Márcia Cavallari: “Pesquisa não é infalível”

Diretora do Ibope diz que poder de pesquisas de intenção de voto não pode ser superdimensionado e que desvios em relação aos resultados apurados mostram que eleitor não se deixa influenciar

Estatística formada pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado em Ciência Política focado em pesquisas de opinião pública pela Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, Márcia Cavallari Nunes trabalha há 30 anos no Ibope. Executiva do Ibope Inteligência, ela avalia que há exagero no papel dado às pesquisas de intenção de voto no Brasil. “Pesquisa não dita a última palavra, não é infalível, não é verdade absoluta. Tem de ser colocada no lugar dela”, afirma.

Para ela, as divergências entre as pesquisas e o resultado das eleições têm um lado positivo. “Esses desvios ajudam a mostrar para o político que o eleitor não pensa em votar só em quem está na frente. A lógica do eleitor não é essa que o político está pensando”, observa.

Na avaliação dela, o eleitor brasileiro – que ficou mais de 20 anos sem votar por causa da ditadura militar – acostumou-se a ir às urnas, não se empolga mais com as eleições e deixa para decidir na última hora, o que dificulta o trabalho dos institutos de pesquisa.  “As pesquisas de véspera não podem ser comparadas com o resultado oficial porque há um número significativo de pessoas que não estavam com voto consolidado. O acertar é muita sorte.”

Leia a íntegra da entrevista:

Congresso em Foco – Como o Ibope avalia o desempenho de suas pesquisas nestas eleições? Houve mais erros que nas eleições anteriores?
Márcia Cavallari –
O desempenho do Ibope foi no mesmo nível de outros anos. São várias maneiras de avaliar. A nossa avaliação difere da que vocês fizeram.  Entre os dias 5 e 7 de outubro, a gente fez estimativa para mais de 400 candidatos em 52 municípios, inclusive as 11 bocas de urna. Conseguimos prever 95% dos votos corretos do primeiro turno, entre os dias 5, 6 e 7. É o mesmo índice de 2008. Não houve diferença na performance. É importante deixar claro que pesquisa não é infalível, não dita a última palavra. Senão, nem precisava de eleição. É uma informação a mais que o eleitor tem em meio a tantas outras para a tomada de decisão.

Onde o Ibope reconhece que errou na boca de urna?
Em Curitiba, não conseguimos apontar o segundo candidato, porque não captamos a velocidade de recuperação dele. A gente ficou um ponto fora da margem de erro. Mas a gente falou que ia ter segundo turno. Em Salvador, a gente mostrou na campanha todas as tendências que foram captadas corretamente. ACM Neto (DEM) começou na frente e depois houve ascensão de Nelson Pelegrino (PT) até 27 de setembro. A partir dali mostramos os dois em empate técnico. As pesquisas do dia 6 de outubro estavam no limite da margem de erro, que era de 4 pontos. Na pesquisa de boca de urna, ficou fora da margem de erro e os candidatos ficaram em posição invertida. A apuração mostrou que foi uma disputa muito acirrada entre os dois, a diferença foi mínima. Mas, em Salvador, a gente não teve essa precisão. Em Manaus, a hipótese é a questão de a abstenção ter uma clivagem diferenciada, que acabou superestimando a Vanessa Grazziotin (PCdoB). Essa diferença foi pulverizada entre os demais candidatos. Foi um pouquinho para cada um. Como eram vários candidatos, ficou concentrado nela.

Vai haver uma atenção redobrada nessas capitais no segundo turno?
Manaus e Salvador são os casos mais preocupantes por causa da validação da amostragem. Vamos ter um olhar mais crítico nessas cidades. Na verdade, vamos olhar bem em todas que tiverem segundo turno. Mas tem uma variável que nos ajuda agora que é o resultado da amostra.  O segundo turno é sempre mais fácil que o primeiro, porque a indecisão não é tão grande. São só dois candidatos. Não fica se arrastando. No primeiro turno, nossa média histórica de acertos é de 95%; no segundo, de 98%, 100%.

