Golpistas instalam chupa-cabra em banco na Câmara

Eduardo Militão


Três rapazes de 19, 22 e 27 anos entram na Câmara dos Deputados e se identificam na portaria, informando o nome e mostrando a carteira de identidade. Em dia de grande movimento no Congresso, em meados do mês passado, eles se misturam à multidão e se dirigem ao terminal de saque da Caixa Econômica, no prédio principal do Legislativo no Brasil. Lá, simulam fazer um depósito, enquanto instalam um aparelho na máquina para roubar senhas dos cartões dos clientes que passarem por ali. É o golpe do chupa-cabra, conhecido em várias partes do país, agora dentro do Congresso Nacional, monitorado por dezenas de câmeras e vigiado por homens de duas polícias específicas.


Os rapazes não conseguiram lesar nenhum cliente. Denunciados por funcionários da agência da Caixa Econômica, foram indiciados por fraude e estelionato pela Polícia Legislativa da Câmara. Entre o final de março e início de abril, há cerca de quinze dias, um deles voltou ao terminal da Caixa para retirar o chupa-cabra recheado de senhas dos clientes. Àquela altura, os policiais já haviam identificado o rapaz por meio de imagens de vídeo e anotações na portaria. Saindo dali, ele e seus colegas fariam saques e transferências de parte das 40 mil pessoas que transitam diariamente pelo Senado e pela Câmara, inclusive deputados e senadores.


Mas a Polícia da Câmara abordou o jovem e recolheu o aparelho chupa-cabra. Mesmo com as imagens da ação e os dados da portaria do Anexo II, o rapaz não confessou o crime. Seus outros dois colegas também não. Um deles ficou em silêncio.


Dois disseram ser desempregados e um, garçom. Moram todos no Paranoá, que abriga uma das maiores favelas de Brasília, o Itapoã, e tem uma distância social do Plano Piloto, onde ficam as Casas do Congresso. No Paranoá, a renda per capita é de 1,2 salário mínimo, contra 6,8 do Plano Piloto. A cidade tem o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Distrito Federal, 0,612, segundo dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domícilios de 2004. Na região do Senado e da Câmara, o IDH é de 0,948.


De acordo com o diretor da delegacia de polícia da Câmara, Marcos Mariano, o Paranoá possui diversos criminosos que agem com a instalação de chupa-cabras em terminais bancários. ?Tem um lá que fez um DVD ensinando a dar o golpe e estava vendendo para mostrar como é o modus operandi?, comentou Mariano.


Serviços comunitários


O inquérito, concluído ontem (5), foi encaminhado ao Ministério Público do Distrito Federal para oferecer denúncia à Justiça. Apesar de dois dos acusados terem passagem policial por furto e estelionato, a pena não deve ser grande.


Como mostrou o Congresso em Foco, golpistas que conseguiram embolsar R$ 130 mil de bancos com empréstimos consignados fraudados foram punidos apenas com a prestação de serviços comunitários. O caso aconteceu dentro do Congresso e envolveu servidores do deputado Nilson Pinto (PSDB-PA).


Segundo Mariano, as câmeras da Câmara registram imagens por períodos variáveis, dependendo da qualidade do vídeo e do tamanho dos discos rígidos instalados em cada setor da Casa. É possível recuperar imagens gravadas há, no mínimo, dois ou três meses. Em alguns casos, até seis meses.

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