Cunha: “Jaques Wagner tentou barrar impeachment”

Em entrevista à IstoÉ, presidente afastado da Câmara conta que esteve com ex-ministro da Casa Civil por pelo menos três vezes, e Dilma sabia: “Wagner ofereceu não só os votos no Conselho de Ética, mas o controle total do presidente do Conselho”

Em entrevista à revista IstoÉ, publicada na edição que circula a partir deste fim de semana, o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse ter recebido proposta do então ministro da Casa Civil Jaques Wagner, para travar o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

Segundo o deputado, Wagner o procurou e ofereceu votos favoráveis a Cunha no Conselho de Ética em troca do arquivamento do processo que pode cassar o mandato da presidente petista. De acordo com o seu relato, diante da oferta, Eduardo Cunha observou que Jaques Wagner seria incapaz de cumprir o prometido. Ao que o ministro, conta ele, enfatizou que falava "em nome da mandatária do país".

“Todas as vezes em que ele [Jaques Wagner] esteve comigo, que tocou nesse assunto, deixou claro que relatava todas as conversas para Dilma e que ela sabia. O que torna um pouco mais grave a situação. Na conversa do dia 12 de outubro, Wagner disse que naquela noite mesmo ainda conversaria com a presidente e que falaria comigo depois. O que comprova, mais uma vez, que ela participava e sabia de tudo”, disse Cunha.

"O que aconteceu clara e textualmente é que ele sentou para discutir pontos de governabilidade, tentando uma aliança comigo. E para isso, começou a oferecer justamente votos no Conselho de Ética. Ele ofereceu textualmente algo que eu até reputei como ridículo, que foi a interferência do governo para que mantivessem a minha mulher [Cláudia Cruz] e minha filha [Danielle] sob a ótica do processo do Supremo. O que eu já disse de pronto é que eu não acredito nesse tipo de interferência. Não creio que o governo tenha esse controle de quem quer que seja", acrescentou.

"Enrolar faz parte da natureza deles"

Cunha disse que se reuniu três vezes com ex-ministro da Casa Civil antes de aceitar o processo de impeachment de Dilma na Câmara. No terceiro encontro, no Palácio do Jaburu, de acordo com o peemedebista, o então vice-presidente organizou o encontro, mas deixou Cunha e o petista a sós. “Jaques Wagner ofereceu não só os votos no Conselho de Ética, mas o controle total do presidente do conselho”, relatou citando o deputado José Carlos Araújo (PP-BA), presidente do Conselho de Ética e baiano, como Wagner.

Ao ser questionado sobre a conduta de Wagner, avaliada por aliados do governo PT como uma tentativa de "enrolar" o peemedebista até a aprovação das metas fiscais, Cunha foi enfático ao declarar que "quando dão uma desculpa dizendo que estavam querendo enrolar, na verdade estão é confirmando que fizeram a oferta".

"Enrolar faz parte da natureza deles. Enrolaram o Brasil esses anos todos e deu no que deu. Minha pergunta é: estão querendo dizer que a presidente Dilma era a cabeça de um plano de enrolar o presidente da Câmara no intuito de aprovar um projeto?", indagou Cunha.

Sobre uma possível debandada dos seus apoiadores, Cunha respondeu com ironia: "Fui afastado pelo STF e estou sendo cerceado. Ele [o procurador-geral da República, Rodrigo Janot] entrou com pedido de prisão só porque eu disse em uma entrevista que eu ia à Câmara. Não estou podendo exercer nem a minha autodefesa no Conselho de Ética e nem fazer o que o julgamento político pressupõe, que é estar em corpo a corpo com os parlamentares, que são meus julgadores, para me justificar. Então, se eu não estiver afastado, daqui a pouco eu posso até ser preso por conversar com deputado".

"A impressão de que estou isolado é porque eu não estou podendo ter um convívio maior, o que está prejudicando", acrescentou.

O ex-ministro Jaques Wagner rebateu Cunha. De acordo com ele, o peemedebista "usa esse argumento pois não consegue provar que não mentiu à Comissão de Ética da Câmara e tenta se desviar  do foco da acusação".

Supremo Tribunal Federal

Sobre a decisão do STF, que o tornou réu por unanimidade pela segunda vez no último dia 22, Eduardo Cunha voltou a dizer que seus argumentos de defesa têm sido ignorados. Mesmo assim, Cunha mostra convicção sobre uma absolvição. Um dia antes da decisão do Supremo, Cunha fez um pronunciamento à imprensa, sozinho, em um hotel de Brasília. Na ocasião, o peemedebista rechaçou renunciar ao cargo e também fechar acordo de delação premiada.

"Provavelmente, este vai ser o critério adotado em qualquer desses casos. Ou seja: denúncia apresentada pelo PGR contra qualquer parlamentar será aceita. Mas eu acredito no bom senso durante o processo comprobatório e que poderemos fazer valer nossos argumentos. Acredita que me fizeram três denúncias sem nem me ouvir? Usaram minhas falas públicas em entrevistas jornalísticas como se fosse depoimento de investigado. Espanta-me essa violação", ponderou.

 

Leia a íntegra da matéria publicada pela IstoÉ

 

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