Jornais: corrupção no Brasil entre 2002 e 2008 desviou o equivalente ao PIB boliviano

De acordo com informações de órgãos públicos, R$ 40 bilhões foram perdidos com a corrupção no período – média de R$ 6 bilhões por ano

FOLHA DE S.PAULO

Corrupção faz Brasil perder uma Bolívia
Pelo menos o valor equivalente à economia da Bolívia foi desviado dos cofres do governo federal em sete anos, de 2002 a 2008. Cálculo feito a partir de informações de órgãos públicos de controle mostra que R$ 40 bilhões foram perdidos com a corrupção no período – média de R$ 6 bilhões por ano, dinheiro que deixou de ser aplicado na provisão de serviços públicos. Com esse volume de recursos seria possível elevar em 23% o número de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família – hoje quase 13 milhões. Ou ainda reduzir à metade o número de casas sem saneamento – no total, cerca de 25 milhões de moradias.

O montante apurado faz com que escândalos políticos de grande repercussão pareçam pequenos. Na Operação Voucher, que no mês passado derrubou parte da cúpula do Ministério do Turismo, por exemplo, a Polícia Federal estimou o prejuízo em R$ 3 milhões. Apesar de elevada, a quantia perdida anualmente está subestimada, pois não considera desvios em Estados e municípios, que possuem orçamentos próprios.

A estimativa, feita pelo economista da Fundação Getulio Vargas Marcos Fernandes da Silva, contabiliza apenas os desvios com recursos federais, incluindo os recursos repassados às unidades da federação. Durante seis meses, o economista reuniu dados de investigações de CGU (Controladoria-Geral da União), Polícia Federal e TCU (Tribunal de Contas da União). São resultados de inspeções em gastos e repasses federais para manter serviços de saúde, educação e segurança pública, por exemplo. Os dados servem de base para inquéritos policiais e ações penais, além da cobrança judicial do dinheiro público desviado.

O custo da corrupção
Se colocados na ponta do lápis, os escândalos que habitam o noticiário político representam muito pouco do que o país perde cotidianamente para a corrupção. Na última década, estima-se que ao menos R$ 6 bilhões desapareceram por ano no caminho que leva os recursos federais de Brasília para os municípios, onde deveriam resultar em ações sociais e de infraestrutura.

Indenizações por erros em ações da PF dão prejuízo à União
A União começou a pagar a conta pelos erros ou excessos cometidos pela Polícia Federal em suas ações. Desde 2007, o governo federal foi condenado a pagar pelo menos R$ 1,6 milhão em indenizações por danos morais ou materiais a pessoas que foram presas por engano, ilegalmente ou que foram submetidas a exposição midiática excessiva. Recentemente, a própria presidente Dilma Rousseff criticou "abusos, excessos e afrontas" em investigações. Durante a Operação Voucher, que foi deflagrada no início de agosto e atingiu a cúpula do Ministério do Turismo, vazaram fotos de presos sem camisa na cadeia, no Amapá. Dilma considerou o episódio "inaceitável".

A Folha encontrou em arquivos da Justiça Federal e do STJ (Superior Tribunal de Justiça) 28 processos nos quais a União foi condenada, em primeira e segunda instâncias, a pagar por deslizes da Polícia Federal. Pessoas presas por engano argumentam que sofrem até hoje danos psicológicos e constrangimentos em função dos erros da polícia. Elas reclamam da demora para o pagamento das indenizações e dizem que o valor é baixo diante dos momentos que tiveram que enfrentar.

Em Caxias do Sul, Maria Heloísa de Oliveira ficou 51 dias presa por engano sob acusação de tráfico de drogas e desenvolveu síndrome do pânico. Já o empresário Marcos Moraes de Vasconcellos, cuja residência foi invadida erroneamente em 2005, conta que ficava constrangido ao encarar os vizinhos. "Eles ficavam pensando que eu podia estar metido com tráfico de drogas", disse. Decisão de segunda instância fixou indenização de R$ 20 mil para Vasconcellos. Ainda cabe recurso.

Mulher passou 51 dias presa por engano
"Nunca vou conseguir apagar da minha mente." É assim que a enfermeira Maria Heloísa de Oliveira, 51, fala sobre os 51 dias que passou presa por um erro da PF, que a confundiu com outra mulher de mesmo nome. O dia era 26 de outubro de 2004. Às 6h, agentes da PF bateram na porta de sua casa. Disseram que cumpriam um mandado de prisão e a levaram à delegacia.
"Chegando lá, tinha uma delegada substituta. Os agentes disseram que eu não era a pessoa certa, mas ela só olhou os papéis e mandou me prender", conta.