Por que o Ibope não conseguiu apurar, mesmo na boca de urna, a ida de Gustavo Fruet (PDT) ao segundo turno em Curitiba?
Esse fato do Fruet, que ficou fora da margem de erro, a gente apontou a recuperação dele. Em Curitiba, a disputa começou com um triplo empate. Ao longo da campanha, Fruet foi perdendo espaço e houve uma polarização entre o Luciano Ducci (PSB) e o Ratinho Júnior (PSC). Na reta final, a gente viu a recuperação dele. Mas a pesquisa da véspera não viu a velocidade da recuperação. Nenhuma pesquisa tem precisão para buscar essa diferença de 4 mil votos. Na pesquisa da boca de urna, divulgamos 29 a 24, nossa margem estimada era de 2 pontos percentuais. O máximo que poderia ser era uma diferença de 4 pontos. A distância estava dando 5. E o índice do Ducci ficou um ponto fora da margem de erro. Na véspera da votação, 19% dos entrevistados em Curitiba não citavam o nome de qualquer candidato na estimulada, menos que em São Paulo, mas um índice ainda elevado.

Em algumas capitais, como Goiânia e Porto Alegre, mesmo acertando o resultado, a boca de urna ficou fora da margem de erro. Por quê?
Em Goiânia, o Jovair Arantes (PTB) teve 14%. Na boca de urna, aparecia com 18%. Na véspera, a gente superestimou a votação dele. Ele tinha 17%, com margem de erro de 3 pontos. Houve um movimento de indecisos. Em Goiânia, 31% não diziam, na véspera, em quem votariam na espontânea. Em Porto Alegre, também teve aumento do Fortunati (PDT). Também lá 17% não citavam candidatos na véspera. Em Porto Alegre, só divulgamos pesquisa até o dia 5, ou seja, até sexta-feira. Não pegamos o impacto do debate do dia 4 da TV RBS. Nosso campo de pesquisa foi até meio-dia de sexta-feira. Em Fortaleza ficamos dentro da margem. Teve crescimento do Elmano Férrer (PT) no último momento. Desde a primeira pesquisa, víamos a queda do Moroni Torgan (DEM). Em determinado momento, Roberto Cláudio (PSB) e Elmano começaram a disputar em empate técnico.

Que especificidades o Ibope constatou nas eleições deste ano?
Uma eleição municipal é muito mais dinâmica e volátil. As mudanças, quando acontecem são mais rápidas, bruscas e intensas, muito diferente do que ocorre em eleição para governador ou presidente, em que há um universo muito maior. No município, o universo é menor e as reações a fatos da campanha são muito mais rápidas. Constatamos, especialmente nas eleições deste ano, que o eleitor está decidindo o voto cada vez mais tarde, isso é uma tendência.

Por quê?
Como o exercício do voto passou a ser rotina a cada dois anos, não há mais aquela novidade. Virou algo incorporado à vida do cidadão. Desde 1992 passamos a votar mais frequentemente. O eleitor vai vendo o que acertou e o que errou. Com esses erros e acertos, ele foi retardando a sua decisão de voto para não errar novamente. Decepções fazem com que o eleitor reveja sua decisão para não errar mais. Nas pesquisas deste ano a gente observou um número muito elevado de pessoas que, às vésperas das eleições, não mencionavam, na pesquisa espontânea, o nome do candidato.

Onde isso ocorreu de maneira mais acentuada, por exemplo?
São Paulo é exemplo clássico dessa volatilidade. Na pesquisa que divulgamos na véspera da votação, com empate triplo, 30% das pessoas não declaravam, na pesquisa espontânea, em quem votariam. Na espontânea, é um voto mais firme, que se aproxima do voto estimulado. O eleitor já está ligado na eleição, já sabe quem são os candidatos. No começo, esse índice de quem não fala vai diminuindo. Mas nesta eleição isso não ocorreu. Se 30% não citam candidato, demonstra-se uma volatilidade muito grande, porque ele pode ir para qualquer lugar. Não é um voto consolidado.

Isso ocorreu na maioria das capitais?
Na pesquisa espontânea, metade das capitais tinha índice de não citação de candidatos 34% maior que em 2008, na mesma época do ano. Essas capitais podiam ser divididas em três grupos: onde havia disputa muito acirrada, onde havia um líder isolado bem na frente, e onde estavam acontecendo viradas ou mudanças em processo de consolidação. Nas acirradas, podemos citar São Paulo, Curitiba, Recife e Manaus. Nas capitais onde havia virada, estavam Salvador, Campo Grande e Palmas. Nas lideranças isoladas, Vitória e Goiânia. No Rio, o índice de indecisos era próximo do de 2008. Sem consolidação de votos, essas podiam decidir qualquer hora.

