Mercadante ofereceu dinheiro para comprar silêncio de Delcídio, diz revista

Gravações obtidas pela revista Veja mostram conversas entre assessor do senador e o ministro. Mercadante oferece ajuda financeira e política ao senador para mantê-lo em silêncio

Uma nova revelação promete esquentar ainda mais o já movimentado momento político. Segundo reportagem da revista Veja, 0  ministro Aloizio Mercadante ofereceu ajuda financeira e política para comprar o silêncio do senador Delcídio do Amaral, cujo acordo de delação foi homologado hoje pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A oferta foi feita em conversas com o assessor do senador, José Eduardo Marzagão, que reuniu-se com o ministro em duas ocasiões e gravou os diálogos.

As gravações foram entregues pelo próprio Delcídio à Procuradoria-Geral da República. Em depoimento, o senador disse que o ministro agiu a mando de Dilma. "Me senti pressionado pelo governo", disse o senador aos procuradores. Com a revelação, o ex-líder do governo no Senado envolveu um ministro e a presidente no caso por tentativa de obstrução das investigações - mesma situação que resultou na sua prisão, em 25 de novembro.

Nas gravações obtidas pela revista, Mercadante oferece ajuda financeira à família de Delcídio e promete usar a influência política do governo junto ao Senado e ao STF para evitar a cassação e conseguir sua libertação. Em contrapartida, o ministro pediu para que o senador não "desestabilize tudo" com sua delação. Mercadante disse ao assessor que Delcídio deveria ficar "calmo", deixar "baixar a poeira" e não fazer "nenhum movimento precipitado".

Mercadante traçou algumas estratégias para conseguir evitar a cassação do mandato de Delcídio no Senado. Ao assessor, disse que procuraria o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), para tentar reverter a decisão tomada pelo plenário de manter a prisão do senador. Questionado por Marzagão sobre a validade da manobra, o ministro responde: "Em política, tudo pode".

A estratégia para obter a libertação de Delcídio junto ao STF também foi discutida. No diálogo, Mercadante diz que o presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski poderia libertá-lo por meio de uma liminar, durante o recesso de fim de ano do Judiciário. O ministro também levantou a hipótese de o Senado procurar o ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato na corte, para pedir a soltura de Delcídio. "Talvez o Senado possa fazer uma moção, a mesa do Senado, ao Teori, entendeu? Um pedido: olha, nós demos autorização considerando o flagrante, considerando as condições etc, mas não há necessidade pá, pá, pá - pá, pá, pá. E tentar construir com o Supremo uma saída", disse Mercadante.

Veja alguns trechos da gravação obtida pela revista Veja:

A proposta de silêncio

AM - O que é que tem que você acha que eu possa ajudar?

JEM - Ministro...

AM - De verdade. Tô falando assim. Eu tô aqui. Ó, eu falei: Eu não quero nem saber o que o Delcídio fez.

JEM - É.

AM - Eu quero... (inaudível) eu acho que ele devia esperar, não fazer nenhum movimento precipitado, ele já fez um movimento errado, deixar baixar a poeira, ele vai sair, a confusão é muito grande. Aí... entendeu?

JEM - Ministro, o problema é o seguinte.

AM - Pra ele não ser um agente que desestabilize tudo. Porque senão vai sobrar uma responsabilidade pra ele monumental, entendeu?

Ajuda financeira

AM - É o seguinte, eu me disponho, já te falei isso reservadamente, eu faço uma agenda no Mato Grosso do Sul, eu tenho que ir visitar uma universidade, um instituto... eu falo Maika, eu quero passar aí ...da outra vez ela fez um jantar pra mim... quando eu fui lá fazer uma agenda e ela fez um jantar na casa. Então, ó eu gostaria de passar aí, lhe dar um abraço e tal, se tiver espaço.

JEM - Só pra você ter uma ideia, eles estão vendendo a casa.

AM - Pra não ficar expostos.

JEM - Não, até pra...