Foi levada para a ala feminina do presídio de Caxias do Sul. Lá, Maria Heloísa ficou em uma cela de 7,5 m2 com 11 mulheres. "Não tínhamos direito a uma tarde ou manhã de sol e não tinha cama para todas. Em uma parede, tinha um beliche de cimento. Nós dormíamos em quatro e as outras dormiam no chão", diz. "Eu ficava a noite acordada. Não comia nem dormia porque tinha muito medo."

Um dia, um preso foi ferido e não recebeu assistência médica. Estourou uma rebelião. Os detentos faziam barulho e batiam na barra de ferro das celas. "Eu chorava e gritava desesperada." Seu marido e suas duas filhas adolescentes também ficaram abalados. Uma delas perdeu dez quilos. Ela foi solta de repente no 51º dia, sem receber explicação. "Não sabia onde estava, não lembrava de telefones, não sabia onde morava."

No mês passado, sua indenização saiu: R$ 197 mil. "Até hoje me trato em psiquiatra. Saí com uma depressão muito grande e tenho síndrome do pânico. Nada paga o que passei", disse.

Após desagravo, Dirceu quer 20 dias de "sumiço"
O ex-ministro José Dirceu prepara viagem pelo país para encontrar colegas e promover um livro com artigos publicados em seu blog. O roteiro começa após pausa de 20 dias. Dirceu disse a interlocutores que quer "sumir" depois da tensão da última semana.

O partido deve aprovar hoje uma moção de desagravo a Dirceu, que foi acusado em reportagem da revista "Veja" de conspirar contra o governo. Na sexta, ele foi aclamado por militantes e teve apoio da presidente Dilma Rousseff e de Lula. Dirceu gostou, mas reclama de o caso ter contaminado o debate: "Preferia não ter passado por isso", disse a interlocutores.

Definição de royalties está perto de sair
As propostas que estão sendo analisadas para um acordo entre Estados produtores e não produtores de petróleo na distribuição dos royalties do pré-sal espetam a conta da compensação na União ou nas empresas exploradoras. O governo federal assumiu, na última semana, o comando das negociações. Nesta semana, um esboço da proposta deve ser apresentada a congressistas e representantes dos Estados.

Uma das alternativas que o governo já admite é usar parte do excedente de receitas que terá com royalties a partir de outubro para compensar Estados produtores. Pelo marco regulatório do pré-sal, esses recursos iriam para um Fundo Social. Em 2010, a receita da União com o petróleo ficou em R$ 8,6 bilhões. A estimativa de senadores e dos Estados é que, em 2020, esse bolo chegue a R$ 40 bilhões.

A proposta do governador Sérgio Cabral (RJ) é que metade do montante que antes comporia o fundo seja agora destinado a evitar perda de dinheiro do Rio e do Espírito Santo -que terão que dividir os recursos do pré-sal com Estados não produtores. Por outra proposta, dos 40% de arrecadação da União, 6% iriam para compensar esses Estados e 34% comporiam o Fundo Social. Uma terceira alternativa eleva os royalties pagos por empresas para a exploração de petróleo.

Com PSD, Wagner terá tropa maior que a de ACM
Ao patrocinar a criação do PSD na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT) colherá como dividendo uma hegemonia na Assembleia Legislativa maior do que a de Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) no auge de seu poder, nos anos 90. Se sair do papel, o partido de Gilberto Kassab terá na Bahia a segunda maior bancada da Assembleia (11 deputados), atrás apenas do PT (14 deputados), e cinco deputados federais.

Dos 11 deputados estaduais, 10 foram eleitos em legendas que fazem oposição ao governador na Assembleia, como DEM e PMDB. Com a migração dos oposicionistas para a base, Wagner terá a seu lado 49 dos 63 deputados estaduais. Quando governador (1991-1994), ACM chegou a contar com uma base de 44 deputados, mas o apogeu de seu grupo político ocorreu na eleição de 1998, quando César Borges (então PFL) foi eleito governador junto com uma bancada de 47 aliados.

A figura de proa do PSD na Bahia é o vice-governador Otto Alencar, que hoje preside o partido no Estado. Com o aval do governador, Alencar negociou pessoalmente a adesão de oposicionistas à base. Ele comanda a Secretaria de Infraestrutura, com orçamento de R$ 600 milhões para estradas.

