Índios da Raposa querem exportar produção verde

Quatro anos depois da demarcação da segunda maior reserva indígena do país, plano é colocar nos supermercados produtos com o selo da agricultura. Para indígenas, governo tem culpa no atraso do início da produção, que deve começar já

BOA VISTA e PACARAIMA (RR)* – A reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, que está demarcada mas abandonada, como mostrou o Congresso em Foco na sexta-feira (19), pode ter um novo destino em pouco tempo. Os 20 mil índios que moram na região prometem colocar em marcha um projeto de colonização agrícola semelhante ao que antes era tocado pelos arrozeiros, retirados da região em 2009 por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Os indígenas querem produzir em larga escala como faziam os fazendeiros, que co-protagonizaram um dos conflitos agrários mais recentes e importantes do Brasil.

Algumas máquinas já chegaram para a população. Em nove meses, deverão exportar arroz, feijão, milho, mandioca, segundo anunciou ao Congresso em Foco o coordenador do Centro Indigenista de Roraima (CIR), Mário Nicácio Wapichana, do povo macuxi. O objetivo é fazer produtos com a marca da Raposa. “Temos estudos para criação do selo verde, com produtos indígenas, artesanato, para dar qualidade ao consumidor”, explicou.

Para ele e outros membros da comunidade, a culpa do atraso na produção agrícola é das autoridades, que nos últimos quatro anos não ofereceram técnicas de plantio e manejo, além de embargarem lavouras. Nos próximos dias, prometem plantar na imensa reserva de 1,7 milhão de hectares. Inicialmente, serão 40 hectares de milho, dez hectares de mandioca e de dez hectares de feijão. O twxawa (pronuncia-se “tuchá-ua”) Constâncio Constantino, tem 58 anos e pertence ao povo macuxi na comunidade na região do Baixo Cotino, onde vivem 4 mil pessoas. Ele diz que a produção vai incluir também arroz e banana. Já existe gado na região.

Os brancos de Boa Vista devem ajudá-los. O deputado Márcio Junqueira (DEM-RR) esteve no centro dos conflitos com os índios na briga pela demarcação contínua da reserva junto com o deputado Paulo César Quartieiro (DEM-RR). Mas hoje quer apoiar a produção por entender que isso é importante para abastecer a economia local. “Nós vamos ajudá-los. Queremos que eles produzam. Estamos construindo entendimentos com os órgãos ambientais pois não podemos deixar essa área improdutiva. Quando eu chego no mercado, não quero saber se a farinha foi fabricada por um branco, índio ou negro. Quero saber se está acessível e se eu posso comprar”, afirmou o deputado.

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Passo a passo

Franklin Paulino, um dos líderes no Baixo Cotino, conta que o gado está morrendo, mas diz que aos poucos a população vai aprender as técnicas agropecuárias dominadas pelos antigos proprietários. Assim, poderão produzir em grande escala. “Passo a passo a gente vai chegar a alcançar o nosso objetivo. A gente quer estar negociando e ampliar mais as lavouras”, disse ele à reportagem. O lucro das vendas vai ser aplicado na comunidade local.

No local onde antes funcionava a sede da fazenda Providência, que chegou a ser destruída pelo próprio Quartieiro ao saber que deveria deixar a região, Paulino exibe um trator usado recém-obtido. Ele rejeita as críticas de que os índios são “preguiçosos” e estariam inaptos para o trabalho rural. “É história mesmo. Isso não é verdade. A gente nunca morreu de fome”, Paulino, um tempo depois de almoçar carne cozida e peixe assado.

Desde terça-feira da semana passada (16), o Congresso em Foco pede uma entrevista com representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai), para explicar críticas ao abandono da Reserva Raposa Serra do Sol. Mas não a obteve até o fechamento da reportagem.

*O repórter viajou a convite da Comissão da Amazônia da Câmara

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