Levy diz que governo tem de cortar mais gastos

Em entrevista ao Valor Econômico, ministro da Fazenda diz que retomada do crescimento da economia passa por manutenção de vetos e aprovação do orçamento com fortalecimento fiscal e de implantação de reformas estruturais

Para o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a retomada do crescimento da economia brasileira passa pelo Congresso Nacional, com a manutenção dos vetos da presidente Dilma a projetos que aumentam as despesas públicas e a aprovação do orçamento de 2016 com a meta de superávit de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) e o fortalecimento fiscal nos anos seguintes. Essas duas decisões são fundamentais para garantir o equilíbrio fiscal que permitirá a redução dos juros mais adiante e o crescimento sustentável, avalia o ministro. A elas, no entanto, terá de se juntar um terceiro elemento, acrescenta: as reformas estruturais para reduzir custos.

“Temos que rapidamente fazer mais contenção nos gastos para contrabalançar impostos, porque a economia pode piorar se titubearmos agora”, disse o ministro em entrevista ao jornal Valor Econômico. "Sem a casa em ordem e a questão fiscal resolvida, não há recuperação”, acrescentou.

De acordo com Levy, superada a questão fiscal, o crescimento virá com rapidez porque as pessoas e empresas recuperam a confiança para voltar a investir e as taxas de juros longas começam a cair. Fazem parte das reformas estruturais citadas pelo ministro o corte de despesas e a aprovação das propostas incluídas na chamada Agenda Brasil, conjunto de medidas econômicas em discussão no Congresso.

Levy afirmou que o governo tem de agir para não cair na armadilha de um “voo de galinha” – termo utilizado por economistas para se referir a crescimentos que não se sustentam por muito tempo. “Não adianta mais 'estímulo'. Mesmo com o equilíbrio fiscal permitindo o passo seguinte do relaxamento monetário logo adiante, não há garantia de sustentação do crescimento se não houver o terceiro elemento, das reformas estruturais, que reduzam o custo de investir e criar emprego. Por isso, tenho trabalhado com o Congresso em agendas estruturais, aquilo que o senador Renan chamou de Agenda Brasil. Parece longe, mas é urgente. Não podemos perder tempo”, declarou.

Na entrevista à jornalista Cláudia Safatle, Levy admitiu que a economia tende a piorar antes de apresentar sinais de melhora. “Sem dúvida, o custo da inação é muito alto. Da mesma forma, os ganhos do governo ao afastar a ambiguidade fiscal e focar em uma agenda de crescimento são grandes. Não só para o governo, mas para todos, inclusive a oposição, se ela apoiar uma agenda específica para tirar o país da dificuldade.”

Na semana passada, o governo conquistou importante vitória na apreciação dos vetos presidenciais. Os parlamentares mantiveram 26 negativas de Dilma a projetos de lei. Algumas medidas, como o que criava uma alternativa ao fator previdenciário e o que reduzia a cobrança de impostos sobre o diesel, preocupavam o governo devido ao seu impacto sobre as contas públicas. Entre os seis vetos que devem ser analisados esta semana, dois causam o mesmo tipo de temor ao Planalto: o que equipara o reajuste das aposentadorias à correção do salário mínimo e o que reajusta em até 78% o salário dos servidores do Judiciário.

Para o ministro, o governo precisa ter total transparência com o Congresso para conseguir apoio às suas medidas. “Sou jejuno em política. Mas, quando se tem um programa, fica mais fácil atrair apoios, mesmo que esse programa exija algum sacrifício inicialmente. Para isso, o governo tem de ser transparente no diagnóstico, nas ações necessárias e no que espera obter", defendeu.

Joaquim Levy disse que também é necessário ser “incômodo” em determinadas ocasiões. “Às vezes a gente tem de ser incômodo dentro do governo e até com a sociedade, mesmo sem gostar. É muito bom poder ser leão ou águia, mas, às vezes, tenho de ser como a burrinha do Balaão e até dizer coisas inesperadas”, afirmou.

Leia a entrevista de Levy ao Valor Econômico

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