Culto a ACM existe ainda hoje na Bahia
O culto a Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) persiste na Bahia. Uma das principais avenidas de Salvador leva seu nome. Seu herdeiro político, ACM Neto, foi o deputado federal mais votado da Bahia três vezes. Sua pré-candidatura à prefeitura em 2012 é a aposta do carlismo para voltar a governar a capital.

Maluf celebra 80 anos com Temer, Alckmin e Kassab
O vice-presidente da República Michel Temer (PMDB), o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab estiveram entre as autoridades presentes ao concerto que comemorou os 80 anos do deputado federal Paulo Salim Maluf (PP), ontem à noite, na Sala São Paulo. Questionado sobre o atual lugar de Maluf na política brasileira, Temer disse: "Ele sempre ocupa um lugar de proa, um lugar de prestígio".

Alckmin e a primeira-dama Lu sentaram-se no camarote ao lado do aniversariante e de sua mulher, Sylvia. Em discurso, Maluf afirmou que o Estado tem "a honra de ser governado pela terceira vez" por Alckmin, que "dá a Brasília e a São Paulo lições de moral". Sobre eventuais alianças do PP de Maluf com seu novo partido, o PSD, Kassab esquivou-se: "Nas alianças, evidentemente temos que ver os nossos projetos para avaliar. As alianças vão ser definidas pelas direções partidárias".

Alckmin quer vender terra pública no Pontal
O governador Geraldo Alckmin (PSDB) quer dar um fim às disputas por terras no Pontal do Paranapanema, oeste do Estado, principal área de conflito agrário. Para isso, lança medida polêmica: permitir que fazendeiros comprem terras que o próprio Estado reivindica como sendo suas. A oposição chama a medida de "legalização da grilagem".

Alckmin pediu empenho aos deputados para a aprovação, na Assembleia Legislativa, de dois projetos de lei sobre o tema. Um é antigo, de 2007, mas o outro começou a tramitar no mês passado. Devem ser votados juntos. O governo paulista tem 55 ações na Justiça para reivindicar a posse de 155 mil hectares de terra naquela região, que teriam sido ocupados por grileiros. Algumas tramitam há mais de dez anos.

A aprovação dos projetos agilizaria a resolução da questão, sem precisar esperar pela Justiça. O Estado, porém, abre mão das terras. Cerca de 700 famílias do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) estão acampadas aguardando que as terras sejam destinadas à reforma agrária.

'Revolução? Isso é uma piada'
Livre há quase três meses, Cesare Battisti, o italiano cujo asilo político no Brasil criou um estremecimento diplomático com a Itália e galvanizou a opinião pública dos dois países, vive como se fosse um clandestino. Não que o ex-integrante do PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos ocorridos nos anos 1970 na Itália, tenha problema com a lei brasileira - já tirou até RG e CPF. Mas, temendo ser alvo de grupos paramilitares de direita, preocupado com o assédio da imprensa e "machucado", como diz, por quatro anos e dois meses de confinamento e exposição pública, ele resolveu se isolar em Cananeia, pequena cidade do litoral sul de São Paulo.

Há dois meses mora sozinho num sobrado simples, cedido por um apoiador brasileiro, onde dorme num beliche velho em um quarto do tamanho de sua antiga cela. Apresentou-se a quem conheceu como "César", um escritor mexicano que buscava refúgio para terminar um livro, e fez amigos entre os pescadores e em bares. Nada falou de sua história real. No cotidiano tedioso de uma cidade praiana no inverno, Battisti não perdeu o hábito de ex-fugitivo de sentir-se monitorado.

O ESTADO DE S. PAULO

Aeroporto de R$ 20 milhões no Piauí já gastou R$ 25 milhões e ainda não existe
A ideia é que no futuro pesquisadores, estudantes, turistas e curiosos de todo tipo que quiserem conhecer o passado do primeiro homem a habitar as Américas descerão de modernos jatos num aeroporto com pista de 2,5 mil metros, no meio da caatinga, em São Raimundo Nonato, no sul do Piauí, a 503 quilômetros de Teresina. O confortável terminal mescla a arquitetura futurista com um símbolo do passado, que poderá ser visto dos céus pelos que chegam – o desenho de uma capivara prenhe, a primeira mostra dos tesouros arqueológicos do Parque Nacional da Serra da Capivara.

