Em grampo da PF, Aécio conversa com Jucá sobre Lava Jato: “Acho que é agora ou nunca, né?”

Escuta foi feita pela Polícia Federal com autorização da Justiça. Investigadores dizem acreditar que senadores tramavam enfraquecer investigações do petrolão

 

 

Em uma interceptação telefônica feita pela Polícia Federal em um celular do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), uma ligação entre Aécio e o senador Romero Jucá (PMDB-RR) está sendo interpretada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) como uma tentativa de barrar a Operação Lava Jato. No diálogo, Aécio diz: "Eu acho que é agora ou nunca né?". Jucá responde: "Passou do limite, porra. Já devia ter sido".

A conversa aconteceu no dia 13 de abril deste ano, às 15h48, dois dias após o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a abertura de inquérito contra oito ministros do governo Temer, 24 senadores e 39 deputados federais, entre eles os presidentes da Câmara e do Senado com base nas delações de 77 executivos e ex-executivos da Odebrecht.

A conversa é parte do inquérito que tramita no Supremo contra o senador a partir da delação dos empresários Wesley Batista e Joesley Batista, donos da J&F Investimentos. Na ligação, Jucá chama Aécio de "meu presidente" e Aécio retribui o tratamento como "meu irmão". No trecho mencionado pela PGR, a conversa é transcrita da seguinte forma:

[...]

Aécio: Eui tive com o Eunício ontem e falou um pouco da conversa que vocês tiveram aquele dia... (incompreensivel)... A última. Eu tô... eu vou fazer o possível para chegar segunda aí mais no início da noite.

Jucá: Tá.

Aécio: Me dá uma ligada para marcar alguma coisa.

Jucá: Tá, tá.

Aécio: Também eu acho que é agora ou nunca, né?

Jucá: Não, não... deixa eu falar... ééé... passou dolimite, porra. Já devia ter sido.

Aécio: Claro.

Jucá: Agora vamos discutir tudo isso, né? Tá? É importante.

Aécio: Mas você vê condições?

Jucá: Vejo... Vejo... é.

Aécio: Então tá bom. Um abraço.

Jucá: Um abraço, ok. Tchau.

Alguns dias após essa ligação, no dia 20 de abril, a PF interceptou uma outra conversa. Dessa vez de Aécio com o senador José Serra (PSDD-SP). Na conversa, os dois comentam sobre falar com Temer para trocar o ministro da Justiça por alguém "forte"- para a PGR, com objetivo de controlar a PF.

Em uma sucessão de ligações com objetivos semelhantes, Aécio conversou com Gilmar Mendes, ministro do STF, no dia 26 de abril. Na conversa, o senador pede um favor ao ministro. Aécio pede a Gilmar que convença o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) a votar favorável ao projeto que trata da lei de abuso de autoridade. Gilmar concorda e diz que vai ligar para o senador. No mesmo dia o projeto foi aprovado na comissão.

No pedido de investigação apresentado pela PGR, a procuradoria relembra a conversa entre Jucá e o ex-presidente da Transpetro Ségio Machado, no qual Jucá afirmava que a solução era o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, como forma de travar a Operação Lava Jato no meio político. Na época, a conversa foi gravada pelo próprio Machado, que logo em seguida ofereceu à PGR como parte de sua delação premiada.

Tanto Aécio quanto Jucá negam que a conversa reflita uma trama para barrar as investigações do petrolão.

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