Governo reforça audiência para blindar ministro do Esporte

Enquanto governistas lotaram sessão conjunta na Câmara, líderes da oposição preferiram não fazer perguntas. Deputados sugeriram criação de uma CPI na pasta

A base governista na Câmara compareceu em peso nesta terça-feira (19) para apoiar a exposição do ministro do Esporte, Orlando Silva. Durante a audiência pública conjunta para tratar das recentes denúncias envolvendo o titular da pasta e o programa Segundo Tempo, deputados aliados ao Palácio do Planalto procuraram desqualificar o policial militar João Dias Ferreira. O argumento mais usado foi o mesmo de Silva: a falta de provas apresentadas até o momento.

“Quem tem provas do malfeito sou eu”, diz ministro

"Se esse cidadão tem provas, por que não as apresentou hoje à Polícia Federal? Se ele quer palanque, que vá procurar em outro lugar. Se tem provas, que as apresente à Polícia Federal", disse o líder do PCdoB na Câmara, Osmar Junior (PI). "Se a oposição tem interesse em apurar, deveria levar o senhor João Dias à Polícia Federal para que ele apresente suas provas. Ninguém pode conturbar os reais processos de investigação", completou, fazendo referência ao fato de Ferreira ter comparecido à liderança do PSDB no Senado hoje à tarde.

Outro ponto em comum foi o ataque à imprensa, em especial à revista Veja, que veiculou as denúncias feitas por Ferreira. "Ministro, sei como o senhor está se sentindo. Também já fui atacado por maus jornalistas. Quando li a matéria, pensei: conheço bem o ministro Orlando e conheço alguns campos do jornalismo brasileiro e, por isso, fico convicto que Vossa Excelência sairá disso maior do que já é. A verdade vencerá. Estamos aqui com Vossa Excelência para defender a sua honra como ministro", disse o deputado Vicente Cândido (PT-SP), relator do projeto da Lei Geral da Copa.

Filiado ao PCdoB, mesmo partido de Silva, Ferreira é responsável pela Federação Brasiliense de Kung Fu e pela Associação João Dias de Kung Fu, organizações não governamentais (ONGs) com as quais o ministério firmou dois convênios. O policial militar e um de seus funcionários, Célio Soares Pereira, garantem que Silva recebeu pessoalmente, na garagem do ministério, parte do dinheiro obtido com o esquema.

Oposição fica quieta

Durante a sessão conjunta das comissões de Turismo e Desporto (CTD) e Fiscalização Financeira e Controle (CFFC), integrantes da oposição preferiram não fazer perguntas ao ministro. A intenção era aprovar um convite para o policial militar reforçar suas denúncias na Câmara. "O depoimento dele é estarrecedor", afirmou o líder do DEM, ACM Neto (BA). Ao mesmo tempo da reunião, os principais oposicionistas ouviam Ferreira. Somente depois foram para o depoimento de Orlando "Nós aqui hoje não faremos questionamento ao ministro. Dissemos que era necessário primeiro saber das provas do delator, para depois ouvir o ministro. Quero sugerir que essa comissão possa aprovar de imediato um requerimento para o depoimento do senhor João Dias", completou.

"É imprescindível que se ouça o que o senhor João Dias tem a dizer", disse o líder do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira (SP). Ele pediu que os colegas aprovassem o requerimento de convite ao policial militar. Ao comentar que Ferreira teme por sua vida, houve manifestações jocosas. "O que foi montado hoje aqui foi um palanque, uma defesa ampla e plena para o ministro. Nada vai ser esclarecido para a sociedade. Façam de maneira jocosa e aprovem a vinda de João Dias aqui. Aí então estaremos tratando o assunto da forma séria como deve ser feito. E não da forma jocosa como as lideranças do governo o tem tratado."

Apesar do posicionamento dos líderes de não questionar Silva, outros oposicionistas fizeram perguntas. Vanderlei Macris (PSDB-SP) questionou sobre as denúncias envolvendo três convênios do programa Segundo Tempo. Outro tucano, Vaz de Lima (SP), sugeriu a abertura de uma CPI. A mesma posição teve o líder do PPS, Rubens Beuno (PR). "A denúncia é tão grave, que proponho uma CPI para investigar a fundo isso, que é da maior gravidade e se alastra por todos os estados brasileiros", afirmou.

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), rebateu as declarações dos oposicionistas. Disse que os deputados presenciaram uma "demonstração de cidadania" com a presença de Orlando Silva na reunião conjunta das comissões. O petista, assim como o ministro, desqualificou o policial militar e comentou que, "até agora", não saiu nada que "comprometesse a conduta do ministro". "Se esse cidadão (João Dias) tem provas, por que não as apresentou na Polícia Federal? E por que fica nas coxias com líderes da oposição? Nós não temos aqui de nos envolver em um processo para montar palanque, mas não vamos admitir que um cidadão desaqualificado faça daqui o palanque dele."

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