Henrique Ziller: uma novela política, 4º capítulo

No quarto dia de publicação desta obra apenas aparentemente de ficção, um famoso chá alucinógeno surpreende parlamentares evangélicos durante a CPI do Tráfico de Cebolas

Henrique Ziller*

Capítulo 4

Santo Daime na Igreja

Alvimar Portilho chegou falando muito. Vestiu a roupagem de evangélico e tentou, por horas a fio – seis no total – escapar das acusações que lhe dirigiam. A CPI do Tráfico de Cebolas já tinha muitas informações sobre ele, e os parlamentares que o interrogavam o faziam cair em contradições seguidas. As principais acusações que pesavam contra ele diziam respeito a seu patrimônio.

Alvimar era suplente de deputado. Herdara a cadeira de outro parlamentar – Luigi Ramos –, recentemente cassado por envolvimento não só no tráfico de cebolas, como de resto em inúmeras atividades ilícitas. Na verdade, Luigi era um grande capo em seu estado, o Piauí. A relação das atrocidades por ele cometidas passava pela muito falada trituradora que utilizou para barbarizar um desafeto.

A história da trituradora, de tão absurda e cruel, acabara por se tornar motivo de chacota na imprensa, o que banalizava um episódio horroroso. Por diversas vezes, os veículos de comunicação referiram-se a ele como “Luigi, o da trituradora”, ou “aquele da trituradora”.
Sobre Alvimar não pesavam acusações desse porte, mas o que havia contra ele era suficiente para que também fosse cassado. Entretanto, tantas outras irregularidades e desatinos que tomariam a cena dos debates não só na Câmara como também no Senado, nos meses a seguir, tanto no âmbito da CPI como fora dele, acabariam por contribuir para que o processo contra ele não avançasse.

O depoimento de Alvimar era totalmente desconexo e revelou um parlamentar que por um lado demonstrava não conhecer as implicações de se ocupar a cadeira dos interrogados por uma CPI e, por outro, revelava-se bem preparado para fugir de algumas armadilhas comuns armadas contra os depoentes, principalmente ao não reagir contra provocações dirigidas por alguns parlamentares.

Ele se contradisse em inúmeras oportunidades. Tentava voltar atrás, consertar os enganos, mas só conseguia reafirmar as dúvidas que pairavam acerca da origem e do tamanho de seu patrimônio. Mas, como já se disse, teve como mérito não se intimidar nem revidar provocações e de, numa situação em que já parecia não ser possível manter seu mandato, conseguir sair de lá sem que o processo contra si fosse considerado prioridade. Resistiu bem àquelas muitas horas. Não perdeu a paciência nem ofendeu ninguém.

Em um dentre vários momentos infelizes, afirmou com tom grave:

- Meu estado é um lugar abençoado, cheio de evangélicos. Muitos se beneficiam com os cultos, onde alguns bebem ayahuasca.
Percebendo que muitos presentes não sabiam o que era aquilo, explicou:

- Aquele chá!

O chá a que ele se referia era aquele servido no culto do Santo Daime.

Se houvesse entre os evangélicos a figura do sacrilégio, Alvimar, certamente, teria que ser condenado. No entanto, tal afirmação não recebeu nenhuma atenção da “bancada evangélica” da CPI, que era uma das maiores da comissão, senão a maior.

A composição da CPI do Tráfico de Cebolas incluía parlamentares de diversos partidos (a escolha dos membros de uma CPI observa a mesma proporcionalidade da representação dos partidos na Casa Legislativa – Câmara ou Senado – na qual foi instalada). Havia pelo menos cinco deputados evangélicos.

O próprio presidente da CPI – Maurício Ramos – era evangélico. Sua indicação foi uma surpresa, visto estar em seu primeiro mandato.

Para ele, estar na presidência “foi pura engenharia de Deus”. Cargos como este são de muito prestígio, e não é comum que se faça uma indicação como a dele. Clésio Filho, o relator, já era parlamentar com maior experiência e destacada atuação na Casa, por isso a sua indicação não gerou a mesma surpresa que a indicação do presidente.

