Mabel defende-se: procurador “agiu sem cautela”

Mabel garante não ter qualquer envolvimento com o golpe da creche

Cinco dias depois de receber pedidos de esclarecimentos do Congresso em Foco sobre a abertura do inquérito 3421 no Supremo Tribunal Federal (STF), o deputado Sandro Mabel (PMDB-GO) afirmou nesta terça-feira (3) que irá conversar com membros do Ministério Público que o investigam no caso do “golpe da creche”. Em nota, o parlamentar disse que pediu uma audiência com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que irá pedir a produção de mais provas antes de decidir se denuncia ou não o deputado. Mabel ainda afirmou que o procurador da República Bruno Calabrich agiu sem cautela ao afirmar que ele, “naturalmente” sabia da contratação de funcionário fantasma em seu gabinete dentro do esquema investigado. Inquérito da Polícia Federal encontrou indícios de que Mabel foi “o responsável” pela contratação do pasteleiro Severino Lourenço dos Santos Neto como servidor fantasma do gabinete e cujos salários e benefícios foram parar nos bolsos do ex-motorista do deputado e de pessoas ligadas ao parlamentar.

Foi o parecer de Calabrich que resultou no envio do caso para o Supremo.

Mabel investigado no STF no caso do golpe da creche
Para procurador, Mabel sabia do “golpe da creche”

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Mabel afirmou que está tentando contato com Calabrich porque entende que uma das conclusões de seu parecer ignorou um requisito exigido de “todos aqueles que lidam com vidas”. “Ao afirmar que: o parlamentar ‘naturalmente’ sabia que o pasteleiro estava sendo contratado não para que trabalhasse no gabinete, mas para que seu salário fosse desviado para outros propósitos, é preciso ter a devida cautela, um pré-requisito básico para todos aqueles que lidam com vidas”, disse o deputado, na nota enviada ao site nesta terça-feira.

Na nota, ele disse que sempre colaborou com as investigações desde 2009, quando elas foram iniciadas pela Polícia Legislativa da Câmara. Mabel lembra que o Congresso em Foco noticiou o fato de até hoje não estarem prontos os laudos para periciar suas assinaturas – inclusive na nomeação do pasteleiro fantasma. “O deputado volta a afirmar que esses exames são essenciais para comprovarem que sua assinatura foi falsificada.”

Mabel diz que, por princípio, jamais se aproveitaria do “golpe da creche” para obter “alguns reais mensais” e até porque é um empresário bem sucedido e dono de um dos cinco maiores patrimônios do Congresso. O deputado foi dono da indústria de alimentos Mabel, que, segundo o portal IG, foi vendida por R$ 800 milhões ao grupo Pepsico no ano passado.

Contradição

O deputado chega a se contradizer ao afirmar que não se pronunciará sobre o caso por entender que “nada mudou” desde 2009. As duas reportagens do Congresso em Foco trazem ao menos quatro novos fatos: o novo depoimento da chefe de gabinete de Mabel, Maria Solange Lima; as conclusões do procurador Bruno Calabrich; a decisão da juíza da 12ª Vara Federal, Pollyanna Kelly, e a avaliação do procurador Roberto Gurgel sobre as provas que chegaram às suas mãos no inquérito 3421.

É exatamente depois do noticiário do site que o deputado anuncia o pedido de audiência com Gurgel e com Calabrich, de quem critica o parecer apresentada à Justiça.

Entretanto, na nota o parlamentar não faz nenhum comentário sobre o novo depoimento da sua chefe de gabinete, Maria Solange Lima, revelado nesta terça-feira (3), em que ela afirma que o motorista Francisco José Feijão de Araújo, o Franzé, lhe relatou que o próprio Mabel acertou com ele a contratação do pasteleiro Severino.

Também não comenta a decisão da juíza Pollyanna Kelly, remetendo o caso para o Supremo por enxergar “indícios” de participação do parlamentar.

Trinta suspeitos

Mabel chega a dizer que este site noticia “apenas dois casos” do “golpe da creche” o que, para ele, fere os princípios da ética jornalística e transparência com os leitores. Não é verdade.