Por enquanto, no entanto, em vez do terminal em forma da capivara que espera um filhote, quem chega ao aeroporto vê uma carcaça de ferros retorcidos, concreto aos pedaços, tijolos amontoados, tocos de madeira e pregos enferrujados. Isso porque as verbas públicas para a construção do Aeroporto Serra da Capivara seguiram o rumo de tantas outras destinadas a projetos tão ou mais importantes: sumiram. Como sumiu o dinheiro para a edificação de nove quiosques na cidade vizinha de Coronel José Dias, a 30 quilômetros dali (leia abaixo).

O enredo em São Raimundo Nonato tem o perfil das irregularidades detectadas pelas auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) e investigações da Polícia Federal nas verbas do Turismo: dinheiro do orçamento público que começou a ser liberado no fim de um governo e vai pingando com critério eleitoral, empreiteira de político contratada e zero de comprometimento administrativo com o projeto de incentivar o turismo.

O Aeroporto Serra da Capivara deveria ter um custo total de R$ 20 milhões, mas a obra já consumiu R$ 25 milhões e vai precisar de mais R$ 8 milhões para ser concluída – e não se sabe quando. A empreiteira Sucesso, que deverá tocar a obra até o fim, informou que não sabe quando recomeçará a trabalhar na construção do terminal. Por enquanto, mantém lá apenas um funcionário, que faz a vigilância da área. A Sucesso pertence ao senador João Claudino (PTB-PI).

Por Comissão da Verdade, governo procura oposição
O governo federal está mobilizando suas forças para conseguir aprovar até o final deste mês o projeto de lei que cria a Comissão Nacional da Verdade. O esforço é capitaneado pelo ministro da Defesa, Celso Amorim. Nos últimos dias ele fez várias ligações para os líderes dos partidos de oposição na Câmara, pedindo apoio à proposta. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, também está em campo. Ex-deputado, com trânsito fácil no meio parlamentar, ele já se reuniu com os líderes do PSDB, DEM, PPS e PV.

A presidente Dilma Rousseff, que, na sexta-feira, na abertura do Congresso do PT, prometeu à militância que a comissão será instalada, também mobilizou a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, para o trabalho de vencer resistências à proposta. O objetivo é aprovar o projeto por meio de um acordo entre líderes partidários, em caráter de urgência. A votação ocorreria numa sessão extraordinária, convocada especialmente para isso.

Na conversa com a oposição, a maior preocupação dos três ministros é deixar claro que a comissão não terá caráter revanchista, nem abrirá debates sobre uma possível revisão da Lei da Anistia. O governo diz entender que o assunto se encerrou no ano passado, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) negou à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) o pedido para que policiais e militares acusados de violações de direitos humanos nos anos da ditadura fossem excluídos da anistia. Na avaliação da corte, eles também foram beneficiados pela lei de 1979.

Leia mais no Congresso em Foco sobre transparência de documentos oficiais

PT aprovará resolução para regular a mídia
O PT vai aprovar neste domingo, 4, no encerramento de seu 4º Congresso Nacional, uma detalhada resolução propondo a regulação dos meios de comunicação de massa no Brasil. O documento inclui a proibição de concessões de rádio e TV para políticos, o veto à propriedade cruzada de mídia – quando o mesmo grupo empresarial possui na mesma área concessões para rádio e TV – e o apoio à criação de conselhos sobre o tema em todos os Estados e no Distrito Federal.

Na tarde de sábado, 3, o partido deu o primeiro passo nessa direção, ao aprovar o texto-base de uma resolução política mais ampla, na qual explicita a defesa da chamada "democratização" dos meios de comunicação e diz que o "jornalismo marrom" deve ser responsabilizado toda vez que falsear os fatos ou distorcer as informações para "caluniar, injuriar ou difamar".

O documento ainda pode receber emendas, mas a parte referente às comunicações tem apoio de todas as correntes do PT. Na tentativa de evitar mais polêmica, a proposta de regulação que será votada hoje não fala, porém, em "controle público da mídia", expressão que, no passado, rendeu à legenda acusações de defesa da censura. Ministros do governo da presidente Dilma Rousseff também defenderam ontem novos critérios para as comunicações no País.

A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, disse que Dilma não irá se engajar para aprovar a regulação da mídia. "Coloco essa questão no mesmo patamar da reforma política. Não tem de ser tarefa de governo, tem de ser dos partidos." Ela admitiu, contudo, que há pontos, como o recentemente aprovado projeto de lei 116 – para regular a TV a cabo, permitindo que empresas de telefonia produzam conteúdo –, nos quais é "impossível" que não haja interferência do Planalto.

