Membros da bancada da bala na Câmara apoiam intervenção no Rio, mas a consideram insuficiente

EBC

Até o final do ano, segundo o decreto presidencial, intervenção oferecerá cenas como esta da foto à população do Rio

 

Para o deputado, um dos principais articuladores, na Câmara, de temas como a revisão do Estatuto do Desarmamento e a redução da maioridade penal, Temer conta com a sorte ao decretar a intervenção. Fraga disse ainda que o sistema do crime organizado é facilitado por questões como a própria legislação penal.

"Se de certo, bem. Mas eu acho que, infelizmente, não tem como dar certo, uma vez que o grande problema não está sendo atacado. De que adianta prender e não manter preso? De que adianta efetuar operações se não tem trabalho de inteligência – e veremos várias operações, como já tiveram, em que emprega-se três mil homens e se apreende uma pistola? Não posso ficar contra [a intervenção], mas confesso que sou muito pragmático em dizer que o que vai se gastar com as operações, com as intervenções, poderíamos muito bem disponibilizar recursos e dar condições de trabalho para os órgãos estaduais", sugeriu.

Fraga também disse acreditar que o Exército vai para mais uma guerra em desvantagem. "Eles não foram trinados para isso. Não conhecem o modus operandi dos bandidos no morro, não conhecem as bocas, não sabem quem são os caras. Olha, eu vou te garantir uma coisa: se ele obtiverem sucesso, eles vão subir o morro, mas quem vai na frente é a PM", arrematou o parlamentar, dizendo não acreditar em morte de civis, mas manifestando preocupação com uma eventual abordagem, na imprensa, caso algum soldado mate alguém em confronto.

"Quero ver como vai ser a reação da imprensa... Quando um PM mata alguém, ave Maria!", finalizou Fraga.

Entusiasmo

Integrante da ala não radical da Frente Parlamentar da Segurança Pública, o deputado Alexandre Valle (PR-RJ) falou Congresso em Foco pouco depois da reunião de quase três horas que levou à mesa Temer e autoridades do executivo fluminense, do Exército e parlamentares do Rio de Janeiro no Palácio da Guanabara (sede do governo estadual). Ausente da cidade durante o carnaval, o que lhe gerou um noticiário desgastante nos últimos dias, o prefeito Marcelo Crivella (PRB) fez questão de receber Temer na Base Aérea do Galeão. Na reunião, Temer se posicionou entre o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), como se vê na foto abaixo.

Membro de um dos partidos mais fieis ao presidente, Alexandre Valle manifestou apoio integral à intervenção e relatou otimismo por parte de Temer. A única ressalva feita pelo deputado foi a de que a medida se realiza tardiamente. "Mas é melhor tarde do que nunca. Acho que o Rio de Janeiro precisa desse apoio federal!, resumiu o parlamentar, lembrando que, em 31 de maio do ano passado, se uniu a outros deputados da bancada fluminense e pediu ao então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, intervenção no estado.

 

Alan Santos/PR

Entre Pezão e Rodrigo Maia, Temer encabeça no Palácio da Guanabara reunião estratégica sobre a intervenção

 

"Já poderíamos ter evitado muitas mortes de pais de família, de crianças, de policiais desde aquela época. A gente recebe isso no Rio de Janeiro com muito bons olhos, mas esperamos que a intervenção se estenda não só para a cidade do Rio de Janeiro, mas para toda a Baixada, para toda a Costa Verde, para todo o interior do estado. Se não, a criminalidade vai migrar da capital para o interior", adverte Alexandre, rebatendo as críticas de que o modelo é equivocado, uma vez que o Exército não é treinado para enfrentar o crime nas cidades.

"Não tenho dúvidas de que o Exército já vem aprimorando sua inteligência há muito tempo. Vem desde a época das Olimpíadas [2016], passou pela Copa do Mundo [2014]... Quando o ministro Torquato [Jardim, da Justiça] fez aquela declaração, nós o chamamos na Câmara e ele disse que já estava sendo feito um monitoramento. Não tenho dúvidas de que a central de inteligência do Exército já tem este levantamento pronto para poder ir para a rua", concluiu, referindo-se à entrevista em que Torquato apontou a ligação de autoridades com o crime organizado e criticou a segurança pública do Rio. Como este site mostrou naquela ocasião, Rodrigo Maia reagiu com irritação à fala do ministro e o desafiou a provar o que dizia.

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Intervenção também na saúde

Médico de formação e outro integrante da frente parlamentar com perfil moderado, Alexandre Serfiotis (PMDB-RJ) disse à reportagem que, a despeito da controvérsia sobre o fato de o interventor ser militar, o exército tem legitimidade para conduzir a segurança pública do estado. "É a única solução para o estado do Rio de Janeiro", acrescentando que a bancada do Rio de Janeiro na Câmara já havia formalizado, há cerca de um ano, um documento solicitando a intervenção também na área da saúde. "Fui um dos poucos deputados que assinaram, na época, essa solicitação de intervenção federal na segurança e na saúde."

"O Rio de Janeiro é um dos estados que mais recebem recursos na saúde – excluindo a situação excepcional de ter seis hospitais federais e mais três institutos – e tem uma saúde que está completamente falida, quebrada. Horrível! Eu sou médico de profissão e atuo, ainda, atendo. A intervenção é a única saída. O Rio está uma vergonha!", lamentou o deputado.

Bancada poderosa

Dos quase 300 membros da bancada da bala (confira aqui a relação completa), 26 estão fora do mandato por cassação (caso de Eduardo Cunha, condenado e preso na Lava Jato) ou afastamento por motivos diversos, como nomeação em ministérios (como Sarney Filho, no Meio Ambiente, e Fernando Coelho Filho, em Minas e Energia) e secretarias estaduais (Clarissa Garotinho, no Rio de Janeiro) ou posse em executivos municipais (Manoel Júnior, vice-prefeito de João Pessoa, Paraíba).

Tão polêmica quanto numerosa, a bancada tem integrantes mais radicais quando o assunto é combate ao crime organizado e questões relativas à área criminal. Endurecimento de penas para menores, liberação do porte de arma para civis e mais poderes para polícias, entre outras demandas, são bandeiras constantes dessa ala mais radical. Nos debates na Câmara, seja em plenário ou em comissões temáticas, são constantes os confrontos verbais – alguns, quase físicos – com os deputados alinhados aos direitos humanos, contrários à redução da maioridade penal e o armamento, por exemplo.

Outra característica da ala mais radical é o patrocínio de empresas de armamento e munição, que realizavam sistematicamente doações de campanha para deputados escolhidos a dedo. Cruzamento de dados dispostos no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com as declarações de doadores, obrigação dos parlamentares, demonstravam o poder de fogo do grupo, em financiamentos milionários que depois se revertiam em projetos aprovados para beneficiar a indústria da bala. Tal relação eleitoral foi inviabilizada, ao menos publicamente, com a proibição das doações privadas, segundo entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro de 2015.

 

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