AM - Arrecadar dinheiro.

JEM - Arrecadar dinheiro. Os carros, a casa. A fazenda, porque é da mãe e do irmão, então lá não vai mexer. Aliás, o irmão tá vindo aí pra tratar desses assuntos. Assuntos financeiros mesmo.

AM - Patrimônio da família.

JEM - Patrimônio, as dívidas que ele tem. Pra você ter uma ideia da situação dele, o salário dele tem consignado. O salário do Delcídio tem empréstimo consignado, que ele está pagando.

AM - Bom, isso aí também a gente pode ver no que é que a gente pode ajudar, na coisa de advogado, essa coisa. Não sei. Pô, Marzagão, você tem que dizer no que é que eu possa ajudar. Eu só to aqui pra ajudar. Veja o que que eu posso ajudar.

Ajuda política

AM - Eu conversei com vários senadores

JEM - Hã.

AM - Eu falei: vocês se acocoraram!

JEM - Foi.

AM - Ah, pô! Nós tínhamos feito um movimento com o Sarney, o Jader e o...

JEM - Renan

AM - ...o Renan e tal... Aí veio a nota do PT. Que nota do PT? Onde que o Rui Falcão agora dirige o plenário do Senado? ... é história... essa instituição tem quase 200 anos de história! Como é que vocês aceitam uma coisa como essa, gente! Porque isso vai ser um precedente.

JEM - Abriu uma porteira.

AM - Vai abrir a porteira. Então, vocês precisam repensar o encaminhamento. Talvez o Senado fazer uma moção, a mesa do Senado, ao Teori, entendeu? Um pedido: olha, nós demos autorização considerando o flagrante, considerando as condições etc, mas não há necessidade pá, pá, pá - pá, pá, pá. E tentar construir com o Supremo uma saída. Não pode aceitar isso. Eu acho que se a gente não for pelo jurídico, pelo político, pelo bom senso e deixar tudo pra ele que tá acuado, fodido, a família desestruturada, vai sair só bateção de cabeça. Porque eu posso tentar ajudar nisso aí no Senado. Vou tentar conversar com o Renan e ponderar a ele de construir uma, entendeu, uma moção...

Ajuda jurídica

AM - Eu vou tentar um parecer jurídico que tente encontrar uma brecha pra que o Senado se pronuncie junto ao Supremo com o pedido de relaxamento da prisão, porque ela não se justifica mais. Acho que esse é o caminho que eu vejo. Vou estudar e te dou o retorno de hoje pra amanhã.

JEM - Isso, porque o problema é que o dia D é terça-feira.

AM - Tá.

JEM - Porque se passar terça-feira e não sair, só no ano que vem.

AM - Não, não, mas o presidente vai ficar no exercício... também precisa conversar com o Lewandowsky. Eu posso falar com ele pra ver se a gente encontra uma saída. Mas eu vou falar com o ministro no Supremo também.

JEM - Complicado.

AM - Mas é o seguinte, eu não tenho nada a ver...o Delcídio... zero... não tô nem aí se vai delatar, não vai delatar, não tô nem aí... a minha, a minha questão com ele é que eu acho um absurdo o que aconteceu com ele. Primeiro pelo quadro que ele é, segundo pela cagada que não era necessária aquela exposição que ele teve, terceiro pela atitude das instituições e do partido (inaudível)... lava a mão, vira as costas, um cara totalmente... uma coisa covarde pra caralho, um absurdo. Na minha interpretação, de uma vingança até da... ele pode ter se excedido na CPI dos Correios, mas é evidente que ele segurou bronca pra caralho.

JEM - Vai saber.

AM - É, lógico que ele sabe. Não sei exatamente os detalhes, mas eu sei que ele fez o que era possível, prudente, coisas que não estavam comprovadas, que não eram sérias, mas, é isso aí... (inaudível)... a função era muito difícil a cobrança em cima dele...

Leia a reportagem completa da revista Veja

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