Por que há a percepção de que as pesquisas erram tanto?
Cada vez mais as pesquisas têm de ser interpretadas como diagnóstico do momento. São uma fotografia do momento. A sequência dessas fotografias vai montando um filme, com as tendências. Quando a gente divulga a pesquisa da véspera, não significa que o processo de consolidação de voto se congela, que ninguém muda mais. Quando você pega a série histórica das pesquisas e olha os resultados do TSE, parece que o resultado do TSE é um ponto a mais, por causa da tendência. Parece que há uma continuidade. As pesquisas de véspera não podem ser comparadas com o resultado oficial porque há um número significativo de pessoas que não estavam com voto consolidado. O acertar é muita sorte. A gente pesquisou no dia 1º de outubro, em Uberlândia. E o resultado da pesquisa foi o mesmo da eleição. Não houve nenhuma mudança para impactar. Outras disputas são mais nervosas e voláteis.

Mas por que, mesmo na boca de urna, nem sempre a pesquisa confere com o resultado da eleição?
Em Belo Horizonte a boca de urna do Ibope previu 97% dos votos. Em São Paulo, 97,2%. Em Curitiba, apesar de o Fruet ter ido para o segundo turno, todas as tendências foram captadas. Culminou que foi uma diferença muito pequena dos dois. Em Recife, acertamos 96,5% dos votos. A boca de urna ajuda a enxergar para onde foram os indecisos. Ela serve para ajustar a última pesquisa divulgada quando havia muita gente com decisão não consolidada. Ela pode não refletir os resultados das urnas por várias razões.

Quais são essas razões?
Na boca de urna, a gente usa amostragem por escolas. Vou lá e faço pesquisa das 8h30 até as 14h30. Até as 17h, consolidamos os resultados. Por que elas podem não prever 100% dos votos corretamente? Primeira hipótese, a questão das escolas. O sorteio das amostras de escolas pode não ser tão representativo do conjunto. Caiu uma escola a mais numa área em que um candidato foi melhor que outro. Para o segundo turno, facilita, porque consigo ver se a amostra foi boa ou não. Antes, não sei como ela é. Respeita-se a proporção de eleitores por região, mas pode haver uma diferença, conforme a escola. Segunda hipótese, há risco de não conseguirmos entrevistar ou haver recusas de entrevista de um perfil de eleitor de determinado candidato. Podem ocorrer recusas não distribuídas proporcionalmente entre os candidatos, e um candidato acaba prejudicado pelo tipo de eleitor. A terceira hipótese é a própria abstenção. Em Manaus, por exemplo, a gente via clivagem social entre os dois candidatos. O Arthur Virgílio Neto com candidatos mais escolarizados e de maior renda. A gente nunca tem perfil da abstenção. Se há abstenção que não se distribui de maneira igual, pode haver diferença.

As pessoas perderam interesse pelas eleições?
Talvez a eleição esteja começando a virar rotina na vida da sociedade brasileira, perdeu-se aquele glamour de votar pela primeira vez. Na véspera das eleições, metade falava que tinha pouco ou nenhum interesse pela eleição. Se somarmos brancos e nulos, a gente tem um terço do eleitorado não se manifestando. Não sei se a gente caminha para democracias mais maduras, com o voto não obrigatório. Mas vai chegar o tempo que vai haver maturidade dessa discussão por causa dessa falta de interesse, pelo tempo que os cidadãos dedicam à democracia, e sua participação.

Que peso têm as pesquisas na decisão do eleitor?
Quando há esses desvios, vê-se que a pesquisa não influencia o voto do eleitor. Se todos votassem de acordo com a pesquisa, quem começasse na frente acabaria na frente. A gente vê muita variação. Quando a pesquisa não consegue prever corretamente mostra também que o eleitor não se deixa influenciar dessa maneira. Claro que tem influência no ânimo da militância, com o espaço que a mídia dá, as coligações que são feitas, mas o eleitor não é assim. Não vota porque a pesquisa é assim. Ele usa a informação para a tomada de decisão, junto com outras informações.  

