outros projetos, como a Presidência da República. E, por fim, o controle da turbinada secretaria estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia.

Tudo pronto para o julgamento do século

Será realizado na primeira semana de maio o julgamento do mais rumoroso escândalo político da história recente do País. Com 38 réus, quase 50 mil páginas divididas em 233 volumes, o processo do mensalão do PT já está pronto para passar pelo crivo do plenário do Supremo Tribunal Federal. Os 11 ministros do STF já começaram a conversar sobre os procedimentos que serão adotados e o voto do relator Joaquim Barbosa está praticamente concluído, dependendo apenas de ajustes finais. A única pendência é o texto do revisor Ricardo Lewandowski, mas o ministro paulista diz que não pretende arcar com a responsabilidade de retardar um julgamento tão aguardado pela opinião pública. Sem esse obstáculo, a entrada do processo na pauta dependerá tão somente da vontade do próximo presidente do STF, Carlos Ayres Britto, que tomará posse em abril. Ele terá um mandato curto, de apenas sete meses, mas quer marcá-lo exatamente com o juízo final sobre os polêmicos mensaleiros. “Vamos definir prioridades. Casos de desvios de recursos públicos e que envolvem corrupção devem ter atenção especial”, afirma Ayres Britto.

Por se tratar do maior julgamento registrado nos anais do STF, o debate do mensalão vai exigir mudanças de procedimento, que já contam com a concordância dos ministros. A mais relevante é a que dá ao Ministério Público Federal mais tempo para acusar cada um dos réus. Observada a rotina, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, teria apenas uma hora para discorrer sobre as acusações que pesam contra o conjunto de denunciados. Seria um prazo escasso, o que vinha preocupando o procurador. Mantido esse entendimento, Gurgel teria no máximo dois minutos para acusar cada réu, enquanto os 38 advogados disporiam de uma hora para defendê-los individualmente. Como a divisão de tempo para a defesa e a acusação ficaria desigual, os ministros do Supremo já concordaram em conceder ao procurador as mesmas 38 horas às quais os defensores terão direito. A mudança é justa e equitativa, mas fará com que o julgamento leve ao menos três dias. Na previsão dos próprios ministros, o caso poderá ocupar a pauta do plenário durante todo o mês de maio.

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