Presidência e relatoria são os dois cargos mais importantes de uma CPI. O presidente é o responsável pela condução dos trabalhos, do planejamento e do estabelecimento de diretrizes. É, enfim, a maior autoridade. Mas o papel do relator reveste-se de muita importância, na medida em que todas as informações passam por suas mãos, sendo ele, portanto, o principal responsável pela elaboração do relatório final, e, consequentemente, o principal canal de informações buscado pelos jornalistas.

Além da presidência e da relatoria, as CPIs contam ainda com três vice-presidentes, que substituem o presidente na direção dos trabalhos, seja na realização de sessões plenárias, seja na direção das viagens para se realizarem diligências e reuniões, as quais o presidente não tenha tido a possibilidade de acompanhar.

Maurício havia sido eleito após uma rápida ascenção na política local de seu estado natal, o Rio Grande do Sul. Como pastor, desenvolvera trabalho de recuperação de jovens viciados em cebolas. Esse trabalho alcançou tal dimensão que acabou por levá-lo à ação político-partidária.

Havia outros três pastores na Comissão, Dirceu Souza, Elton Lima e Lídio Mancini. Além deles, Lucas Filgueiras também era evangélico.
Dirceu vinha do interior de Bahia. Era um verdadeiro mestre da oratória e possuía grande conhecimento da Bíblia. Também desenvolvia trabalho de recuperação de viciados. Participara do grupo político do ex-parlamentar e agora governador do Estado, Luiz Freitas.

Elton, de Mato Grosso do Sul, era líder sindical. Liderou um dos mais bem sucedidos movimentos grevistas de todos os tempos em seu Estado e, com base neste retrospecto, concorreu e venceu a disputa para a Câmara Federal. Pessoa de bom coração, Elton se destacava pelo bom humor, disposição para o trabalho e seriedade.

Lucas Filgueiras, parlamentar baiano, talvez fosse um dos mais pragmáticos membros da CPI: dava preferência às atividades que pudessem produzir resultado eleitoral concreto para ele próprio. A despeito de participar de algumas viagens, normalmente não tinha atuação destacada.

Mancini era pastor da igreja mais contestada que já surgiu em nosso país: a Igreja Planetária dos Servos de Deus. Esta igreja, surgida nas duas últimas décadas, vinha crescendo a taxas assustadoras. Seu fundador, Klein Lopes, idealizou uma estratégia de pregação que incluía diversos elementos apropriados do catolicismo e dos cultos afro-brasileiros, aproveitando-se do misticismo do povo brasileiro. Não obstante, sua pregação atacava radicalmente tanto uns como outros.

A CPI do Tráfico de Cebolas aconteceu num momento em que a Igreja Planetária, e outras Igrejas Evangélicas, notadamente do segmento neopentecostal, viviam esse momento de explosão. Conquanto já surgissem algumas acusações contras essas igrejas, quanto a suas práticas litúrgicas com ênfase em doações e contribuições e também em relação a envolvimento em atividades ilícitas, havia grande respeito da parte dos demais parlamentares da CPI pela bancada evangélica.

Maurício Ramos, com seu fervor missionário, determinava a espiritualidade da CPI. Por vezes reunia o grupo de parlamentares presentes em uma viagem e conduzia orações antes do início dos trabalhos. Na condução de depoimentos e audiências sempre passava um sermão naqueles que já tinham confessado participar do tráfico ou que já tinham sido condenados pela Justiça por esse motivo:

- Você escolheu o caminho do mal, mas ainda pode mudar... Eu poderia ter sido como você, mas fiz outra opção... Essa sua vida não vale a pena, é um inferno...

Os parlamentares oriundos e representantes da Igreja Planetária eram bem conhecidos por seu pragmatismo. O próprio Mancini já tinha dado mostras disso quando defendera a acusação fraudulenta contra Almeida, para não desacreditar uma testemunha.

