Lázaro Ramos recusa honraria oferecida pelo Senado: “Momento do país é de conscientização”

Responsável pela Comenda Abdias Nascimento, senador Paim diz ter recebido telefonema do autor. “Respeito a memória de Abdias Nascimento e tenho grande admiração pelo seu trabalho, senador Paim, mas decidi por não receber a Comenda em virtude da atual situação do país”

Um dos mais celebrados artistas brasileiros da atualidade, o ator Lázaro Ramos foi laureado com a “Comenda Abdias Nascimento”, mas recusou a homenagem. Em telefonema ao presidente do colegiado responsável pela comenda, senador Paulo Paim (PT-RS), Lázaro não detalhou as razões de sua recusa, mas fez a seguinte declaração, registrada no site do senador: “Respeito a memória de Abdias Nascimento e tenho grande admiração pelo seu trabalho, senador Paim, mas decidi por não receber a Comenda em virtude da atual situação do país”.

Por meio de nota (íntegra abaixo) também encaminhada à Comissão da Comenda Abdias Nascimento – que dá nome ao artista, professor, político e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras, morto em 2011 –, Lázaro se limitou a comentar o momento de crises múltiplas que assola o Brasil como justificativa para a recusa. “Neste momento não me sinto confortável e nem desejoso de nenhuma homenagem, pois acho que o momento do país é de conscientização, de organização para compreender em que momento histórico estamos e quais passos precisamos dar para fazer com que a tão sonhada igualdade aconteça um dia de verdade”, escreveu o também apresentador de TV.

Célio Azevedo/Arquivo Senado
Criada em 2013 e dedicada anualmente pelo Senado a personalidades que, segundo critérios da comissão, tenham contribuído para valorizar a cultura negra, a comenda será entregue ainda neste mês, em data próxima ao Dia da Consciência Negra (20 de novembro). Cinco pessoas ou organizações serão laureadas nesta terceira edição, em decisão tomada em 14 de junho: além de Lázaro, a atriz Zezé Motta; o Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso; o cantor e compositor Lazzo Matumbi; e, in memorian, o artista multi-instrumentista Naná Vasconcelos (1944-2016).

Negro como o ator, o senador Paulo Paim disse compreender e respeitar “totalmente” o posicionamento do ator, em texto veiculado em seu site particular. “A decisão do ator Lázaro Ramos vai ao encontro do pensamento da ampla maioria da nossa população que, com razão, tem sido crítica à atuação da atual classe política brasileira”, registrou o petista.

O Quilombo

Também jornalista  e ex-senador, Abdias Nascimento (1914-2011) morreu aos 97 anos como referência no tema da igualdade racial. Fundou o jornal O Quilombo em 1948, junto com amigos, para dar voz a grupos sociais sem espaço na chamada grande mídia – jornais como O Estado de S. Paulo e O Globo, revistas como Veja e IstoÉ e emissoras de televisão como Rede Globo e Bandeirantes. Doutor honoris causa pela Universidade de Brasília (UnB), foi professor emérito na Universidade do Estado de Nova York, em Buffalo, e é autor de 23 publicações acadêmicas, entre outras realizações.

Depois da edição do Ato Institucional Nº 5, formalidade que inaugurou a fase mais brutal da ditadura militar, em 1968, Abdias recorreu ao exílio para fugir do arbítrio dos anos de chumbo e ficou por 13 anos no exterior. Senador pelo Rio de Janeiro entre  1997 a 1999, assumiu o posto no Senado depois da morte de Darcy Ribeiro, em fevereiro de 1997. Antes, exerceu o mandato de deputado federal pelo PDT de Leonel Brizola, entre 1983 a 1987. Como legislador, apresentou diversos projetos contra o racismo e com o objetivo de promover reparação à população negra do Brasil pelos efeitos do escravagismo.

Leia a nota de Lázaro Ramos na íntegra:

“Abdias do Nascimento foi um homem que estava na trincheira da luta pelos direitos da população negra e menos assistida do país.

Tem uma história de luta que é referência para todos nós que queremos um país mais igualitário.

Neste momento não me sinto confortável e nem desejoso de nenhuma homenagem, pois acho que o momento do país é de conscientização, de organização para compreender em que momento histórico estamos e quais passos precisamos dar para fazer com que a tão sonhada igualdade aconteça um dia de verdade.

Então, por esse motivo, recuso essa homenagem na esperança de que tenhamos consciência de que o importante não é o aplauso pelo que foi feito e sim o próximo passo a ser dado.

Lázaro Ramos”

 

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