Gilberto Carvalho defende regulamentação da imprensa
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, afirmou neste sábado que regulamentar a atuação da mídia é bom para a liberdade de imprensa. Carvalho afirmou que não se pode confundir democratização da comunicação com autoritarismo. Ele participa do Congresso do PT, em Brasília, onde o assunto é um dos temas em debate.

"Eu estranho que toda discussão de democratização seja tomada como autoritarismo. Todo país tem regulamentação. É bom para o Brasil, é bom para os veículos, é bom para a liberdade de imprensa", disse o ministro.

Ele afirmou que a atuação dos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff nesta seara não permite o carimbo de autoritário à proposta de regulamentação. "O governo Lula e esse início de governo Dilma não nos autoriza a permitir qualquer tentativa de nos tratar como autoritários". O ministro destacou que ambos os governos têm recebido críticas da imprensa.

Lula quer 'modelo Haddad' em Campinas
Com propostas de renovação do PT paulista e pressões para evitar prévias em cidades estratégicas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a moldar o partido para as eleições municipais de 2012. Depois de liderar, na capital, a campanha pela candidatura do ministro Fernando Haddad (Educação), Lula pretende emplacar o economista Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Campinas.

Políticos novatos em disputas municipais passam a substituir candidatos derrotados em eleições anteriores, em um movimento de formação de novos quadros. Em Campinas, terceiro maior município do Estado, Pochmann ajudaria o PT local a superar um momento delicado.

O ex-presidente teme que as denúncias de fraudes na gestão do prefeito cassado Dr. Hélio (PDT) e do atual Demétrio Vilagra (PT) frustrem as pretensões eleitorais do partido na cidade. Pochmann, técnico do Ipea e professor da Unicamp, seria apresentado como nome "anticorrupção". "Ainda não queremos discutir nomes, mas há uma simpatia muito grande pelo Pochmann", afirmou uma liderança do partido, que reconheceu a influência de Lula na indicação.

Polícia de SP tem mandados de prisão contra 2.755 pessoas que já morreram
A empregada doméstica Maria da Glória de Lima, o pedreiro Valter Tunes, o industrial Emilio Conti, o ex-médico Roger Abdelmassih e o advogado Mizael Bispo dos Santos têm pelo menos duas coisas em comum em São Paulo: são acusados de cometer crime no Estado e estão na lista de foragidos da Justiça. A empregada e o pedreiro têm ainda outra característica que os aproxima: os dois fazem parte de uma lista de 2.755 pessoas procuradas que já morreram.

Eles foram localizados nos últimos meses quando a polícia cruzou informações de arquivos físicos com as fichas eletrônicas do estoque de cerca de 115 mil ordens de prisão a cumprir. A faxina é parte de trabalho iniciado neste ano para se adequar ao banco nacional de mandados de prisão, que deve funcionar a partir de janeiro por ordem do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Um dos casos mais intrigantes é o do industrial Emilio Conti. Ele é procurado em São Paulo, mas nem a polícia sabe oficialmente se morreu ou continua vivo - a ordem de prisão dorme nas pastas da Divisão de Capturas desde 1923. E, mesmo quando consta nas fichas a informação de "falecimento", é preciso cautela - geralmente ela é dada pela família do sentenciado. "Se estivesse vivo, ele teria 105 anos", diz o delegado Waldomiro Milanesi, chefe da Divisão de Capturas da polícia paulista, referindo-se ao caso do industrial procurado pela Justiça há quase 90 anos. Conti nasceu em 1906. Processado pelo crime de "falência", nunca foi preso.

O GLOBO

Ação mais antiga do STF deve enfim entrar em pauta
Em 17 de junho de 1959, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cezar Peluso, tinha 16 anos. Um de seus colegas de Corte, José Antonio Toffoli, nem era nascido. Nesse dia, o então procurador-geral da República, Carlos Medeiros Silva, entrou com uma ação no Supremo que até hoje não foi julgada.

É a mais antiga em tramitação no tribunal, com mais de 52 anos de idade. O primeiro relator, ministro Candido Motta Filho, aposentou-se em 1967 e morreu dez anos depois. Depois dele, outros oito ministros estiveram à frente do processo - que sempre passou de mão em mão ao longo das gerações e nunca foi decidido. Neste mês, a ação deve entrar na pauta de julgamentos do plenário. Peluso, o atual relator, recebeu o caso em 26 de junho de 2003. O voto está pronto.

Quando a ação foi proposta, o STF não ficava na Praça dos Três Poderes, em Brasília, e sim no número 241 da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Com a mudança de endereço, em abril de 1960, a ação foi levada para a nova capital.