Mas o Ibope não considera erro esses casos que ficaram fora da margem de erro, mesmo na boca de urna?
Por que não faço avaliação pela margem de erro? Primeiro, porque toda pesquisa por amostragem, como você não está entrevistando todo mundo, ela tem margem de erro por ser amostral. Isso é inerente ao processo, sempre há risco de tirar amostra que não é tão representativa do universo. O erro amostral serve para fazer estimativas, não em número absoluto, para mostrar que esse resultado está entre tanto e tanto. É o intervalo de confiança, ou seja, o número em que a pesquisa deveria estar inserida. Com margem de erro de 95%. Se eu fizesse 100 pesquisas, 95 estariam dentro dela. Algumas vão ficar fora. Não tem jeito.

Qual é o grande complicador na definição da margem de erro?
A legislação manda os institutos registrarem a margem de erro cinco dias antes da divulgação da pesquisa. A gente faz uma estimativa. A única maneira de calcular a margem de erro é a amostra aleatória simples. Mas a gente usa amostra de conglomerados. O erro amostral não é o mesmo de todos os candidatos. Cada um tem um erro associado, porque depende do tamanho da amostra e da distribuição entre os candidatos. Em 1989, quando disputavam Brizola e Lula para ver quem ia para o segundo turno com Collor, Brizola e Lula vinham com 16% ou 17%. Só que Lula vinha com esse percentual do país inteiro. Brizola vinha com indicadores expressivos do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. Por ser uma distribuição mais homogênea, a do Lula tinha margem de erro menor que a do Brizola.

Como é definida a margem de erro?
Na amostra aleatória simples, é como se tivesse lista de todos os eleitores e sorteasse cada um. Nesse caso, cada um pode estar num canto da cidade. Seleciono os nomes que vão estar na minha pesquisa. Os institutos não usam esse método porque são pesquisas muito caras e dispersas. O modelo utilizado é outro, o de amostragem por conglomerados. Num conglomerado, são pesquisados geralmente setores ou quarteirões, um conjunto maior. Em vez de fazer entrevista em cada lugar, sorteio um setor censitário e faço sete entrevistas. Estou conglomerando minha amostra, isso já aumenta meu erro amostral em relação à amostra aleatória simples. Na boca de urna, por exemplo, nossa conglomeração é de 100 entrevistas por escola, faço 50 de manhã e 50 à tarde. Na boca de urna em São Paulo, selecionamos 60 escolas de manhã e 60 à tarde. Na metodologia normal, a gente faz sete pesquisas por setor censitário, com espalhamento muito grande. Na boca de urna, não precisa ter esse espalhamento porque todo mundo está votando.

No Congresso, há iniciativas para limitar a divulgação das pesquisas às vésperas da eleição. O argumento utilizado é de que elas podem ser manipuladas e influenciar no resultado da votação. Que avaliação a senhora faz desse tipo de proposta?
Ter acesso à informação faz parte da democracia, não tem volta. Quanto mais informação o eleitor tiver, melhor. É um direito do cidadão. Não pode haver ninguém para tutelar se ele usa ou não esse direito. Vamos pensar no exemplo de São Paulo. Se a gente não pudesse divulgar, ninguém ia saber dessas fotografias que geraram um filme, que o Russomanno cresceu, liderou e depois começou cair. Quem saberia? Só os políticos. Eles comprariam as pesquisas, como já fazem, para montar estratégia de campanha. É certo só eles terem? Ou a sociedade deve ter informação para acompanhar e decidir? Brecar informação é um caminho não democrático, é um retrocesso, é censura.

O efeito das pesquisas na votação é superestimado?
Concordo que a pesquisa tem de estar no lugar dela. Isso tem melhorado. Anos atrás parecia que a cobertura política de um veículo de comunicação era fundamentalmente só a divulgação da pesquisa. Ela não dita a última palavra, não é infalível, não é verdade absoluta. Tem de ser colocada no lugar dela. Esses desvios ajudam a mostrar para o político que o eleitor não pensa em votar só em quem está na frente. A lógica do eleitor não é essa que o político está pensando.

Essa velocidade com que as informações correm hoje, com a internet, também dificultam as pesquisas?
Complica, porque a velocidade da comunicação é muito grande. La atrás, antes da internet, quando íamos fazer pesquisa para governador, a gente começava do interior para a capital, porque, se tivesse algum fato novo, a capital reagiria mais rapidamente do que o interior. Hoje não dá mais para fazer isso. É tudo simultâneo e muito rápido. Está cada vez mais complexo esse ambiente onde a gente tenta informar eleitor.  A internet muda completamente o limite do mundo online e offline, não há mais limite entre um mundo e outro.

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