Grupos marcam festa em piscina desapropriada na Península dos Ministros

Mais de 13 mil pessoas confirmaram presença pelo Facebook em dois eventos marcados para comemorar a desocupação de terrenos públicos utilizados indevidamente por donos de mansão às margens do Lago Paranoá

Deflagrada desde segunda-feira (24) pelo governo do Distrito Federal, a derrubada de muros e cercas na orla do Lago Paranoá, uma das regiões mais nobres de Brasília, será festejada no próximo fim de semana. Mais de 13 mil pessoas já confirmaram presença em dois eventos agendados pelo Facebook para comemorar a desocupação de terrenos públicos utilizados indevidamente por particulares no Lago Sul, em especial na chamada Península dos Ministros. Apelidada com esse nome por abrigar a residência oficial de ministros, dos presidentes da Câmara e do Senado e embaixadas, essa quadra (QL 12) tem casas avaliadas em R$ 10 milhões.

Um dos grupos marcou para o próximo sábado (29) um “Mergulho na Piscina Pública”. Mais de 2 mil pessoas combinaram de tomar um banho de sol e se refrescar nas águas da piscina que ficava, até ontem, dentro das dependências de uma mansão na Península dos Ministros.

Ao lado da piscina, há também um “puxadinho”, onde o dono da casa construiu uma academia particular. Como as construções estão dentro da faixa de 30 metros da orla que foi desocupada, a área de lazer da mansão voltou a ser pública, como diz a descrição do evento na rede social: “Virou pública, galera, bora lá!!”.

Um dos organizadores do evento, o analista de sistema Alex Oliveira conta que o encontro tomou proporções inesperadas. Começou como uma brincadeira entre amigos e virou evento público assim que os participantes perceberam que o desejo de ter o local para curtir os dias de folga também era compartilhado por outros brasilienses.

“De repente, o evento se tornou um marco para comemorar a recuperação dessa área. Pra todo mundo ver que a gente estava esperando isso há mais de dez anos”, disse ele. “Resolvemos tornar o evento público porque a área é pública. Todo mundo pode ir, é de todo mundo.”

Alex disse ao Congresso em Foco que foi até o local nessa terça-feira. Segundo ele, a maioria dos proprietários das casas contratou seguranças para rondar a área e proteger suas propriedades. Ele explica que a intenção não é embate ou qualquer tipo de conflito com os moradores do bairro.

“A piscina fica a um metro da casa, mas a intenção é pular. Se for pra ter algum tipo de atrito, prefiro andar um pouquinho e pular no lago. A intenção não é criar guerra de classes, mas aproveitar o momento e comemorar o marco histórico”, afirma.

Isoporzinho

Outra festa com o mesmo sentido está marcada para domingo. Mais de 11 mil pessoas, até o fim da tarde, confirmaram presença no evento “Isoporzinho na Orla do Povo”. Popular em Brasília, esse tipo de encontro costuma ser feito em praças e avenidas da cidade para agregar a juventude e festejar. Cada um leva sua própria bebida em caixas de isopor. Um jeito de driblar o alto preço das bebidas comercializadas em festas na capital.

“A Orla será nossa!! De gente sem patente, sem título. De gente sem nenhum privilégio dado, herdado ou arrancado. De gente que está aqui pra se divertir no coletivo, com cidadania e de forma democrática!”, diz descrição do evento.

O evento é organizado pela juventude do PSB, partido do governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg. A militância faz uso de memes e piadas na página da rede social, sem deixar de politizá-la. “O local da festa é a orla da Península dos Ministros, morada de ‘gente muito fina’ como Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Eles merecem ou não um presentão nosso, como recompensa pelos "grandes serviços prestados ao nosso país", continua.

Novela de dez anos

A desocupação de áreas públicas às margens do Lago Paranoá é uma batalha que se arrasta há anos em Brasília. Em 2005, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios ajuizou uma ação civil pública, pedindo a derrubada dos muros e cercas que impediam a circulação de pessoas à beira do Paranoá. A determinação judicial foi dada em 2011, mas houve recurso por parte de moradores. No início deste ano, o Tribunal de Justiça do DF suspendeu a ação, concedendo liminar em favor da Associação dos Amigos do Paranoá, integrada por moradores da região.

O governo do Distrito Federal conseguiu reverter a liminar e começou, na segunda-feira (24), a por abaixo os filtros de acesso ao lago.  Na primeira etapa da operação, o governo pretende desocupar 47 lotes, entre o Lago Norte e o Lago Sul. A ideia é que, ao longo de dois anos, 80 quilômetros da orla estejam livres. Até a conclusão do plano de uso e recuperação da área, que deve ser apresentado pelo governo distrital, os píeres, gazebos, quadras esportivas e piscinas serão mantidos.

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