Nas revistas: a armadilha de Eduardo Cunha

De acordo com Istoé, deputado peemedebista, que pode ser eleito líder do partido neste domingo, teria manobrado para transformar o Banco Nacional em credor da União, o que geraria um rombo de R$ 33 bilhões nos cofres públicos. Revistas destacam tragédia em Santa Maria

Istoé

A armadilha de Eduardo Cunha

O deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) conta as horas para a eleição deste domingo 3 que pode lhe garantir a liderança do partido na Câmara. No Palácio do Planalto, porém, a possibilidade de que o peemedebista conquiste mais poder é vista com temor. O motivo é que nos últimos três anos Cunha trabalhou de forma persistente para tentar viabilizar uma operação financeira que provocaria um rombo de mais de R$ 33 bilhões nos cofres públicos. A armadilha, conduzida longe das vistas do cidadão comum e de boa parte de seus colegas de Congresso, previa a quitação da bilionária dívida dos acionistas do Banco Nacional, extinto em 1995, com títulos podres, sem liquidez e de securitização incerta. Com a manobra, o banco passaria de devedor confesso à confortável condição de credor da União. Tudo isso à base da caneta de Cunha, que teria plantado emendas de contrabando – aquelas que são feitas sem discussão prévia dos parlamentares – em medidas provisórias.

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Por duas vezes, a presidenta Dilma Rousseff vetou os artigos das MPs para impedir a operação. As primeiras articulações começaram em 2009, quando Eduardo Cunha passou a defender a ampliação da Lei do Refis Tributário para instituições bancárias liquidadas. O alvo seriam os bancos resgatados pelo Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional) na década de 1990, especificamente o Banco Nacional. Cunha fez consultas ao Palácio do Planalto, sem sucesso. Propôs então uma emenda abrangente, instituindo o programa de parcelamento para devedores de autarquias e fundações. O texto foi inserido na Medida Provisória 472 pelo relator, o senador Romero Jucá (PMDB/RR), depois aprovado no Congresso e sancionado pelo Executivo.

O tucano indesejado

Qualquer partido que se pretenda vitorioso nas eleições deveria, antes de tudo, livrar-se de seus esqueletos guardados no armário. Sobretudo quando esses esqueletos são frequentemente relacionados a práticas políticas as quais a sociedade não tolera mais. Ao que parece, o PSDB almeja trilhar seu caminho até o pleito de 2014 orientado por este princípio. Atento ao calendário eleitoral, o partido vislumbra cortar na própria carne. O alvo é o deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Principal protagonista do mensalão mineiro – esquema semelhante ao escândalo petista, também tramado por Marcos Valério, de desvio de verbas públicas de estatais mineiras para financiamento de campanha –, Azeredo é réu no Supremo Tribunal Federal por peculato e lavagem de dinheiro.

A expectativa é de que o mensalão mineiro seja julgado em 2014. Mas, como os tucanos não pretendem ficar com essa pendência até a conclusão do caso, há um intenso movimento pela expulsão de Azeredo dos quadros partidários. A pressão é para que ele se afaste até o Congresso da legenda, que acontecerá em abril deste ano. “É um tremendo constrangimento”, afirma um tucano paulista. “O que o Azeredo fez lá atrás, os outros políticos não têm que pagar”, diz o deputado federal Nárcio Rodrigues (PSDB-MG), membro do diretório nacional da legenda.

A tolerância tem que ser zero

As cenas ainda estão vivas na memória de quem viu a lona do Gran Circo Norte-Americano sumir sob as chamas e matar 503 pessoas em Niterói, 70% delas crianças, em 1961. Da mesma forma, o incêndio que interrompeu a vida de 236 jovens em Santa Maria não terá sido esquecido daqui a 50 anos por quem testemunhou as cenas de horror na boate Kiss. A fumaça escura e espessa que tomou conta do ambiente. Os corpos inertes empilhados pela casa noturna. Os celulares das vítimas que tocavam sem parar, traduzindo a ansiedade de familiares por notícias. Um único aparelho recebeu 104 ligações.