Somente Mabel e o ex-deputado Raymundo Veloso (PMDB-BA) solicitaram exames periciais em suas assinaturas por entenderem que elas foram falsificadas na modalidade mais complexa do golpe. Mesmo assim, o site mostrou a existência das outras formas do golpe, informando que “os acusados nem sempre tinham ligação entre si ou agiam sob subordinação uns aos outros”.

As reportagens mencionadas destacam o desenrolar do caso em outras frentes, como os processos abertos na 10ª e 21ª Varas Federais que denunciaram servidores e donos de escolas particulares em Brasília.

Mabel disse que só foram noticiados “dois casos”. Não é verdade. No início da cobertura do golpe, em 2009, o Congresso em Foco revelou o envolvimento de três gabinetes: Mabel, Veloso e Ênio Tatico. No terceiro caso, pelo que se sabe, não houve assinaturas do deputado em nomeações, apenas o golpe na modalidade de fraude simples no auxílio-creche e no vale-transporte. A investigação dos policiais não avançou em relação a Tatico.

A série de reportagens do site ainda mostrou detalhes das investigações restritas ao vale-transporte, revelando ainda a existência de mais de 30 suspeitos.

Mabel diz na nota que a fraude “atingiu diversos gabinetes”. O Congresso em Foco noticiou que havia 30 suspeitos e que o caso estava ligado ao gabinete de três deputados – e não de “diversos”, como Mabel diz na nota –: Sandro Mabel, Raimundo Veloso e Tatico – este último sem avanços na investigação. Entretanto, se existir envolvimento de mais parlamentares, o site gostaria de obter de Mabel os nomes e o grau de envolvimento deles para continuar a noticiar tudo o que for de interesse público.

Esclarecimentos anteriores

A assessoria do deputado chegou a dizer que o site afirmara no texto que ele era “indiciado”. Na verdade, as reportagens relatam que ele é “investigado” no inquérito 3421 no STF.

Mesmo sem receber esclarecimentos do deputado antes da publicação das reportagens, o site colocou explicações anteriores prestadas por ele para contextualizar melhor o assunto.

Leia trechos da nota de Mabel

Em relação às notícias veiculadas no “Congresso em Foco”, o Deputado Sandro Mabel afirma:

Desde 2009 o Deputado colabora com todas as investigações com depoimentos à Polícia Legislativa e pedidos oficiais para que todos os fatos sejam apurados. Com base nisso, Sandro Mabel não pretende se pronunciar por entender que, desde então, nada mudou.

Os exames grafotécnicos, como o próprio Congresso em Foco apurou, foram solicitados há dois anos e até hoje nada foi feito. O Deputado volta a afirmar que esses exames são essenciais para comprovarem que sua assinatura foi falsificada. Ele lamenta que esta prova tão essencial ainda não foi providenciada.

O “Golpe das Creches” foi um golpe aplicado por pessoas de má fé e atingiu diversos gabinetes. O fato do Congresso em Foco noticiar apenas dois casos nos causa estranheza e fere os princípios da ética e da transparência jornalística que tanto prezamos numa democracia.

O Deputado Sandro Mabel é um empresário bem sucedido, detentor de um dos cinco maiores patrimônios entre os Deputados Federais (fonte: Congresso em Foco) e por princípios jamais se sujeitaria a tal “falcatrua” para ter um benefício de alguns reais mensais.

Por último, o Deputado já pediu uma audiência com o Procurador Geral da República, Antônio Gurgel para que ele dê mais celeridade ao Processo e para que os responsáveis sejam punidos. Mabel também busca contato com o Procurador da República Bruno Calabrich, por entender que ao afirmar que: o parlamentar “naturalmente” sabia que o pasteleiro estava sendo contratado não para que trabalhasse no gabinete, mas para que seu salário fosse desviado para outros propósitos, é preciso ter a devida cautela, um pré-requisito básico para todos aqueles que lidam com vidas.

Saiba mais sobre o Congresso em Foco (2 minutos em vídeo)

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