Mais concentrado do que suco

Quinze empresas comercializam suco de laranja no mundo, e apenas duas respondem por 65% das exportações brasileiras do produto

Tarciso Nascimento

O mercado de laranja é dos mais concentrados do mundo. Cerca de 90% dos laranjais se situam em apenas dois lugares: no Brasil e nos Estados Unidos. Essas regiões vendem a sua produção para apenas 15 empresas que comercializam o suco em escala mundial. Entre as empresas, destacam-se a Dreyfus, a Citrovita, a Cargill, a Coimbra, a Cutrale e a Citrosuco. As duas últimas, por exemplo, dominam 65% das exportações brasileiras de suco e disputam a liderança do mercado palmo a palmo.

Após a morte em 1988 do ex-presidente da Citrosuco, Carl Fisher, a empresa foi perdendo aos poucos a condição de líder do setor para a Cutrale, do empresário José Cutrale Júnior. Em 2000, a Citrosuco deu início a uma estratégia destinada a retomar a liderança. Naquele ano, o empresário Ricardo Ermírio de Moraes se casou com uma das herdeiras do grupo e passou a dirigir a empresa.

À frente da Citrosuco, Ricardo promoveu uma brutal guerra de preços com a Cutrale. Pagava quantias mais altas para os produtores. A decisão quase quebrou a empresa. Com o confronto, segundo analistas do mercado, a Citrosuco perdeu cerca de R$ 1,5 bilhão.

Ricardo Ermírio foi destituído do cargo de presidente. Em seu lugar, assumiu Norberto Farina, que recebeu orientação da família para fazer as pazes com a Cutrale. A investida deu tão certo que, em 2002, as duas empresas compraram juntas a operação do grupo Cargill e repartiram plantações e fábricas de processamento entre si.

Juntas, elas dominam quase 70% de toda produção nacional para o mercado externo. O próprio deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP), que vende toda sua produção para a Citrosuco, apresentou requerimento, no ano passado, para a realização de uma audiência pública a fim de discutir a formação de cartel e a manipulação de preços por parte das grandes indústrias de suco de laranja (leia-se Cutrale, Citrosuco, Coimbra, Cargil e Citrovita).

Em pronunciamento no plenário da Câmara, em 2000, Marquezelli já demonstrava preocupação com a questão e fazia duras críticas à Cutrale, então concorrente da Citrosuco, empresa parceira do deputado. “O governo brasileiro e a liderança do setor continuam dormindo, enquanto o senhor Cutrale & Cia estão engordando os bolsos em dólares, na maior concentração de renda jamais vista no Brasil”, afirmou.

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