Governo abre o cofre para evitar vexame olímpico

Plano emergencial para incluir o Brasil entre os dez primeiros no quadro de medalhas do Rio é criticado por desportistas por privilegiar os atletas de alto rendimento em detrimento da formação escolar

José Cruz

A menos de quatro anos dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, o governo federal decidiu abrir os cofres para evitar um vexame histórico em casa, revela reportagem de capa do recém-lançado quarto número da Revista Congresso em Foco. O problema é que, apesar de a lógica recomendar investimentos na base, o governo federal optou mais uma vez por um plano emergencial, que prioriza o atleta de alto nível. É isso que prevê o Plano Brasil Medalhas 2016, lançado em setembro pela presidenta Dilma Rousseff. O apertado prazo de quatro anos para preparar uma equipe, que normalmente precisa de uma década para se tornar competitiva, é um dos motivos dessa opção.

O projeto estabelece a liberação de R$ 1 bilhão para os próximos quatro anos, além dos recursos já disponíveis da Lei de Incentivo ao Esporte, das loterias federais e dos patrocínios de sete estatais – Banco do Brasil, Caixa, Petrobras, Infraero, Correios, Eletrobras e BNDES – para estimular os desportistas olímpicos. Também foi valorizada a chamada Bolsa Atleta, uma espécie de mesada paga pelo governo federal para atletas de alto potencial olímpico. Mas, comparado aos R$ 6 bilhões que o esporte de rendimento recebeu nos últimos quatro anos, o Plano Brasil Medalhas é insignificante para o gigantismo do salto olímpico pretendido.

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Na opinião de experientes desportistas, o ponto de partida para formar atletas e tornar o país “potência esportiva” deve ser o incentivo à prática da Educação Física nas escolas. Mas aí começam os percalços. Primeiro, pela falta de instalações, equipamentos e de professores preparados para tal. E, principalmente, pela ausência de uma política de esportes de longo prazo, que inclua as áreas da saúde e a de educação. Falta definir competências elementares dos municípios, dos estados e da União nesse processo. Sem isso, giramos sem sair do lugar, e o dinheiro vai desaparecendo na ciranda das indefinições políticas.

A ousada meta do governo e do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) é dar um espetacular salto de 13 posições, saindo do 22º lugar, alcançado este ano nos Jogos de Londres, para o grupo das dez maiores potências olímpicas, em 2016.

Para que se tenha ideia do tamanho desse salto, o Brasil evoluiu apenas uma posição nos últimos quatro anos, considerando-se o 23º lugar nos Jogos de Pequim. Em tese, terá mais do que dobrar o número de medalhas obtidas em Londres (17) para chegar às 35 conquistadas pela Austrália, que terminou a última edição na décima colocação.

Medalha, medalha

Para alcançar a meta, o COB pretende fortalecer as modalidades em que, tradicionalmente, o Brasil conquista medalhas, como o judô, a vela e o vôlei. “Com isso, aumentará o número de pódios e se ampliará o leque de conquistas, como foi o caso do boxe, que conquistou em Londres três medalhas”, explica Marcos Vinícius Freire, superintendente de Esportes do Comitê Olímpico.

Diferentemente do que ocorre na base, não faltam recursos para o alto rendimento. No último ciclo olímpico, entre 2008 e junho de 2010, o governo federal destinou R$ 1,3 bilhão aos esportes olímpicos e R$ 142 milhões aos paraolímpicos, estes sim com resultados expressivos e já em invejável sétimo lugar no mundo.

Os recursos vêm de várias fontes e as estatais participam fortemente desse rateio. Enquanto elas financiam o esporte, promovem suas campanhas de marketing, agregando às suas marcas nomes famosos como os de Robert Scheidt (Banco do Brasil), César Cielo (Correios) e Fabiana Murer (Caixa), por exemplo.No total, 20 modalidades são patrocinadas por estatais.

Mas só dinheiro resolve? “O forte apoio governamental ao esporte de rendimento e à promoção de megaeventos é importante, mas não o suficiente”, diz Lars Grael, ganhador de duas medalhas olímpicas de bronze na vela e experiente gestor, com passagens pela Secretaria Nacional de Esporte, no governo Fernando Henrique Cardoso, e pela Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo.

Então, qual a saída?

“Precisaríamos de um plano nacional de educação física, do esporte na escola e de Jogos Estudantis amplo, democrático e inclusivo”, sugere. Para Lars, esses projetos deveriam ser decisão de governo para concretizar os alicerces de uma futura potência olímpica.

Divulgação
O craque Raí, campeão mundial de futebol em 1994, também vê a mesma saída apontada por Lars. “Precisamos desenvolver a cultura esportiva, tornando o esporte acessível a todos para que seus benefícios, na saúde, na educação e na formação de valores, façam parte da realidade de milhões de brasileiros”, defende o ex-jogador, presidente da ONG Atletas pela Cidadania.

 

Para ele, o esporte brasileiro precisa de uma mudança estrutural. “Se não mexermos na estrutura do esporte, definindo atribuições de clubes, federações, confederações etc., estaremos sempre desperdiçando dinheiro e milhões de talentos em potencial e nada deixaremos de legado”.

O que Raí defende é uma “revolução” para dar rumos ao esporte a partir da atividade física na escola. “Poderemos investir milhões em modalidades que tragam mais medalhas e nos aproximarmos dos top 10 dos países olímpicos. Mas isso será sustentável a médio e longo prazos? O objetivo dos Atletas pela Cidadania é que o esporte de base seja ampliado e encarado, primeiro, como um direito de todos”, adverte.

Risco imediato

Metas à parte, a verdade é que o projeto do governo é emergencial e corre-se o risco de o sofrível legado dos Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007, repetir-se em 2016. O risco é real porque, pela falta da iniciação do esporte na escola, desperdiça-se um potencial de 33 milhões de estudantes. Eles estão disponíveis para serem garimpados e identificados para treinamento numa das 28 modalidades olímpicas.

O quadro se agrava quando se observa a ineficiência na gestão dos recursos financeiros disponíveis. Até 1º de setembro deste ano, haviam sido aplicados apenas 8,5% dos R$ 90,89 milhões disponíveis no orçamento da União para implantar estruturas esportivas ou instalar cobertura em três mil quadras Brasil afora, revelam dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi). Isso sem considerar que um terço das escolas da rede pública não tem quadra esportiva nem espaço para que os alunos pratiquem a elementar Educação Física, indica o Ibope. O lançamento do plano emergencial mostra como o governo ainda ignora essa situação.

Compre aqui a edição número quatro da Revista Congresso em Foco e leia a íntegra desta reportagem. Veja como a esperança pelo melhor desempenho dos atletas brasileiros está depositado em projetos sociais e iniciativas isoladas de amantes do esporte. Saiba, ainda, quanto o governo e cada estatal destinaram às modalidades olímpicas nos últimos quatro anos.

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