Limite a endividamento da União volta à discussão no Senado

Dívida terá restrição em relação à receita corrente líquida, a exemplo do que ocorre com estados e municípios. Projeto de resolução compõe Agenda Brasil, conjunto de propostas anticrise

De forma semelhante ao que é exigido de estados e municípios, a dívida consolidada da União poderá ser limitada, em uma relação com a receita corrente líquida. A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) colocou na pauta da reunião desta terça-feira (20) o Projeto de Resolução do Senado (PRS) 84/2007, que estabelece um período de transição de 15 anos para que a administração pública federal tenha um controle maior sobre seu endividamento.

O projeto — que integra a Agenda Brasil, conjunto de projetos para alavancar o crescimento econômico e aumentar a segurança jurídica — foi apresentado em 2000, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso encaminhou ao Congresso duas propostas de limites para os montantes das dívidas dos entes da Federação: uma para a União e outra para estados, Distrito Federal e municípios.

No relatório aprovado na Comissão Especial de Desenvolvimento Nacional, e que agora está na pauta da CAE, o senador José Serra (PSDB-SP) lembrou que parte da mensagem presidencial transformou-se na Resolução do Senado Federal 40/2001, que define os limites globais da dívida pública consolidada e da dívida pública mobiliária dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.

De acordo com Serra, ficou pendente a edição de resolução sobre as dívidas consolidada e mobiliária da União. Essa parte foi convertida no PRS 84/2007, não aprovado na época. O senador paulista explicou que, 15 anos após a publicação da Lei de Responsabilidade Fiscal, a União continua sem um limite global para sua dívida.

Serra apresentou um novo texto em substituição ao original do PRS 84/2007, prevendo que, no fim do período de transição de 15 anos, a dívida bruta não poderá exceder 4,4 vezes a receita corrente líquida (RCL). Ao mesmo tempo, a dívida líquida não poderá ser superior a 2,2 vezes a RCL.

— Essa foi uma alteração no projeto original, que só previa limite para a dívida líquida. A razão para abranger também a dívida bruta está na utilização, nos últimos anos, da chamada "contabilidade criativa" — observou.

Serra explicou que a "contabilidade criativa" designa operações entre instituições financeiras controladas pela União e o Tesouro para financiar despesas, sem que isso apareça nas estatísticas de dívida líquida. Por isso, ele usou como parâmetro para a limitação também a dívida bruta, em que aparecem, por exemplo, as operações com os bancos públicos federais.

Relações obscuras

O segundo motivo para impor limite à dívida bruta, conforme Serra, está nas "obscuras relações patrimoniais" entre o Tesouro e o Banco Central. Ele disse ter observado nos últimos anos um expressivo aumento da colocação de títulos públicos no mercado, pela instituição, por meio das chamadas "operações compromissadas" — empréstimos tomados pelo BC para reduzir a liquidez da economia.

Serra notou que as operações compromissadas, que estavam em torno de R$ 50 bilhões entre 2002 e 2006, saltaram para R$ 902 bilhões em julho de 2015. Essas operações representavam, em julho, 27% de toda a dívida mobiliária interna do Tesouro junto ao público, que era de R$ 2,424 trilhões.

O texto de Serra reconhece que "já está contratado" o aumento da dívida pública para os próximos cinco anos, em razão dos gastos nos últimos anos. No projeto, ele fixa temporariamente um limite elevado para esse período: 7,1 vezes a RCL para a dívida bruta e 3,8 vezes a RCL para a dívida líquida.

A partir do 6º ano até o 15º, haverá o período de transição, com redução gradual, até chegar ao limite de 4,4 vezes a RCL para a dívida bruta e 2,2 vezes a RCL para a dívida líquida. Se houver descumprimento da trajetória traçada, ao longo dos 15 anos de ajustamento, o ministro da Fazenda ficará obrigado a publicar carta aberta ao presidente do Senado explicando os motivos e apresentando providências para corrigir os problemas.

Serra afirmou que sua proposta visa dar maior transparência à trajetória da dívida e a sua gestão. "Se tal limite existisse seis anos atrás, dificilmente teria ocorrido uma gestão tão inepta e temerária das finanças públicas federais como a que testemunhamos nos últimos anos", opinou.

Após a votação pela CAE, o projeto de resolução seguirá para deliberação do Plenário. A reunião desta terça-feira tem mais 27 itens na pauta.

Mais sobre Agenda Brasil

Mais sobre pacto federativo

Mais sobre crise econômica

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!