Um fato marcante ocorrido nos últimos dias do presidente José Francisco Ribas na Presidência da República é emblemático acerca da maneira dos planetários de fazer política. Naquele momento, a negociação era intensa na Câmara dos Deputados, com um grande grupo correndo para conseguir votos contra a instalação do processo de impeachment. O balcão de negócios via os preços subirem estratosfericamente, na proporção em que o clamor popular aumentava, desfavoravelmente a Francisco Ribas. A votação seria aberta.

Ouvindo falar das negociações em curso, um respeitado líder evangélico foi a Brasília, para conversar com os deputados evangélicos a respeito daquele processo. De um parlamentar vinculado à Igreja Planetária, ouviu o que se segue:

- Mas eles estão oferecendo rádios, TVs, imagina o quanto seria bom para a pregação do evangelho?

Lúcio Dantas, o tal líder evangélico, respondeu:

- Eu já ouvi esta proposta anteriormente!

- Onde, quando?

- Há muito tempo atrás. Foi num deserto. O diabo disse para Jesus: “tudo isto te darei, se prostrado me adorares”.

Nem mesmo a sabedoria da explicação foi suficiente para alterar o pensamento do pastor da Igreja Planetária que, alguns anos depois, conversando com um deputado distrital de Brasilia, confessava:

- A diferença de Lúcio Dantas para nós é que ele pensa que os fins não justificam os meios. Nós pensamos o contrário.
Correu pela Câmara dos Deputados a notícia de que o acordo tinha sido fechado. Na votação, no entanto, os parlamentares os parlamentares da Igreja Planetária haviam feito ainda pior: votado a favor do impeachment – teriam vendido mas sem entregar... Não se sabe ao certo se o acordo foi finalizado, e se a Igreja Planetária obteve algum benefício na negociação – o que faz pouca diferença.

Naquele período em que ocorria a CPI, próximo a eleições municipais, o Bispo Luís Martins, daquela mesma igreja, recebia diversas pessoas em sua sala, no escritório do antigo Cine Ritz em Boa Vista, então já adquirido pela Igreja Planetária, para tratar de assuntos diversos. Colocou alguns deles para dentro de sua sala, e, enquanto tratava dos assuntos que interessavam aos presentes, seu celular tocou, com o chamado de alguém de sua igreja, que ligava de Juazeiro do Norte, para tratar de apoio nas eleições. A Igreja Planetária havia apoiado o candidato Hermes Limão, que não passara ao segundo turno. O candidato da direita, Cláudio Trípoli, buscava negociar o apoio da Igreja para o segundo turno.

Martins falava descontraidamente ao telefone, sem se importar com quem estava a sua volta:

- Nós vamos apoiar ele sim, mas não é assim não, é do nosso jeito. Nós não “tamu” de quatro pra ele...

Certamente tal linguagem não parece muito adequada na boca de um bispo, mas mostra bem o pragmatismo dos planetários nas questões políticas, como também a despreocupação de Martins com o fato de que tal conversa estava sendo presenciada por, pelo menos, quatro pessoas.

Essa postura pragmática da Igreja Planetária, no entanto, não se tornou a regra de prática política das igrejas evangélicas, embora muitas outras, de igual modo, tenham aderido à excelência dos fins em detrimento dos meios. Na CPI do Tráfico de Cebolas o comportamento dos evangélicos não era melhor nem pior do que dos outros membros da comissão.

Maurício Ramos, o presidente, no entanto, era um missionário, um missionário na selva do tráfico de cebolas. Era de se estranhar que ele e os outros deputados evangélicos tenham “engolido” a Ayahuasca de Alvimar.

Alvimar permaneceu na Câmara. Em meio a tantos assuntos de relevância, a CPI resolveu, ou não conseguiu, se aprofundar nas questões relativas a ele.

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* Auditor concursado do Tribunal de Contas da União (TCU), presidiu a União dos Auditores Federais de Controle Externo (Auditar), mantém o blog http://www.ziller.com.br/blog/ e preside o Instituto de Fiscalização e Controle (IFC).

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