O visor mostrava o autor das chamadas: mãe. Nada disso terá desaparecido da memória. A perplexidade e a tristeza permearam todas as conversas na semana passada. O Brasil se emocionou com a dor de cada pai e mãe que enterrou um, às vezes, dois filhos. Um dos sentimentos mais fortes, porém, foi o de indignação. De tão evitável, essa tragédia parece sem sentido, pois ela é resultado da soma de todos os erros, os mais banais e inaceitáveis. É a prova de que as pequenas irregularidades viram grandes tragédias. Por mais chocante, absurdo e intolerável, o holocausto gaúcho tem de ser transformador. As vítimas da Kiss devem ser cultuadas como mártires de um novo país, o da tolerância zero.

É Carnaval na Renanlândia

O Carnaval foi antecipado em uma semana no município de Murici, localizado a 40 quilômetros de Maceió (AL). Na sexta-feira 1o, o Senado Federal reconduziu seu filho mais pródigo, o senador Renan Calheiros (PMDB), a um papel de proa na política nacional. Com 56 votos, de um total de 78, o parlamentar alagoano foi alçado novamente à presidência do senado, seis anos depois de ter deixado o posto – o terceiro na linha sucessória da presidenta Dilma Rousseff – pela porta dos fundos, acusado de ter despesas pessoais pagas por uma empreiteira.

Novamente detentor de muito poder, Renan personifica um perfil de político que a sociedade não tolera mais, mas a quem Murici presta seguidas reverências. Lá, como diria Manuel Bandeira, é a Pasargada de Renan e de seu clã, a família Calheiros, onde eles são mais do que amigos do rei. São os verdadeiros reis e seu reinado se estende há pelo menos 17 anos. Desde 1996, quando o irmão do senador Renan, Remi Calheiros, recuperou as chaves da prefeitura, a família Calheiros e o PMDB não perdem uma eleição sequer no município. Comandam Murici com mãos de ferro e ainda desfrutam do amplo apoio dos súditos foliões.

Época

O futuro roubado dos jovens de Santa Maria

ragédias em que vidas são arrancadas de forma violenta – incêndios, desastres aéreos, acidentes rodoviários – marcam tristemente as épocas e os lugares em que ocorrem. Por muito tempo os brasileiros se lembrarão do incêndio da boate Kiss em Santa Maria – assim como as imagens do fogo destruindo o Gran Circo Americano, em Niterói (1961), ou o Edifício Joelma, em São Paulo (1974), ainda assombram os que viram tais catástrofes ao vivo ou pela televisão. A tragédia de Santa Maria teve um componente extra de crueldade: a maior parte de suas vítimas era muito jovem. Dos 235 mortos até o fechamento desta edição, 172 tinham menos de 35 anos. Entre eles, os irmãos Mirela Rosa da Cruz, de 21 anos, e José Manuel, de 18, que aparecem na reportagem da edição 767 – ela retrata também a tristeza dos que sobreviveram e têm de lidar com a dor da perda.

É uma dor que se propaga em ondas. Ao longo da semana, o país se solidarizou com os pais que viveram a provação mais terrível – enterrar seus filhos. Soa sempre absurdo quando vidas são abreviadas antes de realizar todo o seu potencial. Em parte por causa desse tipo de choque, artistas que morrem jovens – como o ator James Dean (morto aos 24 anos num desastre de carro), a cantora Amy Winehouse (aos 27, de overdose) e, no Brasil, a atriz Leila Diniz (aos 27, em desastre de avião) – se tornam mitos instantâneos. Fica a sensação de que eles teriam muito mais a criar em suas áreas. O que dizer então de jovens que ainda nem haviam iniciado sua vida profissional, aqueles que estavam na boate Kiss? Pode-se dizer que, de certa forma, seu futuro foi roubado na madrugada do dia 26 para o dia 27 de janeiro.

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