Os autos contabilizam 12 volumes e três apensos - ao todo, 2.449 páginas repletas de ácaro. As primeiras folhas estão amareladas e precisaram ser reconstituídas para não desintegrar. Outras páginas não resistiram ao tempo e ficam guardadas em sacos plásticos para não serem perdidas de vez. A grafia era outra, e o nome do país também: nas folhas timbradas, lê-se: República dos Estados Unidos do Brasil. Deu-se à causa o valor de Cr$ 100.000.

Padre italiano expulso do Brasil pela ditadura tenta voltar
Expulso do Brasil em 1980 - em um polêmico processo que contribuiu para agravar ainda mais o conflito entre Igreja e Estado -, o padre italiano Vito Miracapillo tenta inutilmente, há quase uma década, reaver o visto de permanência no país, onde pretende retomar o trabalho pastoral interrompido durante o regime militar.

O padre quer voltar ao município de Ribeirão, a 87 quilômetros de Recife, do qual foi pároco. E residir na Zona da Mata de Pernambuco, onde se concentra a agroindústria açucareira do estado, considerada área de tensão social pelos órgãos oficiais.

Em plena ditadura no Brasil, o padre foi incluído na Lei de Segurança Nacional e atingido pelo então recém-promulgado Estatuto do Estrangeiro, por ter se recusado a atender pedido da prefeitura para que celebrasse missa comemorativa da Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1980 - alegando que o Brasil, sob ditadura, não era independente.

Num ofício ao prefeito de Ribeirão, Salomão Correia Brasil (PDS), o padre justificou a recusa, entre outros motivos, devido "à não efetivação da independência do povo", reduzido "à condição de pedinte e desamparado dos seus direitos".

Entrevista: 'A meta foi para as calendas gregas', diz ex-diretor do BC
Ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central no primeiro governo Lula e ex-economista-chefe do Santander, Alexandre Schwartsman acredita que o BC foi precipitado ao cortar a taxa de juros em 0,5 ponto percentual semana passada, pois não há indícios de que a crise econômica global de 2011 seja tão grave quanto a de 2008.

Ele afirma que a decisão do BC mostra que a gestão Dilma caminha "de forma hesitante" para o abandono do sistema de metas de inflação e que o tripé da política econômica (regime de metas, câmbio flutuante e superávt primário) "está capenga". Ao permitir o descolamento entre expectativas e meta de inflação, diz, o BC joga o país num cenário de PIB fraco e inflação alta. Se o pessimismo do BC não se confirmar, os juros voltarão a subir mais cedo ou mais tarde.

O corte de 0,5 ponto percentual nos juros semana passada foi precipitada, já que a inflação acumulada em 12 meses pelo IPCA-15 está em 7,1%, acima do teto da meta?
Foi precipitada, mas não por causa da inflação de 7,1%, e sim porque a decisão do BC pressupõe que vamos passar por uma queda de atividade na economia global semelhante à de 2008/2009, com vários canais de contágio para o Brasil, sendo um deles o crédito.

No que o BC se equivocou?
Acho difícil que tenhamos uma recessão, mesmo que ela aconteça, tão grave. Além disso, acredito que os canais de contágio tenham se enfraquecido. Em 2008, o principal canal de contágio foram os derivativos cambiais que estavam no balanço de algumas empresas. Essas empresas passaram por algumas dificuldades e, obviamente, os bancos acabaram cortando o crédito. Esse fenômeno provavelmente estará ausente desta vez.

Instituições financeiras lucram US$ 42 bi e países perdem
Quase três anos após a quebra do megabanco de investimentos Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, a crise financeira internacional que teve origem no mercado imobiliário americano com as hipotecas de alto risco, as chamadas subprime, segue abalando mercados e assombrando governos.

Os cofres públicos e bancos centrais de todo o mundo já arcaram com US$ 12,4 trilhões até agora para incentivar suas economias e limpar os estragos provocados por grandes bancos globais. Essa conta se transformou numa dívida explosiva de países, e agora cobra sua conta e derruba as bolsas de valores.

As instituições financeiras socorridas na crise, no entanto, estão muito bem, obrigado. Seis dos principais bancos ajudados na crise - Bank of America Merrill Lynch, BNY Mellon, Citigroup, Goldman Sachs, JPMorgan Chase e Morgan Stanley - lucraram, somados, US$ 42,4 bilhões no ano passado, aumento de 40% na comparação a 2009. E os bônus dos grandes executivos de Wall Street voltaram, com pagamentos que em um dos casos chegou a US$ 23,3